Não se pode comer mais nada

PeixeO diabo está ali no frigorífico, em fatias. E eu comi duas delas logo antes de ler a notícia que abalou o mundo da charcutaria.

Na embalagem estava a receita do desastre. Noventa e seis por cento eram “carne de porco” – designação habilmente genérica, onde tanto cabe o lombo quanto as pálpebras do animal. Nos quatro por cento restantes do fiambre, alojava-se um assustador compêndio de química: potássio iodado, dextrose, trifosfatos, nitrato de sódio, eritorbato de sódio e outras especiarias.

Sempre se soube que as carnes processadas não estão entre os itens mais saudáveis de se ingerir. Agora ficou comprovado que são cancerígenas. E subitamente uma parte do edifício gustativo da civilização desabou. De palatável petisco, uma simples rodela de chouriço passou a maligno agente do pânico.

Preocupado, fiz um inventário dos temores armazenados no frigorífico. Reencontrei a embalagem de fiambre, acompanhada de duas de presunto, um frasco de salsichas, um pacote de bacon fatiado e meio paio. Outros produtos também vinham de algum tipo de processamento industrial: os queijos, o iogurte, o sumo de laranja, a maionese, o ketchup, até o salmão fumado, que era de viveiro. Por cautela médica, é melhor nem pôr os olhos no rol de ingredientes que embelezam esses nutrimentos. A sua simples leitura pode dar gastrite.

Ostracizar os enchidos e os fatiados é uma ofensa ao património gastronómico da humanidade e um buraco nas contas dos fabricantes. E quando a saúde choca com a economia, o apelo à cultura é o melhor remédio para deixar tudo como está. As autoridades sanitárias apressaram-se a garantir que, com moderação e couves à mistura, os efeitos não são assim tão nefastos – o que, na verdade, sempre foi dito mas nunca muito ouvido.

Quando todos já respiravam normalmente, veio a outra novidade: comer peixe também faz mal. Mas dessa vez ao planeta, e não ao estômago. Portugal, segundo cálculos recebidos com incredulidade, é o país mediterrânico cuja alimentação requer maior área de solo e de mar para a suster. Almoçar, cá, resulta numa enorme “pegada ecológica”, termo muito em voga mas perigosamente susceptível à cacofonia – basta um descuido silábico.

É claro que, sendo a Terra a vítima, ninguém ligou a mínima. Não é com meia dúzia de números num relatório que se vai conspurcar a inocência de um peixinho fresco grelhado. Se essa cândida imagem esconde o facto de não haver mais sardinhas na costa portuguesa ou bacalhau na Terra Nova, não importa. Bandidos, deixem-nos comer à vontade!

Não está fácil. De um lado, o chouriço e o bacon causam cancro. Do outro, o peixe é insustentável. Nem o vegetarianismo nos salva. Os legumes tem adubos químicos, a verdura pesticidas, a soja e o milho são transgénicos.
Inspeccionei novamente o frigorífico, deprimido como se estivesse a abrir uma câmara mortuária. Cada alimento tinha um problema e a soma de todos gerava um insolúvel drama alimentar.

Fechei a porta e voltei às notícias, o meu ofício. Lá estava mais uma: comer poucas gorduras afinal é menos eficiente do que a mítica dieta mediterrânica, no que toca ao controlo de peso. Aí é que ficou tudo mesmo baralhado. Presunto, sim ou não?

Para o intelecto confuso, o tempo é santo remédio. Assim, passado o tumulto do noticiário , tudo voltou ao normal e o cozido não desapareceu das ementas. Ficou um resquício de susto, que ao menos nos vai ajudar a pensar melhor no que comer.

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