Sopa para alimentar vidreiros

Julgo já ter dito isto antes, mas o que me parece interessante nas confrarias é a forma como, através da comida, recuperam tradições culturais e histórias de locais, mobilizando as pessoas em torno de sabores que lhes são familiares. Foi por isso que, na ida a Guimarães (de que já falei em posts anteriores), fiquei imediatamente curiosa com aqueles homens vestidos com calças azuis escuras, camisas cinzentas, alpergatas, lenços ao pescoço e bóinas pretas. Eram da Sopa do Vidreiro, Marinha Grande – uma confraria jovem que tinha ido à festa da “velhinha” Confraria da Panela ao Lume.

Aqui estão, com as suas bóinas, os confrades da Sopa do Vidreiro, no Paço dos Duques de Bragança

Tinham ido promover a sopa que desde pelo menos o século XIX alimentava os vidreiros da Marinha Grande. Fernando Esperança, o grão-mestre, recordou na altura que quando tinha 12 anos e foi trabalhar pela primeira vez para a fábrica o médico aconselhou-o a comer a sopa de bacalhau, que fornecia as calorias necessárias e repunha aquilo que o organismo perdia com as altas temperaturas dos fornos.
Provámos a sopa: um caldo bem servido de bacalhau, com alho, salsa, batata, pão duro e pedaços de broa, e um ovo escalfado em cada prato. Cerca de 1500 calorias, garantem. A sopa é boa, e repõe as forças, disso não há dúvidas, mas na verdade (que me descupem os confrades) pareceu-me, na base, semelhante à açorda à alentejana (com a diferença, importante, de ter salsa em vez de coentros).
Mas o mais interessante é que a confraria está a recuperar uma tradição – a sopa já começa a ser servida em restaurantes locais, o que dantes não acontecia, e o que eles recomendam é o Rojão, na Amieira. Numa altura em que a indústria do vidro está em crise e o número de vidreiros a diminuir, a sopa traz memórias e valoriza um património importante para a Marinha Grande.
Uma curiosidade: o grande conselheiro da confraria é Aires Rodrigues, fundador em 1976, juntamente com Carmelinda Pereira, do Partido Operário de Unidade Socialista (POUS). Lá estava, sorridente e bem disposto, farda de vidreiro, e prato de sopa à frente.
(Desculpem, não tenho foto da sopa – a verdade é que me distraí a comê-la e a ouvir a história, e esqueci-me de fotografar).

Um comentário a Sopa para alimentar vidreiros

  1. O Aires Rodrigues!… Para mim, a Carmelinda é a grande resistente do 25 de Abril, mais dinossáuria que o dinassauro-chamou-lhe-o-marocas-fidel. Recordo com saudade a frase "se queres uma coligação PS-PCP vota POUS!". Já quanto ao seu camarada, saúdo a reconversão em Grande Educador… da Sopa do Vidreiro.Desculpe-me o fora de tópico mas não lhes consigo resistir… ;)Quanto à sopa, concordo em absoluto, tanto na comparação como no elogio ao recuperar das tradições.(Correndo o risco do politicamente incorrecto, não haverá candidatos à fundação de uma Confraria das Sopas de Cavalo Cansado?)

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