Trouxe para casa um cabaz

Eram quase sete e meia quando entrei no Mer­cado de Santa Clara, na Feira da Ladra, para ir bus­car o meu cabaz do Prove. Fui das últi­mas. Já só fal­tava levan­tar dois ou três. Car­re­guei tudo para dois sacos: cebo­las, bata­tas, laran­jas, couve, alface, raba­ne­tes, gre­los, cenou­ras, moran­gos. São entre 5 e 6 qui­los de fru­tas e legu­mes (os que há em cada estação) que vêm direc­ta­mente do produtor.

Aqui salta-se os inter­me­diá­rios. Os pro­du­tos dos caba­zes da Prove vêm da Moita, da explo­ra­ção agrí­cola de Ana Mar­ques, e um cabaz custa 10 euros. É pre­ciso enco­men­dar com 48 horas de ante­ce­dên­cia, pelo tele­fone 961071190 ou pelo email encomendas.moita@prove.com.pt, e pode-se levan­tar o cabaz todas as terças-feiras entre as 17h30 e as 19h30 no Mer­cado de Santa Clara.

Ir à fava no Poial

O sms dizia assim: “Estava a pen­sar con­vi­dar algu­mas pes­soas a ir à fava no Poial”. Não, a ideia não era insul­tar nenhum polí­tico da nossa praça; era, lite­ral­mente, ir apa­nhar fava. E vindo da Maria José Macedo, da Quinta do Poial, era abso­lu­ta­mente irre­cu­sá­vel — pen­sei eu e pen­sa­ram mui­tas outras pes­soas, que, numa manhã de domingo, sem se per­ce­ber bem se ia cho­ver ou fazer sol, apa­re­ce­ram na quinta de agri­cul­tura bio­ló­gica em Azeitão.

O sol veio, e ficou. As favas esta­vam pron­ti­nhas a ser apa­nha­das. E, como era­mos mui­tos e ansi­o­sos por mos­trar a nossa dedi­ca­ção à agri­cul­tura bio­ló­gica, foi um ins­tante enquanto enche­mos algu­mas caixas.

O passo seguinte demo­rou mais tempo: era pre­ciso des­cas­car as favas. A Maria José tinha pre­pa­rado duas mesas com­pri­das de madeira, e os gru­pos formaram-se à volta de cai­xas de favas. Havia por­tu­gue­ses e estran­gei­ros, e todos tinham tra­zido alguma coisa para con­tri­buir para o almoço. Abriram-se as pri­mei­ras gar­ra­fas de vinho, e não houve quem nos deti­vesse no afã de des­cas­car favas.

Houve, sim, quem qui­sesse levar a tarefa ainda mais a peito e suge­risse que se tirasse a pele das favas para se fazer uma ver­são dife­rente do prato, só com a favi­nha verde e tenra. E houve quem fosse na con­versa… Mas valeu a pena, tenho que reco­nhe­cer (a foto está aqui em baixo).  

Na mesa foram apa­re­cendo sala­das, pão, tor­ti­lhas, pas­tas várias para bar­rar. E na cozi­nha, começou-se a fazer as favas, usando ervas que se apa­nha­vam logo ali nas plan­ta­ções do Poial. Vege­tais não fal­ta­vam - e saí­dos direc­ta­mente da terra.

Comeu-se muito bem. Todos encon­trá­mos alguém que conhe­ci­a­mos e ficá­mos a conhe­cer alguém novo, houve muita con­versa à volta da mesa, um brinde à Maria José, e um resto de tarde pas­sado entre as filei­ras de legu­mes plan­ta­dos, com ela a explicar-nos o que é o quê e a ten­tar que, no entu­si­asmo de arran­car­mos ervas dani­nhas como se a sal­va­ção da agri­cul­tura por­tu­guesa depen­desse de nós, não levás­se­mos atrás tam­bém as cenou­ras ou os alhos.

Tudo isto teve um pro­pó­sito. A Maria José que­ria saber se resul­tava a ideia de tra­zer à Quinta do Poial quem qui­sesse conhe­cer os legu­mes e ervas aro­má­ti­cas, cozi­nhar com eles (sem­pre dife­ren­tes, con­forme as altu­ras do ano, claro), aprender coi­sas sobre agri­cul­tura bio­ló­gica, e par­ti­lhar experiências.

