Livros para férias: Marie-France Hirigoyen – As novas solidões

Em As novas solidões (Vale de Cambra: Caleidoscópio, 2011), Marie-France Hirigoyen, uma psiquiatra, psicanalista e terapeuta familiar, conhecida, sobretudo, por ser autora de livros sobre assédio no trabalho e no quotidiano, dá conta de um paradoxo: vivemos na era da comunicação, mas, de facto, estamos todos mais sós.
A autora julga que “a solidão nem sempre é percepcionada como tal, porque pode ser disfarçada por encontros, agitação, ocupações profissionais”. Diz ela que “algumas pessoas, não suportando confrontar-se com o silêncio, preenchem-no com rádio ou televisão e vêem o que quer que lhes apareça à frente. São os mesmos que de seguida telefonarão a alguém ou ligarão o computador para conversar em chats durante toda a noite. Com uma bulimia de informação, outros mantêm-se a par da actualidade em tempo real, aderindo a um servidor que lhes envia SMS para o telemóvel. Para eles, um dia sem notícias é inconcebível…”
A psiquiatra, psicanalista e terapeuta familiar olha com desconfiança para muito do que a Internet oferece, considerando que, por exemplo, “o chat é tagarelice, palavras cujo conteúdo pouco interessa e que estão ali simplesmente para preencher o vazio”. Além disso, “não se trata também de uma troca de palavras rituais com o intuito de não entrar demasiado bruscamente no crucial da conversa, mas de palavras anódinas e que continuarão a ser anódinas. Num chat ficamos à superfície, não temos vontade de nos aproximar do outro. Os fóruns, os chats, os blogues, as páginas pessoais dos cibernautas, tudo isto constitui uma forma de nos afastarmos da realidade, de nos distanciarmos das emoções dolorosas”.
Marie-France Hirigoyen refere uma maleita destes nossos tempos: “Querem fazer-nos crer que o nosso sentimento de solidão provém de uma deficiência de comunicação e que é possível fazer desaparecer a solidão enchendo-nos de informação, música, consumo, comunicação… Até nos propõem formações em comunicação, estágios de desenvolvimento pessoal com, esta máxima paradoxal: ‘É preciso comunicar!’ Mas o problema é que todas as nossas conexões estão saturadas e já não há espaço para um território íntimo. Trocamos informações, mas a falta de comunicação tornou-se regra”.
As novas solidões é, sem dúvida, uma leitura muito proveitosa.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>