Vamos a Bragança comer butelo e casulas?

Quem nunca provou butelo pensará certamente que é preciso alguma coragem para se fazer um festival em torno de um enchido que de bonito não tem nada. Foi o que eu pensei quando no ano passado recebi um convite para um jantar no restaurante da Justa Nobre, em Lisboa, para a apresentação da primeira edição do Festival do Butelo e das Casulas, organizado pela Câmara Municipal de Bragança. Fechado, o butelo até parece promissor, mas quando o abrimos deparamos com uma série de ossos que nos deixam desconcertados. É isto, afinal?

Butelo com Casulas no PratoFoto de Mário Cerdeira/ 100% Foto

De facto, o butelo é feito com os ossinhos do espinhaço e das costelinhas do porco, com alguma carne agarrada, e rodeado pela bexiga ou bucho do animal. Dizem que de cada porco não se conseguem fazer mais do que dois ou três butelos. Mas o facto é que foi este enchido, à partida menos nobre, que se tornou uma tradição, no Carnaval, em Bragança. Uma tradição de que o povo da região se orgulha e que agora quer – e muito bem – partilhar com o resto do país. É por isso que estamos todos convidados para o segundo Festival do Butelo e das Casulas, de 21 a 23 de Fevereiro em Bragança.

Butelo & Casulas CruasFoto de Mário Cerdeira/100% Foto

Não cheguei a ir ao primeiro festival, mas fiquei rendida ao butelo cozinhado pela Justa Nobre. Ela fê-lo da maneira tradicional, cozendo o enchido durante umas duas horas, e servindo-o depois acompanhado por batata cozida e as indispensáveis casulas. Estas são cascas de feijão secas, e, para mim, verdadeiramente deliciosas, a cortar muito bem a intensidade da carne do butelo. Tudo regado com bom azeite de Trás-os-Montes, e ficamos conquistados. Rapidamente deixamos de dizer piadas sobre o aspecto do butelo e começamos a perceber porque é que foi este “patinho feio” quem acabou por merecer um festival. Os bragançanos chamam-lhe a “jóia do fumeiro” e Trindade Coelho terá dito dele: “É grotesto, mas no Entrudo, com orelheira, até parece que se escangalha no prato, a rir como um perdido para os que estão à mesa”.

Dizem os organizadores (que para além da Câmara incluem a Fundação Rei Afonso Henriques, a empresa Origem Transmontana e a Confraria do Butelo e das Casulas) que no ano passado o festival foi um sucesso, e por isso a aposta continua este ano. Esta é também uma forma de Bragança continuar a lutar contra o isolamento do interior, mostrando, orgulhosamente, o que tem de melhor. O festival tem um espaço para os produtores locais apresentarem os seus produtos, com destaque, claro, para o butelo e as casulas, tem animação de rua, uma visita guiada a Bragança, entrada gratuita nos museus Abade de Baça, Ibérico da Máscara e do Traje, Centro de Arte Contemporânea Graça Morais e Centro de Ciência Viva, e mais de vinte restaurantes aderentes.

Quem for, arrisque comprar um butelo para fazer em casa. Não é difícil, embora seja demorado – a cozedura deve ser  no mínimo de duas horas. Quanto às casulas, é só demolhá-las de um dia para o outro, e cozê-las normalmente. Vale muito a pena experimentar – e de usar noutras receitas. A Justa Nobre, por exemplo, fez este ano um creme de casulas como uma das entradas do jantar que serviu (havia também uns magníficos pastéis de Entrudo, uns rojões de porco bísaro,um azedo com excelentes grelos e presunto, e tudo isto apenas para abrir caminho a sua excelência, o butelo). Por isso, diz a Justa, quem não conseguir ir até Bragança e tiver saudades dos sabores transmontanos só tem que passar pelo Nobre, ali no Campo Pequeno. Para comprar o butelo e as casulas (e muitas outras especialidades de Trás-os-Montes), o melhor é contactar a empresa Origem Transmontana.

6 comentários a Vamos a Bragança comer butelo e casulas?

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  3. Hoje dia 28 de Fevereiro vamos a casa da Drª Manulea,nossa amiga, comer Butelo á moda de Bragança, acho que vamos gostar pois a carne com ossos é sempre muita boa.

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  4. Esta especialidade culinaria faz parte tambem da região espanhola vezinha da Galicia do Bierzo. Aquí acompanha-se de repolho, batatas e grão de bico e a composição, a mais dos ossos, tem peles do porco, rabo e as veces orelha.
    Certo, Trás-os-Montes e o Bierzo estão mais perto do que a geografia dizer.

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