Quando tudo depende da visita do crítico

Acabo de ver (foi uma prenda de Natal) A Matter of Taste, o documentário de Sally Rowe que acompanha durante dez anos o chefe britânico Paul Liebrandt e os seus esforços para conquistar Nova Iorque.

a-matter-of-taste

É pouco comum um filme ser feito ao longo de tanto tempo, mas isso representa uma enorme vantagem: a história não é contada depois de ter acontecido mas à medida que vai acontecendo. E permite-nos conhecer Liebrandt em diferentes momentos da sua vida, primeiro enquanto jovem com excesso de auto-confiança e uma certa dose de arrogância, depois com maior humildade, mas sempre com a absoluta certeza do que quer fazer – mesmo que na Nova Iorque pós-11 de Setembro as pessoas pareçam preferir confort food à comida mais ousada e criativa que ele lhes apresenta.

Na segunda parte do filme, depois de a carreira sofrer vários altos e baixos (há mesmo a fase em que só lhe resta fazer hambúrgueres) associa-se a Drew Nieporent, um investidor com dinheiro suficiente para uma operação a sério, e juntos abrem o Corton, com o qual acabam por conquistar duas estrelas Michelin. O filme também diz muito sobre o que é a ambição no mundo da restauração, mas, sobretudo, é revelador do poder dos críticos do The New York Times – a partir de certa altura, Frank Bruni (crítico daquele jornal entre 2004 e 2009) torna-se uma personagem quase tão importante como o próprio chefe.

Depois de abrir, e de receber excelentes críticas de todos os jornais importantes da cidade, o Corton aguarda apenas – e com expectativa crescente – a visita do crítico do NYT. Bruni faz-se esperar. Nieporent percorre atentamente as listas de reservas para ver se algum nome lhe desperta a atenção (os críticos do NYT usam sempre nomes falsos e geralmente dão números de telefone também falsos), e, quando isso acontece, liga para o número e, vitorioso, confirma que é falso. Enquanto isso, angustiado, Liebrandt lamenta que Bruni gosta apenas “de almôndegas com esparguete” e prevê que a sua apreciação ser negativa.

Finalmente, Bruni aparece para a primeira de três visitas. Sucedem-se as pequenas histórias – a toalha que largou no chão da casa-de-banho para ver se era apanhada, a longa lista de perguntas que enviou sobre o que comeu… O suspense acaba com a notícia de quantas estrelas (neste caso do NYT, não Michelin) ele atribui ao Corton. No final, é impossível não ficarmos impressionados perante o poder que um crítico assim tem no destino de um restaurante numa cidade como Nova Iorque.

Um comentário a Quando tudo depende da visita do crítico

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>