Avillez abriu o Café Lisboa

É o café do Teatro São Carlos, em Lisboa, uma sala muito bonita aberta ao largo, com esplanada, que reabre agora pela mão de José Avillez. O Café Lisboa fica mesmo em frente do Belcanto, também de Avillez (e muito perto do resto da “família”, o Cantinho e a Pizzaria Lisboa) e tem as portas abertas desde terça-feira à noite (todos os dias das 12h à 1h da manhã).

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A ideia é recuperar o espírito dos cafés de Lisboa. E o que mais se comia nos cafés de Lisboa? Bifes, claro. Aqui também há vários, desde o Bife à Café Lisboa (19,50 euros), a partir do célebre Bife à Marrare, ao Bife com Cogumelos Portobello (21,50), ou com Molho de Foie Gras e Trufas (23,50), ou com Copita, Cebola e Queijo da Serra (22,50).

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Mas a assinatura da casa serão os Pastéis Lisboa, pastéis de massa tenra que Avillez garante serem sempre feitos na hora (2 euros dose individual, ou 10 euros se for no prato acompanhados com arroz de grelos), e, claro, um pastel de nata com açúcar e canela, tradicional, e quentinho (1 euro).

O resto da história – e a conversa com José Avillez – ficam para contar no Fugas online nos próximos dias. Aqui deixo, para já, as fotos das duas especialidades da casa, e ainda um texto do meu pai, Eduardo, sobre os cafés de Lisboa.

 

Os orfãos dos cafés

Tal como Borges escreveu um dia, eu poderia de igual modo dizer: “Nasci noutra cidade que também se chamava Lisboa”.

Borges diz que recorda o que viu e também o que os pais lhe contaram. Mas ele sabe que as nossas verdadeiras cidades são sempre as cidades da nossa infância. Por isso acrescenta: “sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os paraísos perdidos. / Alguém, quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta página / lamentará as torres de cimento e o podado obelisco”. A cidade de hoje será a infância de amanhã.

Por tudo isto gosto imenso dos livros de Marina Tavares Dias. Com uma obstinação exemplar, ela tem vindo a reerguer a Lisboa Desaparecida, isto é, a Lisboa da minha infância e sobretudo a Lisboa dos meus tempos de estudante, mas também a Lisboa dos meus pais e dos meus avós (com o tempo tudo se mistura, e regressamos todos à mesma pátria intemporal, à Lisboa fora do tempo, onde brincámos e aprendemos a amar). Associando a isto duas outras obsessões, mas a verdade é que as duas coisas não estão separadas: Sá-Carneiro e Pessoa, ligados aos cafés que eles frequentaram e aos lugares onde passearam e escreveram.

Num desses livros envolvidos numa aura de bruma, Marina Tavares Dias restitui-nos agora Os Cafés de Lisboa (Quimera). Noutro dia Jorge Listopad escrevia que à saída do Teatro São João do Porto me tinha visto, no último café iluminado na noite da cidade, a escrever certamente a crónica para o dia seguinte. Não era por acaso. As crónicas escrevo-as sempre em computador. O resto (que se poderia dizer “o essencial”, mas talvez isto nem sempre bata certo), escrevo-o à mão, em cadernos verdes ou azuis, nos cafés ensonados e friorentos que ainda existem pelo mundo fora.

A verdade é que adoro cafés. E que tive em cafés alguns dos mais belos momentos de leitura, encontro, discussão, contemplação, escrita, estudo, violência de olhares, ternura das mãos, de que me posso lembrar. Nesses cafés que a Marina recorda no seu livro: o Monte Carlo, o Monumental, a Brasileira, o Palladium, ou, depois, a Grã-Fina, o Nova-Iorque, o Vává. E entre os motivos que tenho para gostar do Porto estão os cafés que ainda lá existem: cafés rodeados de noite e fumo, com velhos de unhas negras, prostitutas tristes, e adolescentes sufocando a tristeza num bolo de arroz e num leite quente.

Eduardo Prado Coelho, in Crónicas no Fio do Horizonte, Asa, 2004

3 comentários a Avillez abriu o Café Lisboa

  1. Pois bem, eu fui ao café do Chefe Avillez e saí de lá desiludido. Fiz-lhe uma nota no sitio do café e até hoje sem resposta, não sei se por ter ficado ofendido ou porque razão foi. Eu gosto muito do cantinho de onde saí satisfeito quer com a simpatia do atendimento como acima de tudo com a comida que me foi servida, mas no café, saí de la com sabor a sal e nada mais, penso que o Chefe Avillez, se não quer perder a reputação, tem de acompanhar muito mais de perto, para que das cozinhas com o seu nome, saiam pratos apenas de primeirissima qualidade.

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  2. E de extrema importancia que a cultura Lisboeta gastronomica/social se mantenha viva . A globalizacao cultural morbida do “Mc Donalds” e a sua grande alavanca economica nao deve permear nas nossas tradicoes regionais .

    Armando Ferreira

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