Uma história (antiga) com acúçar

Era tempo de guerra e de racionamento. Alguns produtos desapareciam das lojas, e nas casas particulares ensaiavam-se receitas mais criativas. E os restaurantes, como sobreviviam? Esta história, que envolve o Tavares, em Lisboa, é contada por Paulo Pina em “Portugal – O Turismo no Século XX”: “Muito legalista, em carta dirigida em 1943 ao Secretário da Propaganda Nacional, o conhecido restaurante lisboeta, então remodelado, pedia um ansioso esclarecimento sobre a manutenção no cardápio dos seus crêpes suzette, sobremesa deveras apreciada pela distinta clientela, onde se contavam habitualmente gente da alta, membros do corpo diplomático e do próprio governo”. E o que preocupava o Tavares? A lei que, por causa do racionamento do acúçar, só autorizava que aparecessem nas listas “frutas cozidas, levemente acuçaradas”.

Sem acúçar?

 Voltemos então ao relato de Paulo Pina: “Fundamentando-se na circunstância de o açúcar dos crêpes estar também contido nos sumos e licores de frutas que os compunham, asseverava o proprietário, numa preciosa esgrima culinária, que tal iguaria ‘precisava de menos açúcar do que as frutas cozidas, especialmente as maçãs'”.

O Secretário da Propaganda Nacional não se sente à vontade para decidir sem consultar a Intendência Geral dos Abastecimentos, embora dê logo um parecer favorável. A história tem um final feliz: “Algum tempo depois, o Tavares, aliviado, receberia a mais doce quanto seca das respostas: ‘autorizado'”.

E foi assim que os clientes do famoso restaurante puderam atravessar a fase final da guerra com as suas preocupações suavizadas pelos fiéis crêpes suzette, e não por umas austeras maçãs cozidas – ainda que “levemente açucaradas”.

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