Usar as mensagens SMS para ensinar mais e melhor Português

Primeiro SMS faz 20 anos e ainda resiste aos smartphones”, recorda, hoje, no PÚBLICO, o jornalista Alexandre Martins. Em Portugal, as mensagens SMS generalizaram-se mais tarde; em primeiro lugar, entre os mais novos, para perplexidade dos mais idosos e, também para irritação de inúmeros professores. Transformar a exasperação em algo mais proveitoso, foi o que pretendeu, num Boletim PÚBLICO na Escola, em Maio de 2003, Isabel Margarida Duarte, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, ao sugerir que se levassem as mensagens SMS para a sala de aula.
A justificação era simples: “Ao atentarmos no aumento explosivo da quantidade de mensagens SMS trocadas, nos tempos que correm, podemos ter duas atitudes: ignorá-lo, se acharmos que nada tem a ver connosco ou com os alunos que ensinamos (ou que é de outra esfera da vida deles: a privada, situada longe da escola onde devem aprender), ou aproveitá-lo para nos aproximarmos mais desses alunos e – esta sim, é a razão principal –, para lhes ensinarmos mais e melhor Português”.
Notava Isabel Margarida Duarte que “só se reflectirmos bem no que se passa quando queremos enviar mensagens que têm de caber em 160 caracteres é que poderemos entender as abreviaturas, as siglas (e as usadas noutras línguas também são curiosas: o “tvb” italiano não é qualquer comboio transalpino de alta velocidade, mas sim a fórmula de despedida “ti voglio bene”), a supressão das vogais que não ouvimos quando falamos ou, pura e simplesmente, a redução das palavras às respectivas consoantes (“comigo” transforma-se, por exemplo, em “cmg”)”.
A professora da Faculdade de Letras referia que “as mensagens SMS são hoje objecto de uma série de indagações diferentes: o que vieram modificar nas relações entre as pessoas? Aumentam ou diminuem a comunicação? Dizemos numa mensagem o que não diríamos na cara do interlocutor? Aumentam, portanto, a sinceridade, a desfaçatez, a ousadia?” Embora considerasse “sedutores” todos esses ângulos de abordagem, o que interessava era “considerar eventuais actividades para a aula de Português que possamos imaginar a partir deste tipo de mensagens e, também, em torno de alguns textos que sobre elas têm sido publicados”.
“A tese defendida é que todo o tipo de discurso tem lugar na aula de Português: este, que é novo, limitado a 160 caracteres, às vezes utilitário como a nossa comunicação oral mais corriqueira (“Tou atrasada. N vou ctg.”), às vezes sobretudo fático […], às vezes longo e íntimo, ou incisivo como um aviso ou uma palavra de ordem, pode também entrar na sala de aula”. As propostas apresentadas por Isabel Margarida Duarte eram múltiplas, mas o trabalho poderia começar pelo mais simples: “Algumas mensagens de telemóveis, sobretudo as mais cifradas e incompreensíveis para o professor, poderão ser transformadas, pelos alunos, em textos escritos ‘normais’ (‘Estou atrasada, por isso não vou contigo.” seria uma possível tradução da mensagem acima transcrita)”.

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