O escândalo do azeite

Em Outubro o PÚBLICO trouxe uma história que despertou um enorme interesse, com muitos milhares de leitores e comentários na edição online. Era um texto do jornalista Carlos Dias que dizia que os espanhóis estão a produzir azeite no Alentejo para ser exportado para Itália e vendido com rótulos italianos. Houve muitos comentários de leitores profundamente indignados com o que estava a acontecer ao azeite português de qualidade. Mas a história vai muito para além de Portugal. Acaba de ser lançado nos Estados Unidos o livro Extra Virginity: The Sublime and Scandalous World of Olive Oil, do norte-americano (a viver em Itália) Tom Mueller.

Foi em 2007, na revista The New Yorker, numa peça intitulada Slippery Business: The Trade in Adulterated Olive Oil, que Mueller lançou pela primeira vez o alarme: muito do azeite que se vende nos EUA como extra-virgem e Made in Italy é uma fraude. No livro agora lançado, Mueller aprofunda a investigação, mas a conclusão é a mesma: os revendedores acrescentam azeite de pior qualidade (e portanto mais barato) ao azeite de qualidade, e continuam a vendê-lo com o rótulo de “extra-virgem”, que significa um azeite que não é refinado de nenhuma forma, seja através de químicos ou de altas temperaturas. Um produtor citado por Mueller diz que cerca de 50 por cento do azeite vendido nos Estados Unidos é adulterado desta forma.

“Muitos desses azeites são engarrafados em Itália ou passam por Itália apenas o tempo suficiente para lhes porem a bandeira italiana”, afirma Mueller numa entrevista. A consequência é, obviamente, uma quebra dos preços – ganham os vendedores, perdem os produtores. Com azeite tão barato no mercado, os produtores do verdadeiro azeite de qualidade (em Portugal, sim, mas também noutros países) têm cada vez mais dificuldade em sobreviver. E os consumidores americanos que estão a usar azeite de menor qualidade convencidos de que é extra-virgem, não saberão distinguir o que é um verdadeiro azeite de qualidade. Há portanto muito trabalho didáctico a fazer nesta área para dar a conhecer o bom azeite. E Portugal – que tem ganho muitos prémios internacionais com os seus azeites – não pode ignorar isto.

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6 comentários a O escândalo do azeite

  1. G. Duarte
    2 de Dezembro de 2012
    A maioria dos lagares de azeite que a CEE nos impinjiu para levar de volta o dinheiro com que nos sobornou, estão desatualizados, não produzem azeite de qualidade.Os olivais bons estão em parte abandonados porque o prêço que pagam pelo verdadeiro azeite não chega nem para pagar a apanha da azeitona. O azeite que está no mercado ´só pode ser falsificado ou dessas oliveiras que estão a invadir o país. Aquele produto só deve ser aproveitado para óleos pesados ou coisas desse género. Porque não exijir aos tantos deputados que passam a vida a dormir na A.R. que trabalhem para defender os nossos produtos de qualidade?

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  2. Em Portugal o azeite produzido cá é bem vigiado…poderão existir casos de fraude, claro, mas o baixo preço deve-se especialmente às produções que já vão sendo relativamente altas. Os Olivais super intensivos- de alto rendimento- trouxeram essa “mais? valia”.
    A nossa atenção deve agora ser, proteger os azeites de quinta, esses sim estão em vias de extinção. E são eles a nossa maior riqueza, porque além de protegerem variedades nossas, protegem a paisagem e as nossas gentes!
    e temos tantos com tanto valor!!!
    :)

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    • O El País alertava recentemente para o problema das marcas brancas, que estavam a afectar os produtores de azeite espanhóis – os preços descem tão baixo que nenhum produtor aguenta. Dou-te toda a razão, Teresa, no que diz respeito aos nossos azeites de pequena produção mas alta qualidade e variedade.

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  3. E cá em Portugal? Hoje em dia encontra-se azeite virgem-extra de várias marcas a preços relativamente baixos (comparando com refinados). Será que não serão também misturas com azeites de menor qualidade?

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    • É verdade, Mário. A situação é a mesma em Portugal e noutros países, e não apenas nos EUA. O livro de que falo é que é muito centrado no mercado americano, mas este é um fenómeno generalizado.

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