Já falei aqui uma vez, a propósito do Peru e da Coreia do Sul, das estratégias planeadas de alguns países para se tornarem referências gastronómicas mundiais. Mas agora voltei a tropeçar no assunto ao ler o mais recente número da revista Monocle, que faz o balanço do poderio dos países em termos de soft power.
O soft power pode, como sabemos, passar por muitas coisas, pela música, pela qualidade de vida, pelo ambiente, pelo património, pela arquitectura moderna, pelo desporto, enfim, por mil e uma coisas, entre as quais a comida. E é esse o caso de outro país asiático que está a tentar posicionar-se não só como destino gastronómico, mas também como referência a esse nível para o resto do mundo: a Malásia.
E, mais uma vez, segundo o texto da Monocle, isto passa por uma estratégia pensada e articulada (acho que nunca é de mais sublinhar palavras como estas). Em primeiro lugar, os malaios têm uma enorme paixão pela sua comida, mas esse é um critério que penso que os portugueses também preenchem facilmente. A frase seguinte é mais relevante: “O gosto dos malaios por comer é tão grande que o Governo vê agora a comida como a forma ideal de promover esta nação do Sudeste asiático.”Para isso, foi criado o Malasian Kitchen Programme, com o apoio do organismo malaio para o comércio externo e desenvolvimento, o Matrade, que tem como objectivo promover a imagem do país através da comida.
Tal como fez, por exemplo, o Peru, também a Malásia escolheu alguns chefs para serem Embaixadores Gastronómicos “e organiza regularmente eventos em todo o mundo para dar às pessoas a oportunidade de conhecerem a comida malaia” — só para a última Noite Malaia, em Outubro em Londres, apareceram mais de 35 mil pessoas em Trafalgar Square. Pode-se argumentar que Portugal também faz acções de promoção da sua cozinha fora, mas o mais importante é que há já 720 restaurantes registados no programa malaio, 220 dos quais na Austrália, e isto significa que há um controlo de qualidade e uma exigência de consistência fundamentais (veja-se, em Portugal, a multiplicação de tascas e tabernas com petiscos e as enormes diferenças de qualidade que apresentam, com óbvias consequências negativas para a percepção com que os estrangeiros ficam da comida portuguesa).
Já agora, no top da Monocle, Portugal (que ocupa o 25.º lugar entre 30 países), está em queda por causa da crise económica e, sobretudo, porque “muitas das pessoas necessárias para ajudar o país a dar a volta estão a ir-se embora para os relativos santuários de São Paulo, Luanda e o Norte da Europa”. Mas a revista deixa um conselho: o país devia apostar mais na nova geração de arquitectos e designers, áreas em que “tradicionalmente tem sido forte”.
(texto publicado na Revista 2 do PÚBLICO a 8 de Dezembro de 2013)
