Como desorganizar um país: primeira aula

PortugalMal se abriram as portas do autocarro perante o avião, ouviram-se os primeiros comentários. “Eh pá, é dos pequenos”, disse um passageiro, decepcionado. Outros agitaram-se em risadinhas fisiológicas, daquelas que nos brotam paradoxalmente ante o estranho ou o indesejado. “Só depois de amanhã é que lá chegamos”, gracejou uma senhora, com o pé no primeiro dos quatro degraus da escada.

Não havia razão para desassossego. De facto era uma das menores aeronaves da frota, mas ainda assim levava 50 pessoas, viajava a mais de 800 quilómetros por hora e subia acima dos 11.000 metros, como qualquer jacto comercial. A disposição dos assentos até trazia vantagens: dois de um lado e apenas um do outro, conferindo a este último meio metro quadrado de privacidade.

Sentei-me num desses e adormeci antes da descolagem. Quando despertei, 200 quilos de CO2 depois, já lá em baixo estava a confusão do território nacional. Basta olhar pela janela para ver que algo não correu bem.

As construções, pulverizadas sobre o solo, pareciam destroços de uma explosão. Era impossível dizer onde acabava o rural e começava o urbano, e vice-versa. O magnetismo próprio da processo urbanístico, que aglomera gente em torno de uma igreja, um café e uma escola, assumiu aqui uma versão mais desprendida: basta um café, ou nem isso, só um bocado de terra e vontade de ocupá-la.

Dentro do avião, toda a gente já se tinha esquecido do tamanho do aparelho. Metade entretinha-se com apêndices electrónicos, um quarto lia alguma coisa, um quinto dormia e dois babavam.

A descida de aproximação a Lisboa dilatou a imagem daquela balbúrdia, revelando-lhe os detalhes. Havia de tudo: estradas a rasgar campos; construções a pontilhar estradas; povoados com meia dúzia de fogos; armazéns perdidos no nada; fábricas envolvidas por casas; casas envolvidas por fábricas; grandes superfícies em todo o lado; pocilgas perto de aglomerados; pedreiras quase urbanas e suas crateras; um parque eólico em cada monte virgem; estradas novas para os parques eólicos em cada monte virgem; um campo de futebol no meio do milho; tufos de floresta de dimensões inviáveis; micro-propriedades rurais; mais casas; mais micro-propriedades rurais; de repente um bairro novo; mais micro-propriedades rurais; um loteamento que ficou pelo caminho; mais um armazém, mais uma estrada.

Perto do destino, emergiam as grandes urbanizações, muitas zelosamente construídas onde nunca deveriam estar, em declives acentuados, vales inundáveis e campos férteis. Na curva final para o alinhamento à pista, viam-se edifícios, arruamentos, restaurantes e parques de campismo junto a praias cravadas de esporões para travar os contra-ataques do mar, a reclamar o que é seu.

Já estavam todos acordados, faltavam poucos minutos para aterrar. Calçaram-se os sapatos, guardaram-se as revistas, pentearam-se cabelos e limpou-se a baba.

A cidade surgiu compacta, finalmente só urbe. Envolto por ela, asfixiado, o aeroporto. Desembarcaram todos com pressa, quase aos empurrões, sem olhar para trás, para a pequena aeronave que tanto os inquietara. Uma viagem aérea é assim, primeiro a ansiedade para entrar no avião, depois a impaciência para sair.

Desci com os outros, pensando nos inúmeros planos para pôr ordem na presença humana sobre o país, que hoje ornam prateleiras ou forram gavetas.

Saí da aerogare,  reuni-me à cidade ao nível do solo e apanhei o metro para ir para casa. Fim da aula de ordenamento do território.

Um comentário a Como desorganizar um país: primeira aula

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>