A comida é o novo rock

 Elvis sim, gostava de comer. Sobretudo hambúrgueres, ao que parece. Mas, de resto, a associação entre comida e estrelas de rock não é a mais evidente. Estou a pensar nos anos 60, 70 – álcool, sem dúvida, droga, muita, tabaco, sempre. Mas comida? Humm…

Vem isto a propósito de uma conversa que se instalou nas últimas semanas em alguns jornais americanos, blogues e redes sociais sobre se a comida é o novo rock. Há, por exemplo, um artigo do The New York Times sobre os festivais do próximo Verão. Woodstock? Peace and Love? Bem, o título do artigo é “Porc belly, lobster and, yes, music”. Estão a ver a ideia?

(primeira de três fotos que só com muito boa vontade terão alguma coisa a ver com o texto)

Um dos festivais (este não de Verão) aconteceu no fim-de-semana passado no Prospect Park em Brooklyn, que, prometiam os organizadores, se iria transformar num enorme parque de diversões de comida e bebida – chamaram-lhe The Great GoogaMooga. Um sítio, diziam, para descobrir novos sabores. Ah, e havia música também, neste festival que tinha entre os seus colaboradores Anthony Bourdain, e David Rockwell. Uma das estrelas era April Bloomfield, que esteve em Janeiro em Portugal para o festival do hotel Vila Joya, no Algarve, e que em Prospect Park ia cozinhar um gigantesco porco em cima de um palco.

Fui por ali fora a ler artigos e posts e dei com um, da New York Magazine, que ajuda a explicar porque é que os 40 mil bilhetes diários (gratuitos, é certo) do GoogaMooga desapareceram num instante. O artigo centra-se num grupo de amigos de Diane Chang, uma foodie de 27 anos, que percorrem 15 ou mais restaurantes por semana e gastam 25 por cento do seu ordenado em comida. “Why did young people start spending 25 % of their paychecks on pickled lamb’s tongues?”, era o título, enquanto a frase “foodie-ism as youth culture” explicava o tema.

Nada disto acontecia, ainda há relativamente pouco tempo. O New York Times fala de uma “mudança geracional”. “Quando éramos miúdos, a comida era uma coisa com a qual os nossos pais se preocupavam”, explica ao jornal Adam Rapoport, editor da revista Bon Appétit. “Nós íamos ao 7-Eleven depois do concerto e comiamos um chili-cheese dog. Agora, os miúdos de 20 anos planeiam os fins-de-semana em torno da ida ao mais recente restaurante.”

Se antes se falava de uma geração que tinha crescido com a MTV, agora fala-se de outra que cresceu com o Food Network. Daí que um veterano da radio chamado Zach Brooks, de 36 anos, tenha criado um blogue chamado exactamente Food is the New Rock. Fui lá espreitar e não resisti ao exercício (inútil, sem dúvida, mas divertido) que tem mantido Zack entretido: imaginar se os chefs de hoje fossem estrelas de rock quem é que seriam.

Se Thomas Keller é Elvis, não por causa dos hambúrgueres, mas porque “são os reis, indiscutivelmente”, já Bourdain seria Sid Vicious (também se aceita ‘Keith Richards na última fase’). E Jamie Oliver? Bem, é fácil. Seria Bono. Porquê? “Porque ambos vão salvar o mundo”.

(texto publicado a 27/5/2012 na revista 2 do PÚBLICO)

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