Jamón ibérico e a paciência de El Corina

Anto­nio Her­nan­dez Men­dez é mais conhe­cido como El Corina. Homem alto, de porte ele­gante, apoia-se num pau enquanto fala sobre os por­cos ibé­ri­cos que cria na sua pro­pri­e­dade, no Sul da pro­vín­cia espa­nhola da Estremadura.

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Os ani­mais cor­rem por ali, no meio dos sobrei­ros, onde nesta época a bolota é ainda só uma pro­messa. Daqui a uns tem­pos estes por­cos esta­rão trans­for­ma­dos num pro­duto com Deno­mi­na­ção de Ori­gem Pro­te­gida: o Jamón Ibérico.

Não são mui­tos os que têm a paci­ên­cia de El Corina para fazer a coisa como deve ser. Por­que “como deve ser” sig­ni­fica que são pre­ci­sos cinco anos para ter um pre­sunto com a qua­li­dade exi­gida. Durante três a cinco meses por ano, os 200 ani­mais que aqui vemos alimentam-se de bolota, e é isso, somado ao facto de terem espaço para andar, que garante a qua­li­dade da carne.

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Mas para per­ce­ber o inves­ti­mento que aqui está é pre­ciso ter em conta alguns núme­ros: são neces­sá­rios 20 sobrei­ros por hec­tare para ali­men­tar um porco; e para cada quilo de carne de porco são neces­sá­rios dez qui­los de bolota.O pro­cesso é con­tro­lado por um vete­ri­ná­rio, que garante que tudo é feito de acordo com as regras, e cujo tra­ba­lho é pago pelo pro­pri­e­tá­rio dos ani­mais, que são sacri­fi­ca­dos quando atin­gem os 18 ou 20 meses, depois de uma selec­ção rigo­rosa. “Numa explo­ra­ção inten­siva, já teriam sido sacri­fi­ca­dos. Aqui é um pro­cesso muito lento, e há uns anos isso valorizava-se no mer­cado”, diz El Corina. Lamenta que hoje já não seja assim. “Multiplicaram-se todos os cus­tos de pro­du­ção e o pre­sunto vale o mesmo ou menos.”

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Num mer­cado inun­dado de imi­ta­ções, o selo DOP não é sufi­ci­ente para garan­tir a dife­ren­ci­a­ção, até por­que a mai­o­ria dos con­su­mi­do­res não sabe dis­tin­guir. É pre­ciso a tei­mo­sia sau­dá­vel de homens como El Corina para que isto não desa­pa­reça. Homens que con­ti­nuam a fazer as coi­sas assim por­que se orgu­lham de apre­sen­tar um pro­duto único e nunca se con­ten­ta­riam com menos. Regresso da minha via­gem à Estre­ma­dura e leio nos jor­nais que os chi­ne­ses da Shu­anghui Inter­na­ti­o­nal estão a com­prar a norte-americana Smith­fi­eld Foods, a maior pro­du­tora de por­cos do mundo, que assim entra no mer­cado chi­nês — um mer­cado em rápido cres­ci­mento e ávido por carne de porco (só a Shu­anghui sacri­fica anu­al­mente 15 milhões de ani­mais). O texto no

The Guar­dian vem acom­pa­nhado pela ima­gem de uma eti­queta de um pro­duto da Smith­fi­eld: “Fiam­bre sem osso, cor­tado, aro­ma­ti­zado com ácer e com água adi­ci­o­nada, 97% livre de gordura.”

Perante a des­me­su­rada dimen­são de tudo isto, só me ocorre um pen­sa­mento: que os deu­ses garan­tam longa vida a El Corina.

(Texto publi­cado na revista 2 do PÚBLICO a 9 de Junho de 2013)

Descobrir o património através da comida este sábado em Milreu

Chama-se Cozi­nhando na Pai­sa­gem, é um pro­jecto do artista plás­tico Jorge Rocha, e a pró­xima ses­são vai acon­te­cer já ama­nhã, dia 15, às 18h, nas ruí­nas roma­nas de Mil­reu, no Algarve (pró­ximo de Estoi, a 8 qui­ló­me­tros de Faro).

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Quem puder ir até ao local poderá ver Jorge Rocha e a equipa que o apoia a cozi­nhar na pai­sa­gem, e a falar sobre o que come­riam os roma­nos que vive­ram naquele local, e o que come­mos hoje por ali, que influên­cias fica­ram, que pro­du­tos e for­mas de cozi­nhar desa­pa­re­ce­ram com­ple­ta­mente, o que é que cozi­nha­mos hoje que, mesmo sem ter­mos cons­ci­ên­cia disso, tem a ver com o que cozi­nha­vam os roma­nos? Mas quem não con­se­guir deslocar-se até ao Algarve poderá acom­pa­nhar tudo atra­vés da trans­mis­são em live stre­a­ming no site www.palato.org.

O menu fun­ci­ona como guião para a con­versa”, explica Jorge Rocha. “E tanto o público pre­sente como o que está online pode colo­car ques­tões”. A pri­meira ses­são do Cozi­nhando na Pai­sa­gem acon­te­ceu nos monu­men­tos mega­lí­ti­cos de Alca­lar . “Cozi­nhá­mos ervi­lhas, bor­rego, e fomos falando sobre a ali­men­ta­ção daque­les povos naquele período his­tó­rico para falar­mos tam­bém um pouco sobre a nossa ali­men­ta­ção actual”. As ses­sões come­çam sem­pre com uma visita gui­ada aos monu­men­tos — no caso de Mil­reu, esta decorre às 17h.

