O que faz falta

Porque é que conhecemos tão mal a história da nossa cozinha? Porque é que há tantos livros de receitas e tão poucos livros de investigação?

el-festin-de-babette

(imagem do filme A Festa de Babette)

Porque é que não há mais incentivos, por exemplo nas escolas, para que se trabalhe de forma séria e profunda a história da nossa gastronomia? Porque é que os portugueses andaram por tantos pontos do mundo, trazendo e levando produtos e influências culinárias, e também disso se sabe tão pouco? São perguntas que surgem, inevitavelmente, em todas as conversas sobre gastronomia em Portugal.

Em Março de 2012, citei aqui Adam Gopnik, autor de The Table Comes First – Family, France and the Meaning of Food, que defende que na Paris do século XVIII “críticos, comensais, chefes e, sobretudo escritores” falavam e escreviam sobre comida de formas novas. Em Portugal, fala-se muito sobre comida, sobre chefes, novos restaurantes, estrelas Michelin ou a mais recente moda, seja ela a das hamburguerias ou a do gin. Mas, com algumas excepções, que sempre existem, há pouca investigação profunda e pouca publicação interessante.

Ou — e digo isto porque não quero cometer aqui injustiças — há talvez investigação que fica fechada nos institutos e nas universidades, trabalhos que acabam por ser publicados apenas nos meios académicos, estudos que nunca se sabe que existiram. Tenho notado que, apesar de o país ser pequeno, as pessoas muitas vezes desconhecem o trabalho que está a ser feito pelo vizinho do lado, nunca ouviram falar, não tiveram tempo de ler — ou, simplesmente, não demonstram qualquer curiosidade. Há, como em muitas outras áreas, uma enorme dispersão de esforços, projectos que são lançados fazendo tábua rasa de outros que já tinham percorrido o mesmo caminho, falta espírito de colaboração e vontade de juntar esforços para trabalhar em conjunto.

Há muita gente com vontade de lançar um projecto pessoal e pouca disponibilidade para perceber como é que ele se poderia integrar em algo maior. Há câmaras municipais que preferem organizar um festival gastronómico com um tema muito parecido com o do município ao lado, em vez de pensarem numa estratégia conjunta que poderia beneficiar todos. E há muita informação que não circula. Falta, talvez, uma iniciativa que agregue tudo isto, que crie uma rede, que reúna o conhecimento disperso, que ponha as pessoas em contacto, que ajude a perceber como é que um projecto pode complementar outro em vez de o duplicar. Talvez assim se gastassem menos energias e se conseguissem melhores resultados. Na gastronomia e no país em geral.

(texto publicado na revista 2 do PÚBLICO a 22 de Dezembro de 2013)

3 comentários a O que faz falta

  1. Olá Alexandra

    Até há alguns anos, creio que existia um considerável preconceito na academia em relação a tudo o que fosse estudos sobre comida. Falo por experiência própria. Durante os anos em que fui estudante e docente numa licenciatura de antropologia, a comida foi sempre considerada um campo disciplinar de importância menor. E as pesquisas que fiz na área eram sempre alvo de comentários mais ou menos jocosos por parte dos colegas. Há 20 anos (ainda estudante de mestrado) fui para a aldeia das Donas, no Fundão, para casa da última padeira da aldeia com o objectivo de registar o fabrico dos bolos de azeite. Quando referia o facto aos meus superiores tinha de ouvir coisas tão simpáticas como: “isso não é muito doméstico?”.
    O Prof. José Manuel Sobral do ICS (na arguição do meu doutoramento aproveitou para referir que estava também habituado a esses comentários preconceituosos sobre comida) tem vindo a trabalhar sobre práticas alimentares, cruzando as temáticas do nacionalismo e da gastronomia. Na página do ICS encontrarás informação sobre os trabalhos dele e da sua equipa.
    Creio que o panorama tem vindo a mudar nos últimos anos. Não sei se pelos exemplos do que se faz lá fora, nomeadamente em França onde a investigação sobre as práticas alimentares já está devidamente consolidada. E porque, lá, a comida é de facto olhada como património a estimar.
    Ou porque a academia descobriu um novo campo de estudos que alia o turismo à gastronomia e que é tão caro às estratégias de promoção dos municípios. Refiro-me, também, às pesquisas sobre os processos de patrimonialização alimentar. E tens, igualmente, os trabalhos associados aos processos de classificação de determinados produtos alimentares. Creio que, aí, a UTAD é a instituição que tem desenvolvido um trabalho mais consistente.
    Tens também os trabalhos da Isabel Maria Fernandes (pessoa com uma ética de investigação rara) como “O tempo dos alimentos e os alimentos no tempo” (se quiseres saber mais sobre a autora podes consultar o seu blogue pessoal: Saberes Cruzados).
    Sobre a possibilidade de existir uma entidade que agregasse todas estas iniciativas, creio que já se tentou em 2001 com a Comissão Nacional de Gastronomia (extinta em 2006 no âmbito do PRACE). Por que razão a iniciativa falhou, não sei. Mas, de facto, continuamos todos cegos e surdos em relação ao trabalho do vizinho.
    Em relação às câmaras municipais e ao facto de optarem sempre pela mesma estratégia simplista de fazer a “feira gastronómica dos produtos da região” – e que funcionam como expressões do neotribalismo gastronómico- e não considerarem sequer outros caminhos de promoção do património alimentar local, bom, isso dava uma tese! Falta a sensibilidade para perceber que não se promove um património com pseudo investigações feitas em meia dúzia de meses por pessoas pouco disponíveis para “escarafunchar” pistas junto da comunidade.
    E concordo inteiramente com aquilo que a Margarida Vieira escreveu no comentário inicial ao teu post. Hoje tira-se um livro do forno com uma velocidade impressionante. Parece que basta ter boas fotografias e fazer umas considerações copiadas, sabe-se lá de onde, sobre super alimentos e pronto, está feito…
    Mil desculpas pelo testamento!

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  2. Concordo 100% com o que escreveu.
    Investigar é uma atividade que assusta muitos portugueses, mesmo aqueles que foram supostamente preparados para isso durante a sua passagem pela universidade. Porque dá muito trabalho. Então na área da alimentação, acontece todos os dias, nos jornais & outros, blogues…. Até há livros de nutrição que são mais livros de receitas e livros de receitas que gostariam de ser um livro sobre nutrição. O resultado é o estilo pseudofraco.

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  3. Boa tarde. Gostaria de partilhar consigo uma conversa mais longa sobre o tema da alimentação. Estou a investigar sobre a alimentação no concelho de Loulé na Idade Média. Não sei se os meus conhecimentos a poderão ajudar mas talvez possa encontrar algum interesse nisto, para além de outros projectos que estão no terreno sobre o tema. Não tenho blog nem facebook.Pode contactar-me por e-mail. Cumprimentos.

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