A Maria José é uma ide­a­lista assu­mida — foi das pri­mei­ras a dedicar-se à agri­cul­tura bio­ló­gica, tem legu­mes mara­vi­lho­sos que vende aos sába­dos de manhã no mer­cado do Prín­cipe Real, tra­ba­lha com alguns dos prin­ci­pais che­fes, desde José Avil­lez do Bel­canto a Vin­cent Far­ges da For­ta­leza do Guin­cho, pas­sando pelo Ale­xan­dre Silva do Bocca (e eles não lhe pou­pam elo­gios). E agora está a pen­sar que che­gou a altura de abrir o Poial a quem o queira visitar.

Sorte a nossa que ela não tenha desis­tido de ser uma ide­a­lista e que con­ti­nue a acre­di­tar que o cami­nho é este — e que o deve­mos fazer uns com os outros.

Dou mais notí­cias quando hou­ver outros almo­ços no Poial

Dois dias em Bordéus

Nos anos 90, quando vivia em Paris, o meu pai tinha no Expresso uma cró­nica cha­mada Duas Sema­nas Nou­tra Cidade. E se duas sema­nas é tempo sufi­ci­ente para ver alguma coisa, ou para per­ce­ber alguma coisa do que se vê, dois dias são cla­ra­mente insu­fi­ci­en­tes. Mas foi esse o tempo que estive em Bor­déus, e por isso aqui vai uma espé­cie de cró­nica foto­grá­fica do que por lá vi.

Na foto: a expo­si­ção sobre o Douro no cen­tro de Bordéus

O pre­texto da via­gem foi a inau­gu­ra­ção da expo­si­ção de foto­gra­fia sobre o Douro — qua­tro fotó­gra­fas olha­ram para o Douro com pon­tos de vista que não são os mais óbvios. As ima­gens deste pro­jecto da Procur.arte e do Museu do Douro são apre­sen­ta­das em cubos com luz, ou no chão, tam­bém ilu­mi­na­das, e estão no cen­tro de Bor­déus, junto à Câmara Muni­ci­pal e à catedral.

(Foto­gra­fia feita a par­tir de uma das foto­gra­fias da expo­si­ção, o tra­ba­lho “Fer­rei­ri­nhas” de Pau­li­ana Valente Pimentel)

Ape­sar de ser uma das prin­ci­pais zonas viní­co­las do mundo, e de toda a sua his­tó­ria estar ligada ao vinho, Bor­déus não tem (ainda) um Museu do Vinho. Visi­tei um espaço que se apre­senta como museu, mas que con­siste ape­nas numa cave com alguma infor­ma­ção. Há o pro­jecto de em 2014 abrir um grande cen­tro de interpretação/museu do vinho.

Mas, mesmo na cave-que-não-chega-a-ser-museu há um livro em chi­nês sobre os vinhos de Bor­déus. A aposta na China tem sido muito grande.

Vale a pena pas­sar pela loja de pro­du­tos medi­ter­râ­ni­cos Oli­vi­ers & Co., numa das ruas do cen­tro de Bor­déus, e expe­ri­men­tar os mui­tos tipos de azei­tes e vina­gres. Há um azeite por­tu­guês, o Mile­nium, de Augusto Alves, Trás-os-Montes — um “clás­sico que sim­bo­liza na per­fei­ção o estilo do seu país de ori­gem”, explica um folheto. Há tam­bém a ver­são do azeite mis­tu­rado com sumo de limão.

Mas nem só de vinho e azeite se fala em Bor­déus. A arqui­tec­tura tam­bém des­perta um enorme inte­resse a jul­gar pela sala cheia que há dias espe­rou ouvir Edu­ardo Souto de Moura que, por moti­vos de saúde, não pôde ir dar a con­fe­rên­cia pre­vista no espaço Arc en Rêve, um antigo entre­posto comer­cial trans­for­mado em cen­tro de arte, e onde pode agora ser vista uma expo­si­ção sobre a obra do arqui­tecto (e pré­mio Pritzker) português. Deixo aqui uma foto de uma das pági­nas dos seus livri­nhos de apontamentos, citando  Almada Negrei­ros: “Cora­gem por­tu­gue­ses, só vos fal­tam as qualidades”.