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E o que se vai cozi­nhar em Mil­reu? “Esta villa, que foi habi­tada entre o século I e o século XI, pertencia a uma famí­lia abas­tada que tra­ba­lhava na área dos pes­ca­dos”, explica Jorge Rocha, que se socorre da ajuda de arqueó­lo­gos e his­to­ri­a­do­res que não só o aju­dam na pes­quisa como estão tam­bém pre­sen­tes na ses­são (no caso de Mil­reu par­ti­ci­pa­rão João Pedro Ber­nar­des e Rui Par­reira). “Por isso, vamos fazer uma expe­ri­ên­cia com um molho viet­na­mita que, segundo uma inves­ti­ga­dora, é bas­tante pró­ximo do que era o garum no tempo dos roma­nos”. O garum, molho feito à base de san­gue, vís­ce­ras e outras par­tes do peixe que eram dei­xada em sal­moura ao ar livre, era con­si­de­rado um pro­duto de luxo na época, e expor­tado em gran­des quan­ti­da­des de Por­tu­gal para outras pro­vín­cias do impé­rio romano. É um exem­plo de algo que se per­deu com o tempo, mas cujo sabor que Jorge Rocha tenta recu­pe­rar para a actu­a­li­dade atra­vés do molho vietnamita.

Há ainda em Mil­reu pavi­men­tos que mos­tram ima­gens com pei­xes, o que prova a impor­tân­cia do pro­duto na época, e tam­bém um lagar de azeite. “O nosso objec­tivo não é fazer uma recri­a­ção”, subli­nha Jorge Rocha. “Para falar­mos da culi­ná­ria da época não temos neces­sa­ri­a­mente que a repe­tir. E a cada ses­são é um mundo novo que explo­ra­mos”. Há já pla­nos para um Cozi­nhando na Pai­sa­gem em Sagres, sobre os Des­co­bri­men­tos, e outro tal­vez no cas­telo de Alze­jur, sobre a culi­ná­ria islâmica.

Há festa no Penedo!

Vai haver música, comida, e — garantem-me — muita ani­ma­ção. Ama­nhã (dia 14) e sábado (dia 15) acon­tece no Penedo, em Sin­tra a 4ª edi­ção de um fes­ti­val muito particular.

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Chama-se Sons e Sabo­res do Penedo, mis­tura, como já disse, a música e a gas­tro­no­mia, e tem como objec­tivo reco­lher fun­dos para apoiar a popu­la­ção do Penedo, uma aldeia de 400 habi­tan­tes. Nenhum dos par­ti­ci­pan­tes — Mário Lagi­nha, Pedro Bur­mes­ter, André Fer­nan­des, Demian Caboud e Mar­cos Cava­leiro, além do chef Ber­nhard Pfis­ter do Hotel Palá­cio Esto­ril — recebe qual­quer cachet, o que no ano pas­sado, por exem­plo, per­mi­tiu reco­lher três mil euros, valor que rever­teu a favor da TUNA, a asso­ci­a­ção recre­a­tiva local, que pôde fazer repa­ra­ções no tea­tro do Penedo (sim, há um tea­tro na aldeia).

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Mas, como melhor do que nin­guém, os orga­ni­za­do­res podem des­cre­ver o que vai acon­te­cer, aqui fica o texto que eles fize­ram. Todo o pro­grama pode ser con­sul­tado no site da Insi­der Coo­king, mas reproduzo-o aqui também:

Durante duas noi­tes o Penedo con­tará com uma explo­são de sabo­res oriun­dos dos paí­ses Ale­ma­nha, Áustria e França e terá dois con­cer­tos de altís­simo nível.

A pri­meira será cele­brada às 20 horas com um espu­mante (Conde de Vimi­oso) de boas vin­das à entrada da TUNA. Depois poderá des­fru­tar de uma prova de mos­tar­das e vina­gres da Áustria na Mer­ce­a­ria da Aldeia. Por volta das 20.30 horas terá iní­cio o jan­tar no Res­tau­rante Refú­gio do Ciclista, sob a direc­ção do chef Ber­nhard Pfis­ter (Hotel Esto­ril Palá­cio) com o seguinte car­dá­pio: Ter­rine de Javali, Ché­vre e um bou­quet de salada. Espe­ci­a­li­da­des de gre­lha­dos vari­a­dos (sal­si­chas pro­du­zi­das pelo melhor sal­si­cheiro ale­mão em Por­tu­gal do Hotel Vila Vita, Algarve) com uma tri­lo­gia de mos­tar­das, salada de batata, salada de couve branca, salada de beter­raba e salada verde. Apfels­tru­del com molho de bau­ni­lha e uma aguar­dente de damasco. O jan­tar será acom­pa­nhado pelos vinhos Conde de Vimi­oso (branco, tinto e rosé)

Após o jan­tar, não deixe de beber uma bica no café e prepare-se para assis­tir a um ful­mi­nante con­certo de jazz (na TUNA), por volta das 22 horas, em que Mário Lagi­nha (piano) con­vida André Fer­nan­des (Gui­tarra eléc­trica), Demian Caboud (Con­tra­baixo) e Mar­cos Cava­leiro (Bate­ria). O preço com­pleto (jan­tar, café e con­certo) é de 45 Euros/pessoa.

