Não tinha ouvido falar de Fred Harvey e das Harvey Girls até ter visitado o Grand Canyon. Aí fiquei a conhecer aquele que foi, no final do século XIX e início do século XX, o grande império de comida rápida para viajantes de comboio a caminho de territórios ainda inóspitos.
Eram os tempos em que a fronteira estava sempre a deslocar-se um pouco mais para oeste e em que cidades cresciam a grande velocidade ou morriam sem história dependendo de as novas linhas de caminho-de-ferro passarem ou não por elas. Eram os tempos de Billy the Kidd, em que os restaurantes corriam o risco de ser atacados por bandos de cowboys insolentes ou de índios enraivecidos.
E, no meio de tudo isto, Fred Harvey, um britânico que emigrou para os Estados Unidos em 1853, com 17 anos, mudava a forma como os americanos encaravam a restauração. No El Tovar, no Grande Canyon, um dos hotéis que pertenceram ao império Fred Harvey, comprei Appetite for America, de Stephen Fried, o livro sobre o homem que “civilizou o Oeste Selvagem a cada refeição que serviu”.
Fred Harvey passou a ser uma marca, identificando a cadeia de locais para comer depressa e bem, com um serviço como nunca se vira na América, composto inteiramente de raparigas, as Harvey Girls, vindas de vários pontos do país, impecavelmente fardadas, e treinadas para manter um elevado nível de qualidade e sofisticação no atendimento, mesmo que os clientes fossem (como eram, na maior parte dos casos) um bando de viajantes cansados e impacientes (no entanto, uma das regras de ouro da casa era a obrigatoriedade de se usar casaco na sala de jantar).
O que é curioso é que quase um século antes de surgirem as primeiras cadeias de fast-food, o precursor colocou a fasquia altíssima — não só no serviço como na qualidade da comida, mesmo quando o país atravessou a Grande Recessão, altura em que as casas Fred Harvey alimentavam, discretamente, quem não podia pagar. Foi nas casas Fred Harvey na linha Atchison, Topeka e Santa Fé que muitos americanos comeram pela primeira vez um verdadeiro bife mal passado, habituaram-se a um sumo de laranja obrigatoriamente acabado de espremer e a um café sempre fresco.
Mas o mundo mudou. Basta pensar que nesses tempos o verdadeiro poder na América estava nas mãos dos barões dos caminhos-de-ferro, que para inaugurarem uma nova linha eram capazes de reunir um grupo de convidados ilustres, levá-los a passear por territórios inexplorados, organizar um ataque índio para os divertir, incendiar a pradaria apenas para lhes oferecer um espectáculo — e no final servir-lhes uma refeição inesquecível com a assinatura Fred Harvey.
(publicado a 15 de Setembro de 2013 na revista 2 do PÚBLICO)



