Cláudio Pontes, uma boa surpresa no clássico Aviz

Foi uma daquelas surpresas boas. Nunca tinha entrado no restaurante Aviz. Conhecia a história, claro, do famoso Aviz Hotel, inaugurado em 1933, e que na altura era o único hotel de luxo de Lisboa.

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Foto 1: Do menu de Natal do Aviz, Galinha gorda poedeira num caldo dourado com ovinho a babar (só o nome é toda uma tentação)

Foi residência de Calouste Gulbenkin nos últimos anos de vida do magnata de origem arménia, e, conta-se, terá sido usado tanto por espiões aliados como por alemães durante a guerra. Pelo palacete da Av. Fontes Pereira de Melo passaram ilustres como a rainha D. Amélia, Eva Perón, Maria Callas, Frank Sinatra, Ava Gardner ou Amália Rodrigues. E na cozinha reinava o mestre João Ribeiro (para conhecer esta figura fundamental aconselha-se a leitura de O Livro do Mestre João Ribeiro, da Assírio e Alvim).

Rabo de Boi à Rossini

Foto 2: Rabo de boi “à Rossini”

O Aviz fechou e acabou por ser demolido em 1962 para dar lugar ao Hotel Sheraton. O restaurante iniciou então um périplo por vários sítios de Lisboa, até à reabertura, em 2005, do Hotel Aviz, agora na Rua Duque de Palmela, próximo do Marquês de Pombal. Com o mesmo serviço exclusivo da Vista Alegre, a mesma baixela Christoffle, também personalizada, o mesmo serviço de sala totalmente old school (como diria Bourdain, repito eu de cada vez que uso esta expressão). Todo o prazer de um clássico, portanto.

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Foto 3: Outra das propostas do menu de Natal, Bacalhau albardado em couve tronchuda num esmagado de grão e same

E agora com um chefe novo, Cláudio Pontes, um açoriano de 33 anos, vindo do Tavares, onde trabalhou com Aimé Barroyer. Fui a um almoço para conhecer o trabalho que Cláudio ali está a fazer desde Outubro, e foi essa a boa surpresa. Pelo que vi pareceu-me que está a conseguir o difícil equilíbrio entre o classicismo e a herança do mestre João Ribeiro por um lado, e por outro a necessidade de modernizar uma cozinha que (imagino) o próprio João Ribeiro não gostaria que ficasse parada no tempo.

Começámos o almoço com uma Terrina de lebre com pistacchios e molho de frutos silvestres, seguida por uma Corvina do Tejo a mariscar ostras e mexilhões na Foz, um Pampo de Peniche abafado em jeropiga, castanhas grelos e feijão “papo de rola” (uma boa combinação de peixe com feijão), e, como prato de carne, Rabo de boi à “Rossini” (o “à Rossini” deve-se ao foie-gras e às trufas, que também eram usadas no célebre tornedó baptizado com o nome do compositor italiano). A sobremesa foi um muito outonal, e muito bom, soufflé de castanhas, acompanhado por hidromel (a chamada “bebida dos deuses”) servido num bloco de gelo.

3 comentários a Cláudio Pontes, uma boa surpresa no clássico Aviz

  1. Pingback: Regresso ao Aviz em tempo de frio – Mais Olhos Que Barriga

  2. Olá, Alexandra. Fico satisfeito em saber que o Aviz continua bom, dentro da mesma linha que estabeleceu quando abriu nessa morada, estabelecida pelo chefe Carlos Martins, que alguém me disse que tinha ido para fora, creio que para África. E que tal a corvina do Tejo? É um bom sinal a recuperação da pesca deste peixe.

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