Para além dos bilhe­tes com­ple­tos ainda temos 40 bilhe­tes só para o con­certo ao preço de 22,50 Euros. Os bilhe­tes só para o con­certo deve­rão ser com­pra­dos no Café Refú­gio do Ciclista, Penedo.

Após uma noite de gre­lha­dos e jazz, espera-nos na segunda noite (por volta das 20 horas) um jan­tar buf­fet sob a direc­ção do chef Ber­nhard Pfis­ter (Hotel Esto­ril Palá­cio), seguido de um con­certo em que Mário Lagi­nha con­vida Pedro Bur­mes­ter. Este segundo con­certo, de tom mais clás­sico, será ante­ce­dido de um buf­fet ins­pi­rado nos paí­ses Ale­ma­nha, Áustria e França (paí­ses de gran­des com­po­si­to­res, cujas músi­cas ire­mos ouvir). Entra­das: Vichyssoise/ Aren­ques marinados/ Vari­e­dade de char­cu­ta­ria. Pra­tos prin­ci­pais: Coq ao Vin/Gulasch/Maultaschen. Acom­pa­nha­men­tos vari­a­dos. Tri­lo­gia de Sobre­me­sas: Tarte de Linz (Lin­zer Torte), Tarte de cho­co­late, natas e ginga (Schwarzwäl­der Kirs­ch­torte), Mousse au Cho­co­lat e uma aguar­dente de damasco. O jan­tar será acom­pa­nhado com vinhos Marquês de Borba (branco e tinto).

Mas antes convidamo-lo para uma prova de mos­tar­das e vina­gres oriun­das da Áustria e depois do jan­tar poderá tomar uma bica no café Refú­gio do Ciclista. Prepare-se para a música que se seguirá… O preço com­pleto (jan­tar, café e con­certo) é de 45 Euros/pessoa.”

Landgraf e Avillez, um adeus ao ano de Portugal no Brasil

Tive o enorme pra­zer de almo­çar no Bel­canto o menu pre­pa­rado por José Avil­lez e pelo chefe bra­si­leiro Alberto Land­graf para encer­rar em Por­tu­gal o ano de Por­tu­gal no Bra­sil (por muito que me esforce vou sem­pre tro­pe­çar neste nome com­pli­cado do ano de Por­tu­gal no Bra­sil e do Bra­sil em Portugal).

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A grande mai­o­ria das ini­ci­a­ti­vas decor­reu no Bra­sil, onde vários che­fes por­tu­gue­ses esti­ve­ram a cozi­nhar em due­tos com che­fes bra­si­lei­ros. Mas houve tam­bém alguns ecos disso cá, com Avil­lez a rece­ber alguns dos nomes que se têm des­ta­cado nos últi­mos tem­pos na cozi­nha bra­si­leira, como os irmãos Cas­ta­nho, Beth Bel­trão ou, agora, Alberto Land­graf (o Miguel Pires esteve no Épice, o res­tau­rante de Land­graf em São Paulo, e podem ler aqui a opi­nião dele).

A ideia da ini­ci­a­tiva era mesmo este con­tacto entre che­fes, que ajuda a criar pon­tes, cum­pli­ci­da­des, e lhes per­mite conhe­cer novos ingre­di­en­tes, téc­ni­cas, etc. Mas é uma expe­ri­ên­cia que acaba por ser par­ti­lhada por muito pou­cos — aque­les que cabem nas mesas do res­tau­rante numa deter­mi­nada noite.

Fotos (Jorge Padeiro/Agência Zero.net)

(em cima): José Avil­lez (à direita), Alberto Land­graf (ao cen­tro), e David Jesus (à esquerda), na cozi­nha do Belcanto

Azeitona 3 José Avillez

1) Azeitona3 — José Avil­lez (azei­tona em três versões)

2) Fer­rero Rocher de foie gras — José AvillezPato com laranja Alberto Landgraf

3) Pato com laranja — José Avillez

Ferrero Rocher de foie gras José Avillez

Se o con­tacto a esse nível é fun­da­men­tal (basta ver a expe­ri­ên­cia do Cook it Raw) tive pena que não hou­vesse opor­tu­ni­dade para mais gente em Por­tu­gal ter con­tacto com a nova cozi­nha bra­si­leira. Não sei em que modelo isso podia ter acon­te­cido, e não sei quanto pode­ria cus­tar (nem quem paga­ria, o que, como sabe­mos, ainda mais nos dias que cor­rem, é a ques­tão essen­cial), mas imagine-se um fim-de-semana de mini-festival bra­si­leiro, com pro­du­tos, pra­tos a pre­ços mais aces­sí­veis, con­ver­sas (uma espé­cie de Peixe em Lis­boa, mas na ver­são Bra­sil em Lis­boa). Acho que have­ria muito a des­co­brir, e  que podia ser um sucesso.

Bom, não havendo Bra­sil em Lis­boa, par­ti­lho aqui algu­mas ima­gens do almoço no Bel­canto — com o regresso, sem­pre sur­pre­en­dente, a alguns dos pra­tos clás­si­cos de Avil­lez (como é que é pos­sí­vel o baca­lhau com grão ter tanto sabor?, é uma per­gunta que volta a cada vez que o pro­va­mos), e a des­co­berta da cozi­nha de Alberto Landgraf.

