A polémica dos pastéis de nata

Já contei aqui algumas coisas a propósito da campanha Prove Portugal que o Turismo está a fazer, com o apoio da Academia Portuguesa de Gastronomia, presidida por José Bento dos Santos. A ideia (explico tudo num texto que sai no próximo Fugas, no sábado) é promover no estrangeiro cinco “ícones” da gastronomia nacional: o peixe, a cataplana, o pastel de nata, o vinho do Porto, e os chefes portugueses. Numa entrevista que fiz a Bento dos Santos ele explica as razões por detrás de cada uma destas escolhas e defende que uma campanha só é eficaz se nos concentrarmos em poucas ideias – a dispersão é inimiga da eficácia.

 

                                                                             Pastéis de nata?

O pastel de nata, por exemplo, é uma escolha que Bento dos Santos sabe que é polémica porque deixa de fora toda a doçaria conventual portuguesa. Mas argumenta que esta é um pouco pesada (muitos ovos, muito acúçar) e que o pastel de nata é já reconhecido em todo o mundo como algo profundamente português. Dias depois, a propósito de outro assunto, tive uma conversa com Ana Soeiro (responsável da Qualifica, de quem já falei aqui), e a perspectiva dela é diamentralmente oposta. O pastel de nata é uma coisa que pode ser feita (e já é) em muitos sítios do mundo, pode facilmente ser imitada e, como não é um produto certificado, pode ser adulterado, feito com um recheio diferente, acrescentado com chocolate ou qualquer outra coisa do género. Ou seja, não é preciso vir a Portugal para comer um verdadeiro pastel de nata.

 

                                                                            Ou doces conventuais?

O que devíamos promover, defende Ana Soeiro, são os produtos que estão profundamente ligados a Portugal, às regiões, aos saberes locais, e que, de preferência, sejam feitos com produtos nacionais. Assim, a promoção de um produto arrasta outros. E considera que a dispersão não é um problema. Por isso, sim, doçaria conventual, o mais possível – e, garante, os estrangeiros não fogem dos ovos e do açúcar a sete pés, desde que não lhes sejam servidos em doses gigantescas.

E pronto, ficam aqui duas perspectivas opostas de como se deve promover a gastronomia portuguesa (o pastel de nata é só um exemplo, a Ana Soeiro discorda de várias outras coisas, mas talvez isso fique para outro post).

27 comentários a A polémica dos pastéis de nata

  1. Pastéis de nata! Mas então os pastéis de nata não são conventuais? De Norte a Sul de Portugal não foram feitos em diversos conventos? O pastel de nata não é de Lisboa é um doce conventual de Portugal! Já agora outra pergunta: Desses pasteis de nata de que se tanto fala quantos levam natas!

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  2. Pingback: Álvaro e os pastéis de nata – Mais Olhos Que Barriga

  3. Só o centralismo manhoso e egocentrico, de puxar a brasa à sardinha (negócios turísticos para os amigos da capital) é que pode levar a considerar promover as “natas” em favor da doçaria conventual. A desculpa que, tem que ser uma campanha objectiva e por isso se faz uma grande selecção gastronómica, apostando numa gama de produtos seleccionados, só serve para dar um aspecto pobre da nossa gastronomia. É fundamental apresentar 5 ou 7 doçarias, assim como outros tantos pratos. Criar um número “mágico” de iguarias. Se alguém se sente atraído por gastronomia, não será por meia dúzia de comidinhas que irá sentir-se fascinado. A aposta correcta para promover a gastronomia e turismo por esta via, seria criar restaurantes portugueses nas principais capitais europeias com voos directos para Portugal. Um projecto a 3 anos, que poderia ser prolongado. Boa imagem, grandes imagens de Portugal e venda de alguns produtos e uma escolha de pessoas bem simpáticas e nada “convencidas” para demonstrar a essência do famoso acolhimento português. Divulgação dos vinhos e produtos regionais, com descrição e não com aquela arrogância saloia portuguesa do género, nós temos o melhor do mundo. Dar a conhecer com profissionalismo, grande qualidade e deixar que sejam as pessoas a julgar e não sermos nós a fazer o veredicto, como querem os responsáveis de mais uma medida despesista sem resultados significativos.
    Depois é só apostar em Portugal e não só em Lisboa. Sim, não adianta nada fazer só o bonito lá fora e depois largar o turista por aí. Demonstração clara de higiene, qualidade de trato, nada de habilidades nas contas apresentadas, pois é muito frequente “enganos” nas contas. Importante por os funcionários a dizer umas palavrinhas em inglês do que estão a fornecer/vender. Muito trabalho tem este país pela frente.