Um jantar em casa do chefe do Bocca

Este é um texto em que conto um jan­tar em casa do chefe do res­tau­rante Bocca, o Ale­xan­dre Silva. Saiu no Ipsí­lon (o suple­mento cul­tu­ral do PÚBLICO), mas inte­grado num texto maior sobre con­su­mos cul­tu­rais em espa­ços pri­va­dos. Por isso decidi republicá-lo aqui. Quem qui­ser des­co­brir o que o Ale­xan­dre anda a pen­sar e a cozi­nhar (vale a pena, garanto) pode ir seguindo as novi­da­des aqui e inscrever-se para um pró­ximo jan­tar. Para já, fica o texto.

Foto: Miguel Manso

Che­ga­mos uma meia hora mais cedo do que o com­bi­nado para con­ver­sar um boca­di­nho com o Ale­xan­dre – Ale­xan­dre Silva, chefe do res­tau­rante Bocca, e anfi­trião deste jan­tar. Não se trata exac­ta­mente de um jan­tar de ami­gos, embora se asse­me­lhe muito a isso. As pes­soas que vão che­gar na pró­xima meia-hora não se conhe­cem entre si mas inscreveram-se no Face­book do 4th Floor Cozi­nha Expe­ri­men­tal para virem comer a cozi­nha do Ale­xan­dre Silva de uma forma que não con­se­guem fazer no restaurante.

Estou há cinco anos no Bocca e, por muito que faça a cozi­nha que quero, tenho sem­pre a cons­ci­ên­cia de até onde posso ir”, diz o chef. “E chega uma altura em que o nosso pro­cesso cri­a­tivo começa a ficar blo­que­ado. Tenho que arran­jar um tru­que que ajude a que o pro­cesso cri­a­tivo con­ti­nue a avançar.”

Esta­mos aqui para assis­tir ao “tru­que”. Fran­cisca, a mulher de Ale­xan­dre, veri­fica se está tudo pronto na mesa da sala de jan­tar do seu apar­ta­mento em Lis­boa. Há música a tocar, a mesa posta para dez, e mui­tos livros de cozi­nhei­ros famo­sos na estante. Na cozi­nha, aberta para a sala, Ale­xan­dre e os três ami­gos que con­vi­dou para o aju­dar nesta noite pre­pa­ram os pra­tos, silen­ci­o­sa­mente. Não há sinais de suji­dade ou de desar­ru­ma­ção. Há uma máquina para cozer a bai­xas tem­pe­ra­tu­ras, em vácuo – uma téc­nica que Ale­xan­dre usa com frequên­cia, para man­ter as qua­li­da­des dos ali­men­tos. E os três aju­dan­tes estão a fazer esfe­ras de café e de pas­tel de nata para a sobremesa.

Entre­tanto, os dez par­ti­ci­pan­tes já che­ga­ram, sentaram-se em torno da mesa, e Fran­cisca sugere que cada um fale um pouco sobre o vinho que trouxe. O gelo quebra-se rapi­da­mente. Há, entre os con­vi­vas, um espe­ci­a­lista em vinhos, e a con­versa já não pára. Os pra­tos come­çam a che­gar che­gar, e Ale­xan­dre vai expli­cando o que quis fazer, e pedindo opiniões.

Isto é mesmo um labo­ra­tó­rio de cozi­nha onde eu e a minha equipa expe­ri­men­ta­mos coi­sas até ao limite. O que sig­ni­fica que não temos medo de arris­car em nada”. E quem ali vai comer está tam­bém aberto a isso, ao con­trá­rio, diz o chefe, do que acon­tece no res­tau­rante, onde a mai­o­ria das pes­soas tem uma ati­tude muito mais con­ser­va­dora. “Aqui, se qui­ser­mos ser­vir um cara­pau com bar­riga de porco ser­vi­mos. A ideia é con­se­guir criar”.

Não vai haver cara­pau com bar­riga de porco, mas vai haver bar­riga de porco cozi­nhada durante 15 horas a bai­xas tem­pe­ra­tu­ras. E peixe cozido em vácuo com caldo de pato – dito assim pode pare­cer uma mis­tura pouco pro­mis­sora, mas pelo con­trá­rio, o caldo de pato parece puxar pelos sabo­res do peixe. À volta da mesa discute-se, trocam-se opi­niões, Ale­xan­dre espera, atento, para per­ce­ber as reac­ções. Já trouxe uma cenoura cozi­nhada com citri­nos, um fígado que temos que adi­vi­nhar de que é (é de peixe galo) com raiz de salsa e de aipo, um creme de aipo com tai­nha e ovas e cavala.

