O cão que comeu a Internet

xray-lightbulb(1)Do maravilhoso mundo digital já se falou tudo, menos do seu potencial nutritivo. Nunca imaginaria tal associação, até que um jornalista chegou à redação e comentou, atormentado: “Não posso mais, ela comeu a Internet”.

“Ela?”, perguntei, imaginando apavorantes problemas conjugais. Mas não era disto que se tratava. Era a cadela. “Ela come tudo, agora foi a Internet”, disse-me o meu colega.
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Um garfo, uma faca e uma colher de madeira

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“Tenho um presente para ti”, anunciou o Chico. Estávamos num restaurante italiano e eu tinha o ravioli espetado num garfo, suspenso no ar, pronto para ser deglutido. “Vais gostar”, acrescentou, enfiando a mão no bolso interno do casaco.

De lá saiu um conjunto completo de utensílios alimentares. A tríade clássica, garfo, faca e colher, sem a qual não nos sentimos civilizados. “Que tal? Não são bem feitos?”, perguntou.

E eram. Bem feitos e biodegradáveis. De madeira. Manuseei-os cuidadosamente, apreciando os detalhes. Estavam a milhas de distância dos seus primos de plástico, sempre inclinados a partir perante um bife duro ou mandíbulas ávidas. Muitos já terão vivido esse infortúnio, engolindo um fragmento de garfo junto com o purê de batata.
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Esse mar é meu

Mar
A culpa não foi minha. Acho. É um consolo essencialmente estatístico. Cientistas portugueses comandaram um robot submarino não tripulado até ao fundo da costa vicentina, ao largo de Sagres, para inspeccionar a bagunça que lá anda. Encontraram 115 detritos, peças de lixo que até ali chegaram, a mais de 500 metros de profundidade.

Uma centena de testemunhos de civilização perdulária não é grande coisa. Se cada um corresponder a um cidadão, então temos 99,999% de portugueses que não contribuíram para aquele achado científico.

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O óleo desapareceu depois do fim da garantia

fotografia1Da primeira vez que se acendeu a luz do óleo, pensei que era mal contacto da lâmpada. Ligava e desligava nas rotundas, indicando um possível fio claudicante em duelo com a força centrífuga. Mas quando deixou de se apagar nas retas, ficou claro que o carro estava mesmo doente.

O mecânico, após sondar os intestinos da viatura com aquela longa vareta prospetiva, apresentou o diagnóstico: “Está sem óleo”. Como não havia nenhuma fuga ou anomalia visível, prescreveram-se exames complementares. A cada três mil quilómetros, seria necessário medir o nível do lubrificante, para determinar o ritmo exato do seu abaixamento.
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O velho e bom hábito de escrever à mão

fotografia 3Isto não vai ser fácil, eu sei. Vocês não imaginam quantas vezes já comecei e apaguei estas linhas. A caneta treme e a minha caligrafia, que é péssima, está pior. Estou a escrever à mão, num autocarro.
Vou a caminho do aeroporto, contribuir para o aquecimento global. Decidi não levar o computador nesta viagem. Não vou precisar dele.

E é uma bênção não o ter na bagagem. Há uns anos, era o mais portátil do mercado. Agora, é um trambolho anacrónico. Cada vez que o ponho na mala de mão, doe-me antecipadamente a ala direita do lombo. A simples renúncia a carregá-lo equivale a cinco horas de ioga.
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