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    • Os vinhos que se promovem são de Lisboa?
      As paisagens que se promovem são de Lisboa?
      As praias que se promovem são de Lisboa?
      A culinária que se promove é de Lisboa?
      O Património da Humanidade que se promove é de Lisboa?

      Como vê, essa do “centralismo manhoso” tem mais é de “ignorância provinciana”…

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  4. É a mesma coisa que dizer que o fado português não é um símbolo porque este pode ser cantado por qualquer japonês lá fora. Esta senhora percebe muito, acredito, de gastrononia, e de produtos nacionais, mas não percebe NADA de turismo. E se atentarem, Prove Portugal é sobre TURISMO, minha senhora. Fale de Portugal a 1000 estrangeiros. E dos que o conhecem por alguma coisa que não seja o CR7 e seja de comer, pode crer, minha senhora que é por causa do pastel de nata.

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  5. O pastel de nata faz parte e é um exemplo da fantástica doçaria portuguesa, mas se pesquisarmos um pouco mais encontramos outras verdadeiras iguarias que não se restringem a ovos+açúcar. Posso deixar a título de exemplo alguns algarvios como a tarte de alfarroba e figo, o morgadinho da serra (amêndoa+gila+doce de ovos), as empanadilhas/pasteis de batata doce, queijinhos de figo etc… calculo que noutras regiões também existam outros bons exemplos de doçaria para além do típico gemas e açucar.
    Cumprimentos

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  6. É uma vião curta, é falta de cultura gastronómica, uma imaturidade, um bairrismo ridículo(do Sr. que o afirma), um disparate dizer que “Os pastéis de nata representam a nossa doçaria”. É uma generalização faliciosa. Existem pelo país fora milhares de sítios onde o pastel de nata é de fugir (inclusivé nos locais onde os fazem bem, Belém, quando já não são os que estão a sair, fresquinhos). São muitos os locais em Portugal, onde se fazem iguarias gastronómicas fantástica. E isto não significa que são representativas de Portug. Que estude + da doçaria portuguesa quem o afirma!!

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  7. Que haja quem faça e venda pastéis de nata no estrangeiro, mesmo sem dizer que são portugueses, é positivo. Metade do marketing — dar a conhecer o produto — já está feito. Agora é só deixar a ideia de que para comer os ORIGINAIS e MELHORES é necessário vir a Portugal. Porque a ideia é aumentar o fluxo turístico para Portugal, não?
    É o que se passa com as pizzas. São feitas e comidas em todo o mundo, mas existe a ideia de que para comer uma pizza autêntica é necessário ir a Itália. E sabe-se que não é assim.

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  8. Não vejo nada de especial no pastel de nata…é um bolo como outro qualquer..nem aprecio por aí além nem percebo porque é assim tão especial para alguns…é um banal bolo sem nada de especial no meio da nossa rica gastronomia..

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  9. Pois eu considero o comentario do Rui Franco o mais correto-vivo ha muitos anos na parte alemã da Suiça e desde ha poucos anos o pastel de nata se pode comprar num dos maiores supermercados aqui-referindo “suavemente” ser produto portugues :o) Faço porem questao de lembrar, que o produto portugues carece, na minha opiniao, de uma “publicidade” mais forte, algo que venha e “abale”. Juntemos aos pasteis de nata algumas receitas de carnes com piripiri, de cozidos à portuguesa acompanhados de um bom Esporão Alentejano ou de uma Superbock, passando pelos imensos pratos de arroz ou de bacalhau, pratos estes faceis de elaborar para culturas com habitos diferentes…promovam os nossos Pasteis, deem-lhes “cor” à etiqueta para q todos saibam de onde proveem ;o)

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  10. No Vietnam aonde passo 7 meses por ano, a cadeia Americana , KFC lançou ultimamente o pastel de nata .Não faz referencia a Portugal e chamam-lhe TARTES DE OVOS . Ê totalmete igual e até é acompanhado de 2 saquinhos, um de açucar em põ e outro de canela, como os pasteis de Belem.