Palmito pupunha mel de Jatai e Aspargos com rapadura Alberto Landgraf

4) Pal­mito pupu­nha, mel de Jataí e espar­gos com rapa­dura — Alberto Landgraf

Cavalinha curada limão pickles de cenoura e vinagreta de cenoura Alberto Landgraf

5) Cava­li­nha curada, limão, pic­kes de cenoura e vina­greta de cenoura — Alberto Landgraf

Coração de pato biju de milho suco de ervilha Alberto Landgraf

6) Cora­ção de pato, biju de milho, suco de ervi­lha — Alberto Landgraf

Sapateira com tupinambo José Avillez

6) Sapa­teira com tupi­nambo — José Avillez

Gos­tei dos sabo­res puros, como o do suco de ervi­lha, a saber a verde, que acom­pa­nhava o cora­ção de pato com biju de milho (aliás, gos­tei muito de todo este prato), da cru­eza dos espar­gos com rapadura, do ácido dos pic­kles de cebola com tucupi e vina­greta de castanha-do-Pará. Não são pra­tos muito “dese­nha­dos”, nem nos levam para sabo­res fáceis — tal, como, aliás, o sor­bet de açaí, beter­ra­bas, fari­nha de água e queijo de cabra, da sobre­mesa — mas puxam-nos para a terra sendo, ao mesmo tempo, aco­lhe­do­res. Trans­por­tam uma espé­cie de natu­reza lumi­nosa que soube bem numa Lis­boa meio chuvosa.

Hambúrguer in vitro

Pode um ham­búr­guer ser a medida de todas as coi­sas? Sem­pre que que­re­mos dis­cu­tir ques­tões como junk food ver­sus comida sau­dá­vel, a obe­si­dade, e até o poder de com­pra em dife­ren­tes paí­ses (a Eco­no­mist usa o Big Mac Index) recor­re­mos à ima­gem do ham­búr­guer como ícone de tudo o que é bom e de tudo o que é mau.

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E, em tempo de crise, o ham­búr­guer apresenta-se como a comida mais barata, aquela a que con­se­gui­mos ace­der mesmo que viva­mos de esmolas.

Carolyn Steel, autora do livro The Hun­gry City e con­vi­dada do Tea­tro Maria Matos para uma das con­fe­rên­cias do ciclo Tran­si­ção, argu­menta, con­tudo, que, se todos os cus­tos indi­rec­tos envol­vi­dos no seu fabrico (polui­ção, des­gaste dos solos, cus­tos asso­ci­a­dos à obe­si­dade, etc.) fos­sem incluí­dos no preço de um ham­búr­guer, este atin­gi­ria os 200 euros. E, naquela que des­cre­veu como a ima­gem mais assus­ta­dora da sua apre­sen­ta­ção, mos­trou o mundo trans­for­mado num ham­búr­guer gigante.

E, no entanto, 200 euros parece até um preço razoá­vel quando lemos no The New York Times que o ham­búr­guer que Mark Post, inves­ti­ga­dor da Uni­ver­si­dade de Maas­tri­cht, está a criar no seu labo­ra­tó­rio custa qual­quer coisa como 325 mil dóla­res. Carito, portanto.

É ver­dade que no labo­ra­tó­rio de Post esta­mos longe da velo­ci­dade imba­tí­vel com que um ham­búr­guer nos é ser­vido numa cadeia de fast food. Mas há uma razão para isso: não é fácil nem barato criar um ham­búr­guer com peque­nos peda­ços de tecido desen­vol­vido em labo­ra­tó­rio a par­tir de célu­las (tudo começa com um tipo par­ti­cu­lar de célula reti­rada do pes­coço das vacas). A expec­ta­tiva é que, den­tro de algu­mas sema­nas, haja um ham­búr­guer pronto a ser cozi­nhado (e comido) em Londres.

Dizem os defen­so­res da carne in vitro que esta terá um enorme impacto posi­tivo no futuro, per­mi­tindo redu­zir a quan­ti­dade de água e ener­gia neces­sá­rias para criar o tal ham­búr­guer que, segundo Carolyn Steel, deve­ria cus­tar 200 euros.

Se a carne in vitro se gene­ra­li­zar, o seu custo baixa e, feita em grande escala, pode tornar-se um dia mais barata que a ver­da­deira. Mas, por mui­tas vol­tas que demos, vol­ta­mos à ques­tão essen­cial: a carne tornou-se barata por­que a indús­tria não inte­gra todos os cus­tos rela­ci­o­na­dos. Se fosse mais cara, come­ría­mos menos quan­ti­dade, tería­mos uma ali­men­ta­ção mais vari­ada e o impacto sobre o ambi­ente seria menor. Tal­vez assim con­se­guís­se­mos adiar o dia em que nos vão per­gun­tar no res­tau­rante: pre­fere o seu ham­búr­guer com carne de labo­ra­tó­rio ou com carne verdadeira?

(texto publi­cado na revista 2 do PÚBLICO a 26 de Maio)

 

Azeite algarvio premiado em Nova Iorque

A pri­meira vez que visi­tei Detlev von Rosen e o seu oli­val, em Mon­ca­ra­pa­cho, no Algarve, fiquei fas­ci­nada com as his­tó­rias que contou.

