Azeite algarvio premiado em Nova Iorque

A primeira vez que visitei Detlev von Rosen e o seu olival, em Moncarapacho, no Algarve, fiquei fascinada com as histórias que contou.

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Agora regressei lá, numa visita organizada para um grupo de jornalistas, pouco tempo depois de o azeite Monterosa ter recebido duas medalhas de ouro no importante Concurso Internacional de Azeite de Nova Iorque (mais de 700 azeites participantes) – com a variedade Picual (na categoria Delicado) e com a maçanilha (Robusta).

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Para Detlev esta é uma vitória com um sabor especial porque é uma prova de algo que ele sempre disse, contra muitas opiniões em contrário: é possível fazer bom azeite no Algarve. E, acrescenta,  é possível ganhar dinheiro fazendo bom azeite no Algarve (um litro de Monterosa custa 34 euros, metade da produção é vendida em Portugal, a outra metade é para exportação).

Publico abaixo o texto que escrevi para a Fugas, há cerca de um ano, depois da primeira visita a Detlev e ao seu olival.

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“Durante 25 anos, o sueco Detlev von Rosen passou ao lado das oliveiras milenares que existiam no terreno que tinha comprado em Moncarapacho, no Algarve, e não pensou nelas. Mas houve um dia em que tudo mudou – e as oliveiras velhinhas mudaram também (um pouco) a vida do homem que em 1969 atravessou a fronteira portuguesa num Mini Morris e pensou que estava “num jardim perpétuo”.Nunca mais se foi embora. “Era um paraíso, nunca mais pensei noutra coisa”, conta, percorrendo o extenso olival (20 hectares) de onde hoje retira o azeite virgem extra Monterosa.Mas no princípio era a laranja.Todo o espaço que percorremos estava coberto com laranjeiras até que veio um ano de grande seca, os poços da propriedade foram secando um a um, até só restar um. Von Rosen foi tentar perceber qual das plantações gastava tanta água (tem também 40 hectares de plantas ornamentais) e descobriu que era o laranjal. Arrancou-o, ponderou as quatro alternativas que fariam sentido para o clima algarvio: figueiras, amendoeiras, alfarrobeiras e oliveiras.E escolheu as últimas.

Foi aí que olhou pela primeira vez com atenção para as árvores velhinhas à entrada da propriedade. Percebeu que não sabia nada de olival e que precisava de aprender tudo. Leu livros, esteve em Espanha, na Grécia, na Califórnia, ouviu opiniões, e percebeu que já estava tudo inventado há muito tempo. “Abrimos a porta a um mundo cultural que já existe há cinco ou seis mil anos.” Os conselhos básicos para quem quer ter um olival já estão no livro De Agri Cultura do senador romano Marco Catão, 100 anos antes de Cristo – Catão explica como se faz uma vinha, como se faz um olival, e como se administram territórios estrangeiros. A Von Rosen interessava o segundo tema e aí aprendeu que se deve plantar as oliveiras um pouco acima do nível do mar, em carreiros orientados na direcção do mar “para que a brisa faça mover as folhas, que nunca querem estar paradas”.

Mas falou também com contemporâneos.Um grego disse-lhe que tratar um olival “não é uma ciência, é uma arte”, e por isso não explicou exactamente qual o momento certo para apanhar as azeitonas. Foi algo que Von Rosen (que tem mais três sócios, um sueco e dois portugueses) teve que descobrir. “No primeiro ano apanhámos demasiado perto do Natal, mas era tarde de mais. Sabemos agora por experiência que é por volta de 15 de Outubro.” Houve outras coisas que aprenderam por experiência. Quando plantaram inicialmente o olival quiseram usar a variedade Maçanilha, a mesma das oliveiras antigas das quais tinham já conseguido fazer um azeite de grande qualidade. Mas quando foram espremer as azeitonas das novas oliveiras, foi a desilusão – não tinha nada a ver com o outro azeite.Decidiram então enxertar as árvores novas com pequenos raminhos das velhas, e hoje o olival é feito dessa fusão de gerações (e inclui também outras três variedades: Cobrançosa, Verdeal e Picual).Mas antes de tudo isto foi preciso recuperar as árvores antigas, e essa é também uma história curiosa.