A ideia, explica, é tam­bém mos­trar que é pos­sí­vel usar ingre­di­en­tes às vezes pouco valo­ri­za­dos. Quem é que vai optar por um prato de tai­nha no res­tau­rante? Aqui todos comem tudo o que Ale­xan­dre e a equipa encon­tra­ram no mer­cado na vés­pera de manhã (os jan­ta­res são sem­pre ao domingo, geral­mente duas vezes por mês, as com­pras são ao sábado), cozi­nhado de acordo com um tema mais ou menos livre – esta noite era “A Pri­ma­vera vem aí – ou então não”, uma forma de per­gun­tar se o clima não estará a afec­tar as épocas natu­rais de apa­re­ci­mento dos legu­mes, das fru­tas e até dos peixes.

As pes­soas vão tra­ba­lhando con­nosco. Dizem ‘está espec­ta­cu­lar, esta tex­tura é sur­pre­en­dente’ ou ‘não gos­tei muito por­que acho que não liga’”, des­creve o chefe. “O que nos enri­quece é per­ce­ber onde é que falhá­mos. Não quero agra­dar a toda a gente. Haverá sem­pre quem goste da minha cozi­nha e quem não goste – tenho que viver com isso. Mas a ideia é que as pes­soas entram lá e não se conhe­cem, e saem os melho­res ami­gos. Adoro fazer aquilo.”

Fondue de queijo numa lição

Sábado, no Cen­tro de Artes Culi­ná­rias, no Campo de Santa Clara, em Lis­boa, o André Maga­lhães, da Taberna da Rua das Flo­res, demons­trou como se faz fon­due de quei­jos. Foi um espec­tá­culo que decor­reu simul­ta­ne­a­mente em dois pal­cos, ou melhor, em dois fogões: num o André colo­cou, cor­ta­dos em peda­ci­nhos, vários tipos de queijo de ove­lha; no outro fez o mesmo mas mis­tu­rando vari­e­da­des de queijo de cabra.

Con­fes­sou que era a pri­meira vez que fazia fon­due com este tipo de quei­jos, até ali fizera sem­pre com queijo de vaca, mas numa feira de quei­jos em que havia tan­tas vari­e­da­des à dis­po­si­ção, era irre­sis­tí­vel expe­ri­men­tar. No de ove­lha, esfre­gou alho no fundo da panela e jun­tou vinho branco. No de cabra, usou leite de cabra.

E para aju­dar a criar a con­sis­tên­cia certa — é pre­ciso que fique cre­moso, e que faça fio quando se levanta a colher — usou fari­nha de ara­ruta (lembram-se das bola­chas de ara­ruta, aque­las secas, mas secas, que fica­vam ópti­mas com mar­me­lada?). O lume tem que estar baixo para evi­tar que o queijo crie crosta, avi­sou. Pare­ceu fácil (mas des­con­fio que não será assim tão fácil acer­tar com a tal con­sis­tên­cia) e esta­vam ópti­mos, os dois. Eu esco­lhe­ria o de cabra, mas isso já depende de cada um.

Ir ao Noma… em Londres

Uma notí­cia boa para quem este ano for a Lon­dres: para além de poder assis­tir aos Jogos Olím­pi­cos, vai poder tam­bém (se o pla­fond do car­tão de cré­dito o per­mi­tir) jan­tar no Noma. Aquele que foi con­si­de­rado o melhor res­tau­rante do mundo vai mudar-se tem­po­ra­ri­a­mente para Lon­dres — serão dez dias no Hotel Cla­ridge, onde René Red­zepi estará a apre­sen­tar a cozi­nha nór­dica com a qual revo­lu­ci­o­nou a gas­tro­no­mia nos últi­mos anos.