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Agora regres­sei lá, numa visita orga­ni­zada para um grupo de jor­na­lis­tas, pouco tempo depois de o azeite Mon­te­rosa ter rece­bido duas meda­lhas de ouro no impor­tante Con­curso Inter­na­ci­o­nal de Azeite de Nova Ior­que (mais de 700 azei­tes par­ti­ci­pan­tes) — com a vari­e­dade Picual (na cate­go­ria Deli­cado) e com a maça­ni­lha (Robusta).

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Para Detlev esta é uma vitó­ria com um sabor espe­cial por­que é uma prova de algo que ele sem­pre disse, con­tra mui­tas opi­niões em con­trá­rio: é pos­sí­vel fazer bom azeite no Algarve. E, acres­centa,  é pos­sí­vel ganhar dinheiro fazendo bom azeite no Algarve (um litro de Mon­te­rosa custa 34 euros, metade da pro­du­ção é ven­dida em Por­tu­gal, a outra metade é para exportação).

Publico abaixo o texto que escrevi para a Fugas, há cerca de um ano, depois da pri­meira visita a Detlev e ao seu olival.

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“Durante 25 anos, o sueco Detlev von Rosen pas­sou ao lado das oli­vei­ras mile­na­res que exis­tiam no ter­reno que tinha com­prado em Mon­ca­ra­pa­cho, no Algarve, e não pen­sou nelas. Mas houve um dia em que tudo mudou — e as oli­vei­ras velhi­nhas muda­ram tam­bém (um pouco) a vida do homem que em 1969 atra­ves­sou a fron­teira por­tu­guesa num Mini Mor­ris e pen­sou que estava “num jar­dim perpétuo”.Nunca mais se foi embora. “Era um paraíso, nunca mais pen­sei nou­tra coisa”, conta, per­cor­rendo o extenso oli­val (20 hec­ta­res) de onde hoje retira o azeite vir­gem extra Monterosa.Mas no prin­cí­pio era a laranja.Todo o espaço que per­cor­re­mos estava coberto com laran­jei­ras até que veio um ano de grande seca, os poços da pro­pri­e­dade foram secando um a um, até só res­tar um. Von Rosen foi ten­tar per­ce­ber qual das plan­ta­ções gas­tava tanta água (tem tam­bém 40 hec­ta­res de plan­tas orna­men­tais) e des­co­briu que era o laran­jal. Arrancou-o, pon­de­rou as qua­tro alter­na­ti­vas que fariam sen­tido para o clima algar­vio: figuei­ras, amen­do­ei­ras, alfar­ro­bei­ras e oliveiras.E esco­lheu as últimas.

Foi aí que olhou pela pri­meira vez com aten­ção para as árvo­res velhi­nhas à entrada da pro­pri­e­dade. Per­ce­beu que não sabia nada de oli­val e que pre­ci­sava de apren­der tudo. Leu livros, esteve em Espa­nha, na Gré­cia, na Cali­fór­nia, ouviu opi­niões, e per­ce­beu que já estava tudo inven­tado há muito tempo. “Abri­mos a porta a um mundo cul­tu­ral que já existe há cinco ou seis mil anos.” Os con­se­lhos bási­cos para quem quer ter um oli­val já estão no livro De Agri Cul­tura do sena­dor romano Marco Catão, 100 anos antes de Cristo — Catão explica como se faz uma vinha, como se faz um oli­val, e como se admi­nis­tram ter­ri­tó­rios estran­gei­ros. A Von Rosen inte­res­sava o segundo tema e aí apren­deu que se deve plan­tar as oli­vei­ras um pouco acima do nível do mar, em car­rei­ros ori­en­ta­dos na direc­ção do mar “para que a brisa faça mover as folhas, que nunca que­rem estar paradas”.

Mas falou tam­bém com contemporâneos.Um grego disse-lhe que tra­tar um oli­val “não é uma ciên­cia, é uma arte”, e por isso não expli­cou exac­ta­mente qual o momento certo para apa­nhar as azei­to­nas. Foi algo que Von Rosen (que tem mais três sócios, um sueco e dois por­tu­gue­ses) teve que des­co­brir. “No pri­meiro ano apa­nhá­mos dema­si­ado perto do Natal, mas era tarde de mais. Sabe­mos agora por expe­ri­ên­cia que é por volta de 15 de Outu­bro.” Houve outras coi­sas que apren­de­ram por expe­ri­ên­cia. Quando plan­ta­ram ini­ci­al­mente o oli­val qui­se­ram usar a vari­e­dade Maça­ni­lha, a mesma das oli­vei­ras anti­gas das quais tinham já con­se­guido fazer um azeite de grande qua­li­dade. Mas quando foram espre­mer as azei­to­nas das novas oli­vei­ras, foi a desi­lu­são — não tinha nada a ver com o outro azeite.Decidiram então enxer­tar as árvo­res novas com peque­nos rami­nhos das velhas, e hoje o oli­val é feito dessa fusão de gera­ções (e inclui tam­bém outras três vari­e­da­des: Cobran­çosa, Ver­deal e Picual).Mas antes de tudo isto foi pre­ciso recu­pe­rar as árvo­res anti­gas, e essa é tam­bém uma his­tó­ria curiosa.

Von Rosen conta: “Fui a um bar na Anda­lu­zia e per­gun­tei quem sabia alguma coisa de oli­vais. Todos sabiam.

