O Natal (sim, ainda) nos Açores

Há muito tempo que andava para falar aqui do livro O Gosto de Bem Comer, que o autor, João Vasconcelos Costa (do blogue Gosto de Bem Comer) me ofereceu generosamente depois de eu ter, sem sucesso, tentado encontrá-lo nas livrarias. Tínhamos travado conhecimento através de uma polémica a propósito do texto que eu escrevi para o PÚBLICO no Verão sobre o polvo dos Açores, candidato a “maravilha da gastronomia” portuguesa. A polémica não chegou, na realidade, a sê-lo – o João Vasconcelos Costa tinha razão nas críticas que me fazia, e ficámos amigos.

Aprende-se sempre imenso no blogue dele. E, sobretudo, aprendem-se coisas sobre uma das cozinhas portuguesas que, julgo eu, pior conhecemos: a dos Açores. Num dos últimos posts, o João Vasconcelos Costa recorda assim os Natais da sua infância: “A grande festa é o jantar familiar do dia 25. Nunca o almoço, cá muito vulgar como refeição de festa familiar (julgo que muito por hábito de antigos colonos). Novamente, tanto quanto sei, o bacalhau não fazia regra. Com exceção de uma ou outra casa que escolhia carne assada ou, por menores recursos, pratos populares como os torresmos de molho de fígado, a regra geral era a galinha, em muitas receitas que fazem parte do ementário micaelense mas principalmente nas várias variantes de assada, particularmente recheada, servida quente (S. Miguel) ou, como na minha casa de mãe e avó terceirenses, fria trinchada em fatias mistas de carne e recheio. Recheio rico de pão em canja, muitos ovos, especiarias, fígados, azeitonas e colocado não só no bucho mas também, e principalmente, entre a carne e a pele, o que lhe dá um assado completamente diferente do recheio no interior da ave.”

(As fotos são da ilha de São Miguel)

A acompanhar este prato, algo que João, ainda criança, era “autorizado a partilhar simbolicamente com os adultos”. Era o champanhe, “bebida obrigatória com este prato”, e que, diz, à excepção dos Açores, seria muito raro servir, nesses anos 50 do século passado, “à mesa portuguesa a acompanhar um prato de carne”.

Tudo isto nos deixa a pensar como há tanta coisa a explorar e a descobrir na cozinha tradicional açoriana. Mas o João Vasconcelos Costa dá já a sua contribuição. Para os que (como aconteceu comigo) não conseguem encontrar o livro à venda, ele disponibiliza agora o PDF no blogue. E nesse livro, dedicado à memória da avó Adélia, inclui, entre muitas outras receitas, algumas açorianas (bolo lêvedo, sopa de funcho, sopa de peixe com uva de agraço ou torresmos de molho de fígado, entre outras), e conselhos sobre como encontrar substitutos para ingredientes típicos das ilhas, como o vinho de cheiro, a malagueta açoriana ou o limão galego açoriano.

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