Landgraf e Avillez, um adeus ao ano de Portugal no Brasil

Tive o enorme prazer de almoçar no Belcanto o menu preparado por José Avillez e pelo chefe brasileiro Alberto Landgraf para encerrar em Portugal o ano de Portugal no Brasil (por muito que me esforce vou sempre tropeçar neste nome complicado do ano de Portugal no Brasil e do Brasil em Portugal).

Belcanto cozinha_1

A grande maioria das iniciativas decorreu no Brasil, onde vários chefes portugueses estiveram a cozinhar em duetos com chefes brasileiros. Mas houve também alguns ecos disso cá, com Avillez a receber alguns dos nomes que se têm destacado nos últimos tempos na cozinha brasileira, como os irmãos Castanho, Beth Beltrão ou, agora, Alberto Landgraf (o Miguel Pires esteve no Épice, o restaurante de Landgraf em São Paulo, e podem ler aqui a opinião dele).

A ideia da iniciativa era mesmo este contacto entre chefes, que ajuda a criar pontes, cumplicidades, e lhes permite conhecer novos ingredientes, técnicas, etc. Mas é uma experiência que acaba por ser partilhada por muito poucos – aqueles que cabem nas mesas do restaurante numa determinada noite.

Fotos (Jorge Padeiro/Agência Zero.net)

(em cima): José Avillez (à direita), Alberto Landgraf (ao centro), e David Jesus (à esquerda), na cozinha do Belcanto

Azeitona 3 José Avillez

1) Azeitona3 – José Avillez (azeitona em três versões)

2) Ferrero Rocher de foie gras – José AvillezPato com laranja Alberto Landgraf

3) Pato com laranja – José Avillez

Ferrero Rocher de foie gras José Avillez

Se o contacto a esse nível é fundamental (basta ver a experiência do Cook it Raw) tive pena que não houvesse oportunidade para mais gente em Portugal ter contacto com a nova cozinha brasileira. Não sei em que modelo isso podia ter acontecido, e não sei quanto poderia custar (nem quem pagaria, o que, como sabemos, ainda mais nos dias que correm, é a questão essencial), mas imagine-se um fim-de-semana de mini-festival brasileiro, com produtos, pratos a preços mais acessíveis, conversas (uma espécie de Peixe em Lisboa, mas na versão Brasil em Lisboa). Acho que haveria muito a descobrir, e  que podia ser um sucesso.

Bom, não havendo Brasil em Lisboa, partilho aqui algumas imagens do almoço no Belcanto – com o regresso, sempre surpreendente, a alguns dos pratos clássicos de Avillez (como é que é possível o bacalhau com grão ter tanto sabor?, é uma pergunta que volta a cada vez que o provamos), e a descoberta da cozinha de Alberto Landgraf.

Palmito pupunha mel de Jatai e Aspargos com rapadura Alberto Landgraf

4) Palmito pupunha, mel de Jataí e espargos com rapadura – Alberto Landgraf

Cavalinha curada limão pickles de cenoura e vinagreta de cenoura Alberto Landgraf

5) Cavalinha curada, limão, pickes de cenoura e vinagreta de cenoura – Alberto Landgraf

Coração de pato biju de milho suco de ervilha Alberto Landgraf

6) Coração de pato, biju de milho, suco de ervilha – Alberto Landgraf

Sapateira com tupinambo José Avillez

6) Sapateira com tupinambo – José Avillez

Gostei dos sabores puros, como o do suco de ervilha, a saber a verde, que acompanhava o coração de pato com biju de milho (aliás, gostei muito de todo este prato), da crueza dos espargos com rapadura, do ácido dos pickles de cebola com tucupi e vinagreta de castanha-do-Pará. Não são pratos muito “desenhados”, nem nos levam para sabores fáceis – tal, como, aliás, o sorbet de açaí, beterrabas, farinha de água e queijo de cabra, da sobremesa – mas puxam-nos para a terra sendo, ao mesmo tempo, acolhedores. Transportam uma espécie de natureza luminosa que soube bem numa Lisboa meio chuvosa.

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