Foram bus­car vinho e fala­ram, fala­ram. Pareceu-me muito com­pli­cado. Mas depois um deles disse-me: ‘O pri­meiro passo é muito sim­ples, tem que cor­tar a árvore à altura do joe­lho.’ Pen­sei que ele já tinha bebido de mais.” Não seguiu o con­se­lho inteiramente.

Cor­tou as árvo­res, mas um pouco mais acima. Um dia deu uma entre­vista da tele­vi­são e o seu inter­lo­cu­tor da Anda­lu­zia ouviu, meteu-se no carro e veio ver o oli­val. Von Rosen per­ce­beu que o con­se­lho do homem era bom, e que se a árvore tivesse sido cor­tada mais baixa seria mais fácil podá-la. Mas são coi­sas que só a expe­ri­ên­cia ensina. Como esta, que temos agora à nossa frente: a oli­veira velha vai desa­pa­re­cendo no inte­rior de uma nova, como se uma pele nas­cesse à volta, cri­ando novas raí­zes e envol­vendo a antiga, e, ao mesmo tempo, dividindo-se em duas. É isto que torna pos­sí­vel que a árvore para a qual olha­mos tenha, diz Von Rosen, uns dois mil anos, e venha de um tempo em que Mon­ca­ra­pa­cho, na estrada entre o então porto de Balsa e Beja, estava cheio de laga­res romanos.

Von Rosen ainda tem na sua pro­pri­e­dade um des­ses laga­res anti­gos, agora adap­tado às téc­ni­cas moder­nas, e onde faz as pro­vas de azeite.

Um casal de com­pra­do­res ale­mães acaba de che­gar, e é a opor­tu­ni­dade para irmos pro­var o azeite Mon­te­rosa, que é já expor­tado para vários paí­ses do mundo “e pra­ti­ca­mente toda a Europa”.

Von Rosen dis­tri­bui peque­nos copos de plás­tico e dá a pro­var os cinco azei­tes vir­gem extra que pro­duz (as qua­tro vari­e­da­des, e um de mis­tura). Aquece o copo na mão, expli­cando que a tem­pe­ra­tura de prova deve ser de 29 graus e ensi­nando como se ava­lia um azeite vir­gem extra. “Pri­meiro cheira-se para detec­tar se tem algum defeito, se foi con­ta­mi­nado.” Depois prova-se, passando-o por toda a boca, para detec­tar o sabor fru­tado, a aci­dez e algum picante.

E é isto. Os roma­nos já o sabiam há seis mil anos. Mas nós reco­me­ça­mos sem­pre a apren­der tudo outra vez. Sábias, as oli­vei­ras fica­ram à espera do dia em que Von Rosen final­mente olhou para elas.”

 

No Estoril, onde se falará de cozinha e de amor

Poder ouvir Maria de Lour­des Modesto, Fausto Airoldi, Joana Moura, Luís Baena, Maria José Macedo e Vítor Sobral a falar sobre o futuro da cozi­nha é uma opor­tu­ni­dade a aproveitar.

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A con­fe­rên­cia Cozi­nha, que futuro! acon­tece já segunda-feira na Escola de Hote­la­ria e Turismo do Esto­ril, a par­tir das 14h30.

É certo que estou a fazer publi­ci­dade em causa pró­pria por­que vou ser mode­ra­dora, mas foi um con­vite que acei­tei sem hesi­tar quando recebi o email da Patrí­cia Gabriel, uma das orga­ni­za­do­ras. A ideia da con­fe­rên­cia par­tiu de um tra­ba­lho para dis­ci­plina de Orga­ni­za­ção de Even­tos. A Patrí­cia juntou-se a dois cole­gas, a Luísa e o Rui,  come­ça­ram a tele­fo­nar às pes­soas que mais admi­ra­vam e con­se­gui­ram este pai­nel de luxo.

Maria de Lour­des Modesto vai falar sobre “o que pensa o cli­ente da actual cozi­nha que se serve em Por­tu­gal”; Fausto Airoldi sobre “orgu­lho em ser cozi­nheiro: ino­var a cozi­nha res­pei­tando o tra­di­ci­o­nal”; Joana Moura sobre uma “cozi­nha de sen­sa­ções e emo­ções”; Luís Baena sobre “enten­der a Natu­reza”; Maria José Macedo, pro­du­tora bio­ló­gica da Quinta do Poial, em Azei­tão, sobre a “agri­cul­tura bio­ló­gica — modo de vida”; e Vítor Sobral sobre a “cozi­nha por­tu­guesa na lusofonia”.

Tudo isto sob um lema esco­lhido pelos orga­ni­za­do­res: “Fina­le­ment tout est affaire d’amour là-dedans”, frase de Joseph Del­teil esco­lhida por Pierre Gag­naire para o livro Sucré-Salé. Cozi­nha e amor, por­tanto. No Estoril.

Carolyn Steel, a comida e as cidades — a não perder, no Maria Matos

Como é que se ali­menta uma cidade?”. É com esta per­gunta que Carolyn Steel, arqui­tecta e autora do livro Hun­gry City: How Food Sha­pes Our Lives, começa a sua apre­sen­ta­ção nas pales­tras TED.


