Comida de guerra

A crise está a provocar uma “recessão nutricional” na Grã-Bretanha, anuncia o The Guardian. Com menos rendimentos, as pessoas comem pior — o que não significa que comam menos.

Imagem retirada daqui.

Não é uma novidade: há muito que se sabe que, por exemplo nos Estados Unidos, são os mais pobres quem mais sofre com problemas ligados à obesidade. O mesmo está a acontecer na Grã-Bretanha.

Que alimentos estão a cair de forma mais acentuada na dieta dos britânicos com menos rendimentos? As frutas e os vegetais. Por outro lado, o consumo de alimentos com altos níveis de açúcar e gordura está a crescer. Números oficiais indicam que os preços da comida aumentaram 32% nos últimos cinco anos e a tendência dos consumidores britânicos é para se refugiarem nos alimentos congelados e processados, e abandonarem os frescos.

Imagem daqui.

Também se sabe há muito onde é que este tipo de dieta conduz. Nos EUA, o número de crianças com diabetes está a aumentar de forma muito preocupante e o que é mais grave, dizem os médicos, a doença mostra-se resistente aos tratamentos. E até os militares já manifestaram preocupação com a situação, num relatório com o título Too Fat To Fight, sobre a forma como o excesso de peso afecta muitos dos que gostariam de ser soldados.

E, no entanto, temos capacidade, na Grã-Bretanha ou nos EUA, como em Portugal, para produzir mais produtos frescos e locais. A grande dificuldade dos pequenos produtores é fazê-los chegar aos consumidores quando a lei complica a venda e os mercados locais tendem a desaparecer. O que acontece — e tudo isto tem a ver com a reportagem que é o tema de capa desta revista 2 — é que podemos ter um produtor às portas de Lisboa que não consegue escoar os seus legumes, como aconteceu com Ana Marques, uma das entrevistadas. Perante isto, parece-me relevante a pergunta, que é feita por Sarah Rich, autora do livro Urban Farms (Quintas Urbanas), citada pelo The Atlantic Cities: por que é que é mais fácil para alguém que tem

food stamps (os cupões de ajuda alimentar que existem nos EUA) comprar mil calorias em doces e rebuçados do que mil calorias em sopa de lata? Ou, poderíamos acrescentar nós, simplesmente em legumes frescos? Não estamos em guerra, mas estamos numa crise que já está a ter consequências dramáticas. E, em alguns dos textos que tenho lido, há quem lembre os Jardins da Vitória — as hortas urbanas criadas em jardins privados e parques públicos nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Alemanha para ajudar ao esforço de guerra durante a I e a II Guerras Mundiais. No Portugal rural muito secou porque quem produzia deixou de ter meios de vender. Fará sentido tudo isto?

(Texto publicado na revista 2 do PÚBLICO, a 25 de Novembro)

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