Miguel Pires no Boi-Cavalo: quando o crítico faz o jantar

Só não tinham reparado os muito distraídos: o Miguel Pires (do blogue Mesa Marcada) andava há que tempos a insinuar que queria fazer um jantar à séria, num restaurante. Todos os que o seguem no Instagram tinham percebido a mensagem que vinha sob a forma de (cada vez mais) fotos e, mais recentemente, vídeos a provar as suas qualidades de cozinheiro.

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Ele diz que as doses que vemos nas fotos são só para ficar bonitinho e que, na realidade, ele depois enche mais o prato para o comer, mas não sei se acreditamos. Bom, o facto é que as fotos fazem sucesso e, como ele as identifica como Home Lisboa, houve já quem lhe perguntasse onde ficava esse restaurante que ele tanto frequentava.

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Para desfazer dúvidas a quem as pudesse ter, na semana passada o Miguel cumpriu as ameaças e passou à acção. Tudo indica que conseguiu convencer o Hugo Brito, do Boi-Cavalo, em Alfama, a deixá-lo entrar na cozinha e encher-lhe os tachos e panelas com as suas ideias. O Hugo, que gosta de abrir o Boi-Cavalo a coisas diferentes, achou graça à provocação e, com a garantia dos vinhos da Casa da Passarela e do Joaquim Arnaut, lá se juntaram alguns incautos para ver o que daqui saía. Enfim, casa cheia para perceber se o crítico sabia cozinhar.

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Como se vê na foto em cima, o Hugo Brito trabalhou. E, como se vê na foto em baixo, o Miguel Pires supervisionou.

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Mas vamos lá falar de comida, que é o que interessa. Já se sabe que, para além dos empratamentos de influência nórdica, o Miguel gosta mesmo é de bons ingredientes e de explorar algumas técnicas que tem andado a aperfeiçoar. Os pratos não foram identificados como sendo de um ou do outro e tudo surgiu como um harmonioso dueto. Primeiro veio carapau seco com fígados e pickles de maçã e pepino (na foto lá mais acima) e, ao mesmo tempo, berbigão de Aveiro, brocollini e tinta de choco, ambos acompanhados por um Casa da Passarela Encruzado 2011, do Dão. Foi bom terem vindo os dois, porque se o carapau era, talvez, um pouco seco demais, o berbigão era de lamber a taça.

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Como isto não era para principiantes, Miguel e Hugo atacaram em seguida com um fígado de tamboril com salada de ervas, que veio com o Fugitivo 2015 (gosto do nome), também da Casa da Passarela. Depois veio o grão – aqui baptizado como “le chic c’est freak” – com caldo de pezinhos de vaca  e um molho de limão concentrado cuja confecção o Miguel já tinha amplamente partilhado no Instagram. E aí, no capítulo dos vinhos, passámos para um Gilda 2015, de Tiago Teles, Bairrada.

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E se os mais sensíveis achavam que tinham sobrevivido com distinção ao fígado de ramboril, eis que os dois cozinheiros avançam com um prato de língua de vitela com puré de couve-flor, homenagem (digo eu) a quem teve avós que cozinhavam língua maravilhosamente, como foi o meu caso – “sim, e é para comer tudo”, avisava o próprio nome do prato, que se fez acompanhar pelo Origens 2015 de Joaquim Arnaut. Por fim, pão de trigo barbela da padaria Gleba e um extraordináro e potente queijo de S. Jorge – foi muito difícil parar de comer nesta parte. A sobremesa era de morangos verdes, iogurte e espuminha de batatinha e tudo terminou regado com o espumante do Joaquim Arnaut.

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Estava muito bom, sim senhor. O crítico arriscou (fígados, língua, espuminha de batatinha na sobremesa, então Miguel!?) mas safou-se e o Boi-Cavalo saiu a ganhar com esta aventura arriscada. Mas, honestidade acima de tudo: afinal, quem cozinhou foi… ela (são eles que o dizem). Quanto ao Miguel, garante que não vai trocar a escrita pela cozinha e não está a pensar abrir um restaurante. Será, então, que vai continuar a cozinhar só para o Instagram?

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