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Foto: Carolyn Steel, autora de Hun­gry City

Vale a pena ouvi-la. A boa notí­cia é que pode­mos tam­bém ouvi-la ao vivo em Lis­boa no pró­ximo dia 21 de Maio às 18h30, no Tea­tro Maria Matos, ciclo Tran­si­ção, onde vai falar (em inglês) sobre O Poder Trans­for­ma­dor da Comida, e um con­ceito que ela criou, a Sito­pia, uma ver­são da uto­pia, mas que parte de uma cons­ta­ta­ção: “Vive­mos num mundo mol­dado pela comida”.

A pers­pec­tiva de Steel sobre a ali­men­ta­ção é par­ti­cu­lar­mente inte­res­sante por se tra­tar de uma arqui­tecta. Daí que a pri­meira per­gunta que faz é pre­ci­sa­mente “como se ali­menta uma cidade?”, ou seja, por onde é que entra a comida para abas­te­cer uma cidade com Lon­dres, por exem­plo, onde dia­ri­a­mente são se ser­vem 30 milhões de refei­ções? Steel dá-nos uma pers­pec­tiva his­tó­rica, lem­brando como os nomes das ruas são impor­tan­tes para per­ce­ber­mos como é que esse abas­te­ci­mento de comida se fazia, com as dife­ren­tes arté­rias espe­ci­a­li­za­das em dife­ren­tes produtos.

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Tudo mudou com o apa­re­ci­mento dos com­boios, afirma. O com­plexo pro­cesso de trans­porte dos ani­mais vivos até às cida­des, pelas suas pró­prias patas, foi subs­ti­tuído e come­çou aí a trans­for­ma­ção da rela­ção entre a cidade e a comida. Steel con­clui que temos que repen­sar a nossa rela­ção com o que come­mos e defende que a forma como pro­du­zi­mos ali­men­tos hoje não faz sen­tido. “Quem con­trola a comida controla-nos a nós”, escreve.

Esta é uma ideia defen­dida por vários outros pen­sa­do­res, mas o que me parece único no tra­ba­lho de Steel é o lado his­tó­rico da rela­ção entre cida­des e comida. Tam­bém eu acho fas­ci­nante pen­sar na quan­ti­dade de comida que todos os dias entra, é trans­for­mada, e con­su­mida em milha­res de cafés, de res­tau­ran­tes, de esco­las, de casas, numa cidade como Lon­dres — ou como Lisboa.

Provas cegas

Gosto de pro­vas cegas. Acre­dito que são a melhor maneira de apren­der o gosto das coi­sas. Se tiver­mos de pro­var vários pas­téis de nata (como já me acon­te­ceu) ou vários pas­téis de baca­lhau (tam­bém), temos nos con­cen­trar no que podem ser as peque­nas dife­ren­ças entre eles.

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Foto 1: Foie-gras com redu­ção de vinho do Porto (na Char­cu­ta­ria Lis­boa)

Só assim con­se­gui­mos ir cri­ando um ficheiro men­tal de sabo­res, como fazem os espe­ci­a­lis­tas em vinhos, para, sem­pre que for neces­sá­rio, pro­cu­rar­mos a ficha correspondente.

Lembro-me de uma vez ter par­ti­ci­pado num jan­tar às escu­ras e de ter per­ce­bido como a vista nos pode dis­trair. De repente, rode­ada pela escu­ri­dão, tinha toda a minha aten­ção con­cen­trada nos outros sen­ti­dos: o tacto (não era per­mi­tido usar talha­res), o olfacto e o pala­dar. A audi­ção ser­via essen­ci­al­mente para me aper­ce­ber de que algu­mas pes­soas na sala iam adi­vi­nhando mais rapi­da­mente que eu o que está­va­mos a comer. Os sabo­res eram pro­fun­da­mente fami­li­a­res, e mesmo assim não era fácil encon­trar a ficha correspondente.

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Foto 2: Migas de batata e ovo (Char­cu­ta­ria Lis­boa)

Há dias, Manuel Mar­tins, dono da Char­cu­ta­ria Lis­boa, convidou-me a comer uma sopa de tomate, e depois desafiou-me a vol­tar na época do tomate para ver a dife­rença. Será cer­ta­mente uma lição e gos­tava que hou­vesse mais assim. Cri­ado na mer­ce­a­ria do pai, em Campo de Ouri­que, Manuel foi ensi­nado desde pequeno a pro­var e a conhe­cer os sabo­res, a iden­ti­fi­car o que é bom, a não se dei­xar enga­nar pelo que é mau. Admito que nos tem­pos que cor­rem esta não seja uma pri­o­ri­dade naci­o­nal, mas acho que era bom que pudés­se­mos apren­der coi­sas des­tas nas esco­las — de que serve olhar para o dese­nho de uma roda dos ali­men­tos se numa prova cega não con­se­gui­mos per­ce­ber a dife­rença entre um tomate ver­da­deiro e um de “plástico”?

De que serve deco­rar os nomes de todas as peças que com­põem um micros­có­pio se não con­se­guir­mos iden­ti­fi­car um ali­mento que nos foi ven­dido adul­te­rado — e ao longo da his­tó­ria não fal­tam casos de frau­des ali­men­ta­res, desde o uso de chumbo para tor­nar o vinho doce na Roma antiga, até ao recente escân­dalo da venda de rato por car­neiro na China.

