Jantar com os homens das cavernas

O que me chamou a atenção para o assunto foi um artigo da Spiegel Online sobre um novo restaurante que abriu em Berlim. Chama-se Sauvage e o que propõe é a chamada dieta paleolítica, ou seja, uma alimentação semelhante à que tinham os nossos antepassados no tempo em que viviam em cavernas e tinham que caçar para comer. Não há aqui alimentos elaborados como queijo ou açucar, e os clientes comem à luz de velas. Mas não se pense que nos apresentam pratos com nacos de carne crua ou outras coisas que nos possam fazer crescer pelos no peito. A dieta paleolítica assenta essencialmente em fruta e vegetais, carne, peixe e marisco, ovos, cogumelos, frutos secos, sementes e ervas (ouço por aí uns suspiros de alívio?). Ou seja, os alimentos que estavam disponíveis antes do desenvolvimento da agricultura.

Do site livingpaleo

Claro que, como tudo, terá vantagens e desvantagens, embora se levada ao extremo, como, segundo a Spiegel, alguns dos seus seguidores fazem, possa ter o seu quê de absurdo. E quando falamos em extremo estamos a referir-nos a pessoas que tentam imitar o estilo de vida da Idade da Pedra, fazendo o tipo de exercício que os homens das cavernas fariam há dez mil anos, correndo descalços ou mesmo dando sangue todos os meses, no que calculam ser o equivalente ao que os nossos antepassados perderiam quando caçavam o seu jantar.

O que se pode comer no Sauvage (imagem do site do restaurante)

Apesar do Sauvage se apresentar como o primeiro restaurante europeu seguidor desta tendência, a dieta paleolítica vem já dos anos 70 e do trabalho de divulgação do gastroenterologista Walter L. Voegtlin – a ideia é a de que geneticamente os humanos estão adaptados a esse tipo de alimentação e que tudo o que veio depois já não será tão indicado para nós. A questão é polémica, como não poderia deixar de ser, quanto mais não fosse por esta dúvida: conseguimos nós hoje aproximar-nos do que seria a alimentação há 10 mil anos? Parece-me evidente que não, até pela alimentação dos próprios animais (mesmo que a tentemos manter o mais natural possível, toda a cadeia alimentar já sofreu grandes transformações).

Também do Sauvage

Os proprietários do Sauvage, Boris e Rodrigo Leite-Poço, explicam que não tentam imitar a dieta pré-histórica, mas sim criar algo de novo, que cruze métodos ancestrais e contemporâneos. E garantem que esta não é apenas uma moda, e que há cada vez mais seguidores da dieta paleolítica. A experiência pessoal permite-lhes afirmar que os resultados na saúde são evidentes, desde uma melhor pele a mais energia. Quem quiser experimentar poderá comer coisas tão comuns como salmão com molho de ervas, pão sem gluten e mesmo bolos sem gluten nem açucar, como uma tarte de abóbora com especiarias (“para os convivas da Idade da Pedra que não dispensam sobremesa”, escreve a Spiegel).

Ah, e o Sauvage abre outra excepção às regras das cavernas: serve vinho. E aceita reservas (o que certamente há 10 mil anos era mais difícil; imagino que aparecer inesperadamente a meio de um jantar poderia custar-nos um galo na cabeça provocado por um osso lançado por um barbudo cheio de energia).

3 comentários a Jantar com os homens das cavernas

  1. Pingback: Um jantar paleolítico – Mais Olhos Que Barriga

  2. A ideia não é tanto recriar a alimentação de há 10 mil anos, mas sim seguir as pistas deixadas pela evolução sobre o que estamos mais ou menos adaptados a comer (seria até impossível recriar uma “dieta do paleolítico” porque os alimentos a que temos acesso hoje – sejam animais ou plantas – não existiam na altura; e também porque não existia *uma* dieta do paleolítico – estaríamos já espalhados por diversas partes do globo e a dieta das zonas costeiras seria, certamente, muito diferente, da dieta do norte da europa, por exemplo).

    Sabemos, no entanto, com alguma certeza, que coisas não fariam parte da alimentação (nomeadamente os cereais – pelo menos em quantidades relevantes -, o açúcar, os óleos vegetais, entre outros). Isto não significa, ainda assim, que um alimento seja excluído só porque não existia no paleolítico – algumas correntes incluem, por exemplo, queijos e outros lacticínios fermentados, preferencialmente feitos com leite gordo e cru e provenientes de animais criados em pastagem. O mesmo para o chocolate preto com alto teor de cacau e para o vinho, por exemplo – alimentos que não estariam disponíveis aos nossos antepassados, mas cujo consumo moderado os permite colocar numa categoria de “prazeres saudáveis”, dado, por exemplo, as propriedades anti-oxidantes de ambos.

    Ninguém afirma que parámos de evoluir no paleolítico (a tolerância à lactose nos adultos é, precisamente, sinal de evolução ao contacto com produtos lácteos), mas sim que existem alimentos aos quais estamos mais adaptamos do que outros.

    A verdade é que os legumes e frutas de hoje provêem da agricultura e todos os animais são um produto da domesticação – o que não signifca que, dentro destas limitações, não possamos fazer melhores escolhas, que se aproximem mais do que seria “natural” (no caso dos animais, por exemplo, preferir os que são criados em pastagem ou, no caso do peixe, escolher selvagem ao invés de aquacultura).

    Sigo um regime alimentar deste género há algum tempo e posso dizer estar bastante satisfeito :)

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  3. Double Ha! Isto sim! Aceitam cartões de crédito? Mas só me convence mesmo quando houver a versão do abastecimento personalizado. Ou seja: Chegar um bocadinho antes da hora e ir pelo matagal fora à caça do pedaço mais tentador – recomendado para grupos numerosos tais como despedidas de solteiros, reuniões de publicitários saudosistas e outros.

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