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    • Caro Senhor Luís Duarte
      Já que tem a possibilidade de passar 7 meses por ano no Vietnam talvez pudesse promover algumas das receitas deliciosas da nossa doçaria e, claro está, com uma promoção ilustrada e com referências históricas, se fosse caso disso, de todos esses doces incluindo o pastel de nata. Há imensas publicações com receitas portuguesas quer de doces quer da nossa excelente cozinha.Vivi em Macau e há lá um restaurante de um açoriano que tem imensa fama pela cozinha portuguesa que faz. Nem queira saber a quantidade de chineses que vão lá.Espero que tenha êxito e quem sabe que algum dia tenha eu a sorte de também poder voltar ao Vietnam onde estive há anos em Hanói. Um abraço Maria Leonor

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  11. É uma questão de imagem!!! Quando nós comemos uma pizza, em Tóquio, Buenos aires ou Londres, em que pensamos nós? Itália!!! Onde o raio da pizza é feita ou de onde vêm os ingredientes pouco interessa.

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  12. O pastel de nata é, sem dúvida, o ícone mais emblemática da nossa doçaria. Em Montreal, no Canadá, onde resido, podemos encontrar pastelarias portuguesas que vendem dos melhores pasteis de nata do mundo. As televisões locais têm regularmente realizado reportagens em louvor desta iguaria como esta da Radio Canada:
    http://youtu.be/nj8Qs8FrArQ

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  13. Eu até já comi pasteis de nata em Goiânia, no Brasil, feitos por portugueses que têm um restaurante. Sempre que em Goiânia há festinha, os pasteis de nata são considerados o ponto culminante e o fantástico casal que, mea culpa, não me consigo lembrar do nome, aparecem com eles como se se tratasse de barras de ouro, perante a alegria de toda a gente. Isto não é divulgar a nossa cultura? Oh se é! E como nesse dia nós eramos os convidados de honra, não deixaram os sesu créditos por mãos alheias e os próprios tinham passado a tarde a fabricá-los. Festa inesquecível!

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    • Desde que murió Polanco, El País ya no es lo que era. Su posición es sesgadísima y desde luego obedece a planteamientos empresariales que nada tienen que ver con su trayectoria anterior (no hay que olvidar que se aliaron también con Berlusconi). En fin, que eso de "diario inndeedeipnte" deberían apearlo ya de la cabecera. Espero que lo de esta esquela trascienda… Un abrazo muy fuerte.

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  14. O pastel de nata é sem dúvida o ícone da pastelaria portuguesa em Portugal e no estrangeiro e digo isto porque vivo na Bélgica há 40 anos, já fui casado com uma belga e agora estou casado com uma francesa e conheço muitos outros belgas, franceses, alemães, ingleses e italianos que adoram os pastéis de nata e a maior parte tem uma grande relutância pelos doces conventuais (que até é a minha perdição!) sobretudo pela abundância de gemas de ovos!
    Quanto a factos não há argumentos como diz a Alberta…

    PS Mesmo se os pastéis de nada podem não ser genuinamente portugueses, qual é a importância, agora são, o mesmo se pode dizer da guitarra portuguesa que já foi inglesa e agora é conhecida pelo mundo fora como portuguesa e é mesmo portuguesa como o cavaquinho, mas ao contrário, que é português mas que pelo mundo foram o julgam ser havaiano, o famoso “ukelele”!

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    • Uma correcção se me permitem ao Sr. Fernando Moreira.
      O Ukelele não é um cavaquinho, foi inspirado no cavaquinho, mas a sonoridade é diferente.
      Portanto o Ukelele é realmente um instrumento Havaino que foi buscar a sua inspiração ao cavaquinho. Os estrangeiros nem devem saber o que é um cavaquinho.

