Nina Horta e a comida de alma

O livro já é antigo mas eu só o descobri agora e tenho andado encantada a ler as crónicas de Nina Horta em Não é Sopa, edição da Companhia da Letras, de 1995.

A propósito, julgo, do Ano do Brasil em Portugal, a livraria do Saldanha Residence resolveu recuperar uma série de livros antigos de e sobre o Brasil, e entre eles lá estava a capa cheia de pratos, garfos e facas do livro de crónicas de Nina Horta, que é, ainda hoje, cronista de gastronomia da Folha de São Paulo.

O livro divide-se em Opiniões, Mestras, Ingredientes, Escritores e Livros, Reminiscências, Filmes (e ela fala das galinhas em Hitchcock, o que me fez lembrar um jantar temático que organizámos numa colaboração PÚBLICO-Eleven, em que o Vasco Câmara disse que, se queriamos falar de cinema, tinhamos que falar de Hitchcock e dos ovos), Jejuns e Festas, Patrões e Empregados, Parati, On the Road, Brasil, meu Brasil Brasileiro, Sopas. Tudo cheio de receitas à séria, e um humor fantástico para falar de coisas sérias e menos sérias.

Veja-se este início de crónica, sobre Martha Kardos, uma das mestras de Nina: “Martha Kardos morreu. Há uns quinze anos, fui atrás dela, por causa de uma saladinha de beterraba com pepino em que eu havia sentido um toque de génio. Na época, ela devia ter lá pelos seus 73 anos. Os cursos começavam a tal hora de tal dia e, se você não pudesse assistir à primeira aula, nada feito, tinha que esperar um ano. ‘Dona Martha, estou há meses na fila, não dá para esquecer que faltei uma vezinha só?’ Martha tinha um sotaque forte e carregava nos rr, como austríaca que era, o que ajudava a estruturar a aparência de severidade. ‘Não e não. Na primeira aula ensino os cortes de alcatra e molho branco. In-dis-pen-sá-vel.” De onde se prova que o rigor austríaco não se deixa abalar pela doçura dos trópicos.

Ou esta outra crónica sobre comida de alma: “Comida de alma é aquela que consola, que escorre garganta abaixo quase sem precisar de ser mastigada, na hora da dor, de depressão, de tristeza pequena. Não é, com certeza, um leitão pururuca, nem um menu nouvelle seguido à risca. […] É a canja da mãe judia, panaceia sagrada a resolver os problemas de náusea existencial. O macarrão cabelo-de-anjo cozido mole e passado na manteiga. O caldo de galinha gelatinoso, tomado às colheradas. São as sopas. O leite quente com canela, o arroz-doce, os ovos nevados, a banana cozida na casca, as gelatinas, o pudim de leite”.

Dá vontade de ficarmos (só ligeiramente) constipados para termos uma desculpa para comer um prato de farinha Maizena, com pedacinhos de casca de limão, uma gema de ovo, e, por cima, uma crosta fina de açúcar e canela, enquanto chove lá fora.

4 comentários a Nina Horta e a comida de alma

  1. Fiz muitas dessas papas para o meu filho mais novo,( que era mauzinho para comer) juntava-lhe uma gema de ovo e uma colherzinha de manteiga, chamavamos-lhe a papa branca de neve e ele comi-a com uma satisfação que só falta lamber o prato. Uma delícia

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  2. Também a minha Mãe fazia papas Maizena. No meu caso, não porque estava doente (isso eram as canjas de galinha ou as massinhas com manteiga e ovo mexido), mas para remediar aqueles lanches em que o pão tinha acabado ou estava “duro”… Porque eu sou do tempo em que aos fins de semana e feriados, todo o comércio tradicional fechava, e não havia hipermercados, nem cafés com pão fresco! Nesses dias, para me mimar, faziam-se fatias douradas ou papa Maizena, aromatizada com uma casquinha de limão, depois polvilhada com açúcar branco ao sair do lume, quando ainda estava bem quente… Nunca vou esquecer o sabor da crosta açucarada misturado com o sabor do limão na textura cremosa da papa… Saudades de tempos idos, doces memórias…

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  3. Essas papas maizena são um atalho para os dias em que ficava doente. A minha mãe fazia-as com ar de alquimia, come que te faz bem. E acho que as constipações e afins se derretiam com a camada de açúcar ( sem canela).

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    • ….comida da alma…nos remete nossa infância,onde apenas nos preocupávamos em ser criança quantos momentos bons vivenciamos nessa etapa…cheiro de infância….aconchego…tempos de alegria….junção de primos e o cheirinho dela…daquela comida bolinho frito em dias de chuva aquele carreteirinho da mãe e aquele delicioso pão feito em casa que só ela sabe saber…sem esquecer claro da ambrosia preparada com tanto apreço pela vó. essas sem dúvidas são comidas de alma.

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