Regresso aos anos 70

Depois de uma viagem à comida da Inglaterra vitoriana, do universo gótico, da época dos romanos, do mundo medieval, dos anos 60, e de outros temas inspiradores como “a última refeição no Titanic”, o chef britânico Heston Blumenthal, num episódio do seu extraordinário programa Heston’s Feasts (a passar actualmente na SIC Radical), resolveu voltar à sua infância, nos anos 70.

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E se no programa dedicado à década de 60 tinha tido ideias tão fantásticas como pôr os convidados do seu jantar a lamber papel de parede, nos anos 70 não resistiu a regressar à sala de aula, e aos (terríveis) almoços na cantina da escola. Depois de uma homenagem à sopa chinesa instantânea, Pot Noodles, a que bastava juntar água quente (grande parte do fascínio para uma criança era poder ser ela própria a “cozinhar”), Heston vai à escola.

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Se as vossas memórias de almoços escolares no Portugal dos anos 70 são más, podem reconfortar-se com a ideia de que na Inglaterra dos anos 70 a experiência era semelhante mas mais tenebrosa porque a comida feita industrialmente, e com métodos obscuros, era a grande moda. Até as cozinheiras da escola de hoje às quais Heston pede ajuda neste regresso ao passado (que transforma em pratos deliciosos para os convidados) são incapazes de comer o que se dava às crianças nesse tempo, em que pratos castanhos com flores cor de laranja eram um must.

A base dos fritos empapados em gordura era uma pasta pré-cozinhada de carne de porco e cor rosada chamada Spam. Ao lado, um puré de batata de pacote, de preferência com muitos grumos, e por cima um líquido viscoso castanho a que se convencionou chamar molho. E, sim, a palavra spam para indicar correio electrónico insistente e não desejado tem que ver com o Spam dos almoços escolares e com um sketch dos Monty Python passado num café de qualidade duvidosa em que todos os pratos do menu incluem Spam — qualquer coisa como “ovo, bacon, salsicha e Spam; Spam, bacon, salsicha e Spam; Spam, ovo, Spam, Spam, bacon e Spam; Spam, Spam, Spam, ovo e Spam”, e por aí fora, terminando numa lagosta Thermidor com… Spam.

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Dos anos 70 em Portugal lembro-me do patê Tartex apresentado com o pão nos restaurantes, lembro-me de virem grandes pedaços de manteiga em cima da rodela de limão que acompanhava o bife, da garrafa barriguda de Laranjina C, das primeiras croissanterias à francesa (ou terá sido mais tarde?) com croissants quentinhos com chocolate ou molho de cogumelos, da excitação que era ir comer hambúrgueres com batatas fritas ao Great American Disaster, em Lisboa, e do (inesquecível) snack-bar do centro comercial Apolo 70. Quanto aos almoços da cantina da escola… a verdade é que, felizmente, eu ia almoçar a casa.

(texto publicado na revista 2 do PÚBLICO a 24/11/2013)

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