Bourdain anda por aqui

Na origem deste post está um outro, do Miguel Pires, no Mesa Marcada, há quase dois meses. Dizia ele que tinha saído nos Estados Unidos uma nova revista de gastronomia, de David Chang, dono do restaurante Momofuku, em Nova Iorque (e também Sydney e Toronto), e que nela colaborava, entre outros, Anthony Bourdain. Fiquei curiosa e mandei vir (Miguel, se não tiveres encomendado, esta está disponível para empréstimos).

Este número, o primeiro, chama-se The Ramen Issue e são 180 páginas de um imenso mergulho no universo aparentemente infinito do ramen. Não sabíamos que era possível dizer tanto sobre o assunto, mas Chang tem um entusiasmo inabalável – mete-se no avião para ir ao Japão investigar tudo o que é possível sobre estes caldos de massa com legumes e carne (e vários outros ingredientes, a gosto). Mas é evidente que os dois editores, Dave Chang e Peter Meehan, e Bourdain, e todos os outros, se divertiram à grande a fazer a revista.
Bourdain relata, num dos artigos, o percurso de Chang, e noutro dedica-se a discutir com o amigo sobre mediocridade – “Porque é que os americanos ficam satisfeitos com comida mediocre?”, interroga-se Chang.
Ficamos ainda a conhecer todas as versões possíveis de ramen e os locais do Japão onde se pode comer cada uma delas. E há muitas receitas – o elevado grau de rigor e precisão faz com que nada parece muito fácil mas para alguém tão obcecado por ramen como Chang parece ser, isto deve ser o mínimo dos mínimos que temos absolutamente que saber.
E depois, por volta da página 134, abre-se um pequeno espaço no meio do caldo para falarmos um pouco sobre ovos. Vem a propósito do… ramen, claro. Mas mesmo assim, Chang concede e dedica-se a esmiuçar o tema dos diferentes pontos de cozedura do ovo. E aprendem-se coisas interessantes.
Sim, como o Miguel dizia, era óptimo se existisse em Portugal uma revista de gastronomia com esta liberdade (de escrita mas também de grafismo). Talvez não fosse necessário ir a um nível de detalhe tão profundo – não sei se imagino 180 páginas sobre todas as variantes possíveis de cozido à portuguesa, por exemplo. E daí, com o humor de Chang e Bourdain, quem sabe…

5 comentários a Bourdain anda por aqui

  1. Obrigado, Alexandra, mas não é necessário: o teu ex-colega do Público, Ricardo Dias Felner, teve a amabilidade de me trazer um exemplar de Nova York. Chegou na semana passada mas infelizmente ainda só tive a oportunidade de a folhear. Ramen é algo de muito sério mesmo. No ocidente julga-se que os japoneses passam os dias a comer sushi, o que não é verdade. Não serão tão obcecados por ramen como o David Chan mas esse tipo de massa, bem como outras como a soba ou a udon são confeccionadas e comidas um pouco por todo o lado, de milhentas formas e com particularidades locais. E digo isto com base no que li e vi em Tóquio e Quioto.Por cá o Paulo Morais deve fazê-la(s) muito bem, pelo menos a ver por um prato que apresentou no Peixe em Lisboa. No Hong Kong Grande há algo aproximado de que gosto muito: "vaca na caçarola com molho de sacha" – embora a massa seja vermicelli (julgo).

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  2. Alexandra,era bom que existisse em Portugal uma revista dedicada à nossa Gastronomia! Acho que se fala muito pouco de gastronomia entre nós. Veja-se as secções das livrarias, as nossas são tão pobres comparativamente com o que se vê lá fora. :(Um beijinho.

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  3. E, se em vez do cozido à portuguesa, fosse, por exemplo, sobre todas as variedades de pão-de-ló existentes no país? Entre a História, as "estórias" (bleurgh!!!), os sítios, as arquitecturas, os modos, as gentes – as provas!… – 180 páginas eram poucas.

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