É a pri­meira vez que Red­zepi (na foto no Noma, com um geo­duck, uma espé­cie de amêi­joa gigante) faz uma ope­ra­ção deste tipo, que foi bap­ti­zada como “O sabor do Noma no Cla­ridge”. O pro­grama prevê almo­ços e jan­ta­res desde 28 de Julho até 6 de Agosto. O menu é com­posto por cinco pra­tos e custa (aí é que vem o pro­blema do pla­fond) 240 euros por pes­soa. Mas a cozi­nha que Red­zepi vai fazer será uma adap­ta­ção à rea­li­dade bri­tâ­nica. Não vai usar pro­du­tos nór­di­cos, mas sim pro­du­tos bri­tâ­ni­cos de época.

Tal­vez tenha­mos a sorte de encon­trar o chefe do Noma a apa­nhar ervi­nhas na rua à porta do Claridge.

Feira de queijos em Santa Clara

É já hoje que inau­gura no Cen­tro de Artes Culi­ná­rias (Mer­cado de Santa Clara/Feira da Ladra), em Lis­boa, a feira de pro­du­to­res de queijo vin­dos de todo o país, orga­ni­zada pelo Adolfo Hen­ri­ques, da Maçussa, ele pró­prio pro­du­tor de queijo, neste caso o chè­vre (o único deste tipo feito arte­sa­nal­mente em Por­tu­gal, e exce­lente). A feira fica até domingo, mas depois  disso, e até 22 de Maio, pode-se visi­tar a expo­si­ção de objec­tos liga­dos à his­tó­ria do queijo, que já inaugurou.

Os objec­tos são sem­pre muito boni­tos — fazem parte da colec­ção de Maria Pro­ença. E a expo­si­ção tem ainda várias his­tó­rias sobre queijo, desde o tempo dos egíp­cios até à Lis­boa antiga.

E, no meio de tudo, uma frase muito boa: “A idade é algo que não tem impor­tân­cia, a não ser que você seja um queijo” (Bil­lie Burke)

Outra coisa inte­res­sante é um exem­plar do livro “Tra­ba­lha para ti — Arte de Ganhar Dinheiro”. Repa­rem como na capa (isto é que é comunicar) está uma lista de 20 indús­trias que são for­mas garan­ti­das de ganhar dinheiro.

E lá estão, entre o sabão limpa tudo, os cre­mes para cal­çado, os carim­bos de bor­ra­cha e os insec­ti­ci­das, suas exce­lên­cias o queijo e a man­teiga. Uma lição para os nos­sos dias?

Chocolate e mais chocolate…

Há muito tempo que o Miguel Andrade me anda a falar do tra­ba­lho do As Marias Com Cho­co­late, um local onde fazem cho­co­la­tes arte­sa­nais,  no Campo de Santa Clara (Feira da Ladra), mesmo ao lado do Cen­tro de Artes Culi­ná­rias. Vou lá mui­tas vezes tomar café — nos dias de feira é pre­ciso abrir cami­nho por entre as pes­soas que vão com­prar os cho­co­la­tes — mas aca­bei por nunca tirar um boca­di­nho para ficar a ver o tra­ba­lho da Maria do Carmo e do Pedro Duarte. Agora o Miguel, que aos sába­dos de manhã ajuda a Maria e o Pedro, enviou-me este video muito bonito que mos­tra o que se passa na ofi­cina dos cho­lo­ca­tes quando nós esta­mos dis­traí­dos. Vale a pena ver.

Chocolates e flor de sal

Foi uma das des­co­ber­tas do Peixe em Lis­boa — e não tem nada a ver com peixe. Ou melhor, tem alguma coisa a ver com o mar. Falo dos cho­co­la­tes Siopa, fei­tos por Fran­cisco Siopa e apre­sen­ta­dos no Mer­cado Gour­met do fes­ti­val pela mulher do Fran­cisco. São fei­tos com flor de sal da Sal­ma­rim, e têm emba­la­gens muito boni­tas (como, aliás, a Sal­ma­rim tem). Mas são, sobre­tudo, muito bons.

Fran­cisco Siopa, ex-chefe de pas­te­la­ria dos Hotéis Quinta da Mari­nha Resort e Ony­ria Mari­nha Edi­tion Hotel & Talasso, andou às vol­tas com a flor de sal e com o azeite (da Casa Ana­dia) e, depois de várias expe­ri­ên­cias para acer­tar equi­lí­brios de sabo­res, che­gou a uma linha com ópti­mos resul­ta­dos: há cho­co­late com Roque­fort, com foie gras, com azeite, com fram­bo­esa e mage­ri­cão, e ape­nas com flor de sal (são exce­len­tes). Entre os recheados, o meu pre­fe­rido foi o de tomate. Pro­vei des­con­fi­ada, o cére­bro a ter difi­cul­dade em ante­ci­par o que seria a asso­ci­a­ção do cho­co­late com o tomate, mas pareceu-me um equi­lí­brio per­feito. E, além de tudo isto, são muito elegantes.

