Nós e o ouro do Brasil

MadridFusión é um dos maiores festivais de gastronomia do mundo. É um palco. E quem lá vai sabe disso. Tem o palco e tem o público – é só saber contar a história.

Alex Atala numa masterclass no MadridFusión

Alex Atala numa masterclass no MadridFusión

E eles sabem. Para começar, todos dos chefes acompanham a sua apresentação com um vídeo no qual se mostram a trabalhar com a sua equipa no restaurante, e que, geralmente, os mostra também no meio da natureza, a apanhar ervas, a olhar o mar, a passear na floresta.

Durante três dias as histórias sucederam-se. Os brasileiros de Minas Gerais falaram do ouro, dos bandeirantes, e da cozinha que tinha nascido dessas viagens difíceis e depois se tinha transformado numa “cozinha molhada” (os guisados e estufados, de influência portuguesa) quando a febre do ouro acalmou e os homens “assentaram”.

O polaco Wojciech Modest Amaro, do Atelier Amaro, alterou completamente a imagem que muitos na assistência teriam da cozinha polaca. “Demorei algum tempo a conhecer o meu país” – foi assim que começou a sua apresentação, para depois falar longamente das florestas, dos parques naturais, das áreas protegidas e defender que um chefe tem que saber de tecnologia, mas também de agricultura, de caça, de pesca, de recolecção, de design de comida, de criação de animais, de processamento da comida. “Tornei-me caçador para ter a melhor parte da carne”.

Da Colômbia chegou Jorge Rausch (Criterion) para dizer que temos que comer o grande predador que é o peixe leão porque é uma forma de protegermos o ambiente. E da Coreia – que no ano passado foi o país convidado – veio a empresa Sempio para vender o Jang, o molho à base de soja fermentada com o qual os sul-coreanos estão empenhados em conquistar a cozinha ocidental – e tiveram em Madrid uma ajuda de peso no chef francês

As estratégias são muitas. Uma coisa é certa: é preciso dinheiro para se ir a Madrid contar uma história. Portugal não estava lá a não ser nas palavras de alguns brasileiros e, sobretudo, nas do George Mendes, o chef do Aldea, de Nova Iorque, que foi o melhor embaixador de Portugal, apesar de patrocinado pelos vinhos espanhóis Ribera del Duero. Mendes falou dos Descobrimentos e de um país que transportou de um lado para o outro do mundo a canela, o açúcar, a pimenta e outras especiarias. A ouvi-lo falar em Malaca, uma jornalista da Malásia, de ascendência portuguesa, comoveu-se.

É certo que não se pode estar em todo o lado, e que Portugal tem que fazer opções. E, como sabemos, já gastámos o ouro do Brasil – mesmo assim, acredito que, se quisermos, temos uma boa história para contar.

(Texto publicado na revista 2 do PÚBLICO a 10 de Fevereiro de 2012)

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