Von Rosen conta: “Fui a um bar na Andaluzia e perguntei quem sabia alguma coisa de olivais. Todos sabiam.

Foram buscar vinho e falaram, falaram. Pareceu-me muito complicado. Mas depois um deles disse-me: ‘O primeiro passo é muito simples, tem que cortar a árvore à altura do joelho.’ Pensei que ele já tinha bebido de mais.” Não seguiu o conselho inteiramente.

Cortou as árvores, mas um pouco mais acima. Um dia deu uma entrevista da televisão e o seu interlocutor da Andaluzia ouviu, meteu-se no carro e veio ver o olival. Von Rosen percebeu que o conselho do homem era bom, e que se a árvore tivesse sido cortada mais baixa seria mais fácil podá-la. Mas são coisas que só a experiência ensina. Como esta, que temos agora à nossa frente: a oliveira velha vai desaparecendo no interior de uma nova, como se uma pele nascesse à volta, criando novas raízes e envolvendo a antiga, e, ao mesmo tempo, dividindo-se em duas. É isto que torna possível que a árvore para a qual olhamos tenha, diz Von Rosen, uns dois mil anos, e venha de um tempo em que Moncarapacho, na estrada entre o então porto de Balsa e Beja, estava cheio de lagares romanos.

Von Rosen ainda tem na sua propriedade um desses lagares antigos, agora adaptado às técnicas modernas, e onde faz as provas de azeite.

Um casal de compradores alemães acaba de chegar, e é a oportunidade para irmos provar o azeite Monterosa, que é já exportado para vários países do mundo “e praticamente toda a Europa”.

Von Rosen distribui pequenos copos de plástico e dá a provar os cinco azeites virgem extra que produz (as quatro variedades, e um de mistura). Aquece o copo na mão, explicando que a temperatura de prova deve ser de 29 graus e ensinando como se avalia um azeite virgem extra. “Primeiro cheira-se para detectar se tem algum defeito, se foi contaminado.” Depois prova-se, passando-o por toda a boca, para detectar o sabor frutado, a acidez e algum picante.

E é isto. Os romanos já o sabiam há seis mil anos. Mas nós recomeçamos sempre a aprender tudo outra vez. Sábias, as oliveiras ficaram à espera do dia em que Von Rosen finalmente olhou para elas.”

 

4 comentários a Azeite algarvio premiado em Nova Iorque

  1. Ex. mo sr.Von Rosen, foi com orgulho que li algumas histórias, sobre o princípio da sua vida neste país. Conseguiu realizar o seu sonho…e eu fiquei curiosa para conhecer o que foi o seu trabalho ao longo de tantos anos…herdei uma quinta que já tem um Olival tradicional ,na Beira Interior, não sei, mas gostava de saber tudo sobre produção de azeite e olivais,,, será que posso ir aí aprender? Tenho um projeto aprovado no Proder , e vou plantar 4000 oliveiras, e tenho um sonho tal qual como o sr…fazer o melhor azeite da Beira… posso contar com a sua ajuda?… desculpe o meu atrevimento…. Por favor responda ao meu pedido

    de apoio… sempre grata .”Maria Olímpia

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  2. É sempre bom, olhar para casos de sucesso do azeite português, que felizmente já são alguns.
    Parabéns ao Sr. Von Rosen pela dedicação a uma actividade agricola milenar como é a cultura do olival e a produçào de azeite.
    Em simultâneo uma preocupação ambiental, quer no cultivo do olival, assim como na gestão dos recursos hidricos, que o levou á mudança de cultura do pomar de citrinos para olival, reduzindo drasticamente o consumo de água.
    Boa continuação

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  3. Apraz-me muito saber que continua a existir azeite de qualidade. Sou apreciador de azeite e o pior azeite que já vi é de uma marca portuguesa chamada Nono Sentido o sabor acre com uma embalagem rica. Já alguém provou esse azeite? é intragável.

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