 Na foto em baixo estão os de flor de sal.

Vendem-se na loja Momen­tos da nossa Terra (Casa da Guia, Cas­cais), Mer­ce­a­ria da Vila (Cas­cais), na Quinta do Sal­da­nha (Atrium Sal­da­nha, Lis­boa). No Norte, encontram-se na HIG, na Póvoa do Varzim.

Um jantar paleolítico

Há uns tem­pos falei aqui da moda da dieta pale­o­lí­tica a pro­pó­sito de um res­tau­rante que tinha aberto em Ber­lim. Desta vez venho con­tar o “jan­tar pale­o­lí­tico” em que eu pró­pria par­ti­ci­pei — um dos jan­ta­res temá­ti­cos orga­ni­za­dos pelo PÚBLICO  o Grupo Lágrimas. Foi num sítio pouco pale­o­lí­tico, o Hotel Infante Sagres, no Porto, e teve como con­vi­da­dos arqueó­lo­gos e estu­di­o­sos liga­dos ao Vale do Côa e espe­ci­a­lis­tas nas gra­vu­ras que ali foram encon­tra­das — Ale­xan­dra Cer­veira Lima, Antó­nio Mar­ti­nho Bap­tista, Ana Ber­li­ner e Jorge Sam­paio. Foram eles que deram ao chefe Albano Lou­renço as pis­tas para pen­sar o jan­tar, sob o tema “Como come­riam os homens do Côa — rein­ter­pre­ta­ções contemporâneas”.

Na foto em baixo o sal­mão pale­o­lí­tico com ervas do Côa (a qua­li­dade da ima­gem é fraca por­que nos acam­pa­men­tos, à roda da fogueira, é difí­cil tirar boas fotografias)

E o que come­mos, então, no meio do salão de refei­ções do Hotel Infante Sagres? Pri­meiro um creme de acel­gas com almôn­de­gas de javali, seguido por um lombo de sal­mão, fumado em ervas do Côa, fari­nha de trigo com puré de milho, e, como sobre­mesa, um pudim de queijo com molho de fru­tos do bos­que pin­gado de queijo de cabra. O sufi­ci­ente, garanto, para nos fazer dese­jar ter vivido na época pale­o­lí­tica, se não fos­sem aque­les peque­nos incó­mo­dos de poder­mos ser per­se­gui­dos por ani­mais sel­va­gens e ter­mos que caçar para comer.

E a sobre­mesa paleolítica…

Mas o que sabe­mos real­mente sobre o que comiam os homens do Côa? Os espe­ci­a­lis­tas pre­sen­tes expli­ca­ram que sabe­mos pouco — caça­vam ani­mais, claro, e tra­ta­vam a carne para a pode­rem con­su­mir ao longo do tempo. Sabe-se que aque­ciam pedras para cozi­nhar em cima delas (uma téc­nica que, curi­o­sa­mente, se man­tém até aos nos­sos dias) e pensa-se que uti­li­za­riam o fumo para con­ser­var. Foram, além disso, encon­tra­dos num acam­pa­mento, datado de há cerca de 11 mil anos, restos de um peixe iden­ti­fi­cado como sável.

Usa­riam as ervas e os fru­tos da zona do Côa? É pos­sí­vel que sim. Mas seriam essas ervas e fru­tos seme­lhan­tes aos que exis­tem hoje ou muito dife­ren­tes? É difí­cil ter cer­te­zas. De qual­quer forma, vou con­tar mais sobre o que dis­se­ram os espe­ci­a­lis­tas num artigo a publi­car em breve. E pode­mos sem­pre ir fazendo rein­ter­pre­ta­ções con­tem­po­râ­neas para ten­tar conhe­cer melhor os nos­sos ante­pas­sa­dos — e para pen­sar­mos os pro­du­tos que temos à dis­po­si­ção (e os ante­pas­sa­dos des­ses pro­du­tos). É um exer­cí­cio muito interessante.