O show de Alexandre Silva e o que se pode comer no Peixe em Lisboa

Dois “clientes” sentados a uma mesa, um auditório cheio para os ver comer – Alexandre Silva, do Loco, fez no domingo uma apresentação completamente diferente no Peixe em Lisboa.

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Na foto: Alexandre Silva durante a apresentação

Em vez do habitual showcooking, em que os chefes cozinham alguns dos seus pratos, enquanto vão explicando os conceitos, Alexandre decidiu reencenar um jantar, exactamente como é servido no Loco, o seu novo restaurante na Estrela, em Lisboa.

Não será fácil comer com tanta gente a olhar e fotógrafos à nossa volta, mas os dois voluntários portaram-se à altura e em pouco mais de uma hora conseguiram comer os inúmeros pratos que Alexandre lhes foi servindo, enquanto explicava cada um. Foi um sucesso. Mas é um modelo que só faz sentido quando uma refeição é tão semelhante a uma peça de teatro como são as do Loco – um ritual cuidadosamente cronometrado, em que todos os membros da impecável equipa revelam uma sintonia total, enquanto Alexandre, como um chefe de orquestra, comanda as operações.

Para quem assistiu e não conhecia ainda o Loco, julgo que a fórmula ajudou a perceber melhor um restaurante que é diferente de tudo aquilo a que estamos habituados em Lisboa – desde a rápida sucessão de snaks do início, até à pausa para o pão acompanhado por manteiga e molho, passando pelas várias bebidas diferentes, muito à base de fermentados (“nem todos os pratos combinam bem com vinho, alguns não combinam de todo”, explicou Alexandre Silva), pelos pratos confeccionados na mesa (a infusão usando um balão de café para o peixe-captura do dia) ou as desconcertantes sobremesas (gelado de caril verde e aipo, por exemplo).

As explicações que Alexandre foi dando serviram também para entender o que lhe interessa na cozinha, a incorporação das viagens de toda a equipa nos pratos, que vão mudando com frequência (“a cozinha portuguesa é a que é feita com produtos portugueses, não adianta ter uma carne de porco à alentejana com porco espanhol e amêijoas vietnamitas”), a atenção que é dada ao ritmo da refeição e a relação com os clientes (há, como já foi contado muitas vezes, um snack que é dado na boca).

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Na foto: o prato de lavagante de Rui Silvestre

Antes de Alexandre Silva, passou também pelo auditório do Peixe em Lisboa, no Terreiro do Paço, Rui Silvestre, chefe do Bonbon, o restaurante algarvio que surpreendeu todos ao conquistar a sua primeira estrela Michelin. Apesar de rápida (cerca de meia-hora) a apresentação de Rui Silvestre permitiu também ficarmos com uma ideia do trabalho que está a fazer, muito em torno do peixe e do marisco (que constituem 90% da ementa do restaurante e são, em grande parte, “comprados directamente aos pescadores”) – no palco cozinhou um prato de lavagante e outro de salmonete cozinhado com óleo a ferver, mantendo as escamas.

Para além das apresentações, o Peixe em Lisboa é também uma oportunidade para ver o que grandes restaurantes oferecem quando são desafiados a criar pratos a preços mais acessíveis e a trabalhar peixe e marisco de todas as formas possíveis. Este ano o festival quis dar destaque ao carapau – um peixe que merece ser olhado com mais atenção, como já aconteceu com a cavala, e valorizado – e alguns dos restaurantes apresentam pratos com carapau. Mas há muitas outras novidades, até porque há restaurantes em estreia, como o Ibo (com sabores mais moçambicanos), o Midori, do Penha Longa, em Sintra,  o Chapitô à Mesa, de Bertílo Gomes, e o Ritz, com Pascal Meynard.

As fotos que se seguem são apenas exemplos do que se pode provar por estes dias (até 17) no Peixe em Lisboa, no Páteo da Galé. Todos altamente recomendáveis.

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Os sempre presentes ouriços-do-mar do Ribamar, um clássico do festival

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Lavagante com trufa preta e yuzu, salada de espinafres, estaladiço de alho francês, de Pascal Meynard, do Ritz

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Óptimas chamuças com chutney de banana, do Ibo

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Carapau com gaspacho, numa versão de Pedro Almeida do Midori

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O polvo com cuscus de Trás-os-Montes, tinta de choco e salicórnia, prato de Bertílio Gomes.

Um comentário a O show de Alexandre Silva e o que se pode comer no Peixe em Lisboa

  1. Aqui há uns anos, também no Peixe em Lisboa, o Leonel Pereira foi quem primeiro (que eu saiba) usou essa fórmula de ter um casal à mesa a comer o que ele preparava, no auditório.

    Na altura, o casal fui eu e a Luísa.

    Lembras-te? Dos camarões vivos a fugir mesa fora?

    Responder

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