Pedro Graça, direc­tor do Pro­grama Naci­o­nal de Pro­mo­ção da Ali­men­ta­ção Sau­dá­vel, defende que seria impor­tante que as esco­las ensi­nas­sem os alu­nos a usar a faca e o garfo para arran­jar no prato um peixe inteiro. É impor­tante com­ba­ter a “ili­te­ra­cia ali­men­tar”, diz. Con­cordo. Não se trata tanto de ensi­nar o que é mais sau­dá­vel ou o que deve ser uma ali­men­ta­ção equi­li­brada. Isso é muito impor­tante, mas o enfo­que não pre­cisa de ser sem­pre na saúde. Pode­mos falar de sabo­res? Apren­der a pro­var? Per­ce­ber todas as nuan­ces que exis­tem entre o doce e o sal­gado? Redes­co­brir o ver­da­deiro gosto dos alimentos?

(texto publi­cado na revista 2 do PÚBLICO a 12 de Maio de 2013)

Nem MEO nem ZON: 24 Kitchen, o canal mais difícil

Tinha uma ambi­ção que me pare­cia rela­ti­va­mente modesta: gos­tava de ver o canal 24 Kit­chen. Tinha ido à apre­sen­ta­ção, quando ele foi lan­çado, e havia uma série de pro­gra­mas que me inte­res­sava muito ver.

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Em pri­meiro lugar por­que era a pri­meira vez que se fazia algo do género com che­fes por­tu­gue­ses, sobre pro­du­tos por­tu­gue­ses. Che­guei mesmo a fazer uma pequena repor­ta­gem sobre o pro­grama do Rodrigo Mene­ses, Gosto de Portugal. E em segundo por­que, bem… por­que havia Anthony Bourdain.

Como o canal não estava dis­po­ní­vel na ZON, que era o ser­viço que eu tinha, decidi espe­rar algum tempo para ver se a situ­a­ção se resol­via sem ter que me dar ao tra­ba­lho de mudar. Mas não acon­te­ceu nada. O canal con­ti­nu­ava dis­po­ní­vel ape­nas para a MEO. Ao fim de algum tempo dei-me por ven­cida. A única alter­na­tiva pare­cia ser mesmo a mudança. Começa então um longo e penoso pro­cesso. Pri­meiro dizem-nos que é muito fácil por­que a MEO trata de tudo direc­ta­mente com a ZON (já repa­ra­ram como eles têm o cui­dado de nunca dizer o nome da con­cor­rên­cia, referindo-se ape­nas à “outra operadora”?).

Os papéis segui­ram, mas a ZON enten­deu que a assi­na­tura no meu car­tão de cida­dão não era legí­vel, o que me obri­gava a ir a um bal­cão apre­sen­tar o car­tão ou a enviar cópia outra vez (curi­o­sa­mente com a mudança do tele­fone esse pro­blema não se colo­cou). A MEO aconselhou-me a enviar os docu­men­tos que eles pró­prios já tinham envi­ado e a recor­rer à ANACOM. Não tive tempo para tra­tar ime­di­a­ta­mente do assunto. A MEO entre­tanto ins­ta­lou o ser­viço em minha casa (não foi fácil, houve furos em pare­des, fios a atra­ves­sar a casa toda, mas aca­bou por ficar ins­ta­lado). E durante uns cur­tos dois meses con­se­gui ver o 24 Kit­chen, ape­sar de alguns pro­ble­mas no for­ne­ci­mento dos ser­vi­ços (que incluem Inter­net) que foram sendo ultrapassados.

Até que come­cei a não ter ser­viço nem de tele­vi­são nem de Inter­net — caíam com uma frequên­cia cada vez maior, pas­sa­vam horas desligados. Comecei a deses­pe­rar. Per­cebi que tinha entrado num daque­les pro­ces­sos que trans­for­mam as nos­sas vidas numa longa con­versa tele­fó­nica com inú­me­ras pes­soas (sem­pre dife­ren­tes) em call centers.

E foi assim que pas­sei várias das minhas noi­tes: em vez de ver o 24 Kit­chen tive a opor­tu­ni­dade de falar com deze­nas de ope­ra­do­res que, no final, me per­gun­ta­vam sem­pre: há mais alguma coisa em que possa ser útil? Não, não havia, por­que a única coisa em que pode­riam ser úteis não acon­te­cia. Houve uma roma­ria de téc­ni­cos em minha casa. Cada um reco­me­çava tudo o que o outro tinha feito, para no final con­cluir que não havia grande coisa a fazer. O sinal era fraco, seria difí­cil ter um bom ser­viço. Mais tarde explicaram-me que era um pro­blema para a bri­gada de cabos, e que se tra­tava de uma inter­fe­rên­cia de “outra ope­ra­dora” na linha. Nunca, ape­sar dos meu deses­pero cres­cente, me deram uma pre­vi­são de quando esta­ria resol­vido. Dias, meses, anos?, per­gun­tava eu. Nada.

Resisti o mais que pude, sem­pre na espe­rança de um dia ainda poder ver o 24 Kit­chen. Mas ao fim de três sema­nas (neste momento já vamos em um mês) sem tele­vi­são nem Inter­net, e depois de horas infi­ni­tas de con­ver­sas com call cen­ters, dei-me por der­ro­tada. Liguei à MEO para can­ce­lar o ser­viço. Lembraram-me que tinha um con­trato de fide­li­za­ção, mas mostraram-se com­pre­en­si­vos: afi­nal, se não tinha ser­viço… Parece, por isso, que nunca verei o 24 Kit­chen. Afi­nal, era uma ambi­ção muito mais des­me­dida do que tinha imaginado.