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      • Tem toda a razão e eu também, o cavaquinho foi levado em meados do século 19 por emigrantes portugueses para o Havai, como o levaram para Cabo Verde e para o Brasil, é um instrumento rudimentar, barato, pequeno portanto fácil de transportar. Claro que houve uma evolução entre o cavaquinho e o ukelele mas não há assim tanta com os que se podem comprar na Europa e claro que os estrangeiros e até os brasileiros não sabem de onde vem o cavaquinho até porque os portugueses.não têm orgulho nenhum do que são e do que são capazes de fazer,
        por exemplo, pouca gente sabe que a Via Verde, exportada para França, foi inventada em Portugal tal como o telemóvel com cartão pré-comprado e recarregável e que há em todo o mundo. Portugal também teve uma grande importância para invenção dos novos écrans Led de TV.

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      • in wikipedia…

        O ukulele é um instrumento musical de cordas beliscadas, semelhante a um violão, mas menor. Tem apenas 4 cordas usualmente afinadas em lá, mi, dó e sol, sendo a corda sol mais aguda que a dó. O ukulele, também muitas vezes chamado erroneamente de guitarra havaiana, tem origem em dois instrumentos tradicionais da Ilha da Madeira (Portugal). O machete madeirense (também conhecido por braguinha, que por sua vez tem origens no cavaquinho português) e o rajão (viola de cinco cordas da Madeira), que foram levados pelos madeirenses, nomeadamente João Fernandes, quando estes emigraram para o Havaí para trabalhar no cultivo da cana-de-açúcar naquelas ilhas. Ukelele significa “pulga saltadora” no idioma havaiano.

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        • O que me levou a falar do ukulele foi ter ouvido um dia, num documentário belga sobre a música cabo-verdiana, que o cavaquinho, muito utilizado naquele país, tinha vindo do Havai…
          Noutro documentário, este holadês, dizia que o primeiro europeu a chegar à Índia por via marítima, tinha sido um holandês, um século depois de Vasco da Gama…
          Não sei se houve alguma reação das autoridades portuguesas… eu telefonei!

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  15. Creio que o pastel de nata deve continuar a ser promovido no estrangeiro. Muitas coisas que a «Qualifica» qualificou – doçaria conventual, por exemplo – são lugares bastante comuns no estrangeiro: tipos de mel, queijos, presuntos, vinhos, doçarias várias… Quase tudo são receitas que vieram de França e Espanha e foram alteradas em Portugal. Todos sabemos que em Espanha e França há muitas coisas além do pata negra ou dos queijos. A Alemanha não é só salame e a Rússia não é só gulash. Mas já que são imagem de marca continuam a promover estes produtos. Não querem promover a imgem de Portugal com as castanhas doces de Arouca ou doces brancos do Minho, pois não? Até podia acontecer, só que ainda não são marca. Se já temos uma marca há que aproveitá-la.

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  16. Olá Alexandra,
    os pastéis de nata são uma grande referência da nossa doçaria. Ou pelo menos já chegaram a um patamar importante de internacionalização a que mais nenhum doce português chegou. A seguir aos pastéis de nata, o importante é continuar a promover e tem que se começar por algum lado, como é referido. A revista Olive de Dezembro traz um artigo sobre Lisboa e apresenta uma receita de pastéis de nata. Não apresenta de pão-de-ló, nem dos travesseiros, nem de outro doce, apresenta aquilo pelo qual mais somos conhecidos. Primeiro criar ligações com aquilo que as pessoas conhecem para depois dar a conhecer sabores igualmente bons. É certo que encontramos pastéis de nata em várias cidades, Londres é um bom exemplo, mas isso não tem problema nenhum. Antes pelo contrário isso é também uma forma de divulgar. Para mim, uma das gastronomia mais internacionais é a italiana. Encontramos pizzas, pastas por todo o lado. Mas parece-me que a gastronomia italiana continua a ser uma forma de levar pessoas a visitar o país, ou estou enganada? Já agora, acho que na campanha Prove Portugal faltam blogues de comida ! :) Um beijinho.

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