Cala-te, Paula

fornoEla sempre aparece na hora do jantar, a Paula. Nunca avisa antes, mas já sabemos de antemão quando vai chegar, com o seu distinto espalhafato. Basta ligar o forno.

O aparelho é elétrico, e este detalhe tem servido de substrato a uma contenda familiar. Minha mulher diz que assim é incomparavelmente melhor, pela possibilidade de controlo exato da temperatura. Eu digo que não, porque a eletricidade é em regra pior amiga do ambiente do que o gás. Meus filhos não opinam nem arbitram. Resultado: o forno lá está.

Assa que é uma beleza. No entanto, a meio da cozedura surge a Paula. Não é um ser, não é um objeto, não é um fantasma. É um barulho. Um  ruído que advém de uma ventoinha misteriosa, aparentemente destinada a manter a temperatura interna estável e depois resfriar mais rapidamente o forno, uma vez desligado.

Quando o som chega, é com toda a força. A ventoinha acelera de zero a 100 num milésimo de segundo, corporizando Paula sob a forma de um sopro metálico, de elevado impacto auditivo. Embora previsível, o momento da sua aparição é uma facada sonora no ambiente. Paula só se cala a meio do jantar, depois de arruiná-lo.

Quando meus filhos a batizaram – sem ofensa, o nome estava no ar por alguma outra razão –, parecia que ela vinha do fundo do forno, onde também há um ventilador. Esse, porém, não tem culpa nenhuma. É o que se encarrega de distribuir o calor equitativamente pela cavidade, tornando o processo mais eficiente. Está nos cânones dos bons hábitos energéticos na cozinha, permitindo selecionar uma temperatura mais baixa e ainda assim assar mais rápido – uma combinação que parece mentira.

As vantagens são evidentes. Por cada grau Celsius a mais num forno elétrico, são mais 0,7% de energia consumida.

Apesar disso, não sei por quê, sempre passei ao lado dessa simples medida. Aliás, revendo as listas de procedimentos poupadores de energia que existem por aí, constatei que tenho falhado quase todos. Por exemplo: cozinhar o máximo de comida possível de uma vez só; deixar espaço entre os tabuleiros ou travessas, para a circulação do calor; pré-aquecer só o estritamente necessário; desligar o forno cinco a dez minutos antes do fim da cozedura; nunca o acionar para pequenas quantidades; selecionar a temperatura certa; usar recipientes de cerâmica ou vidro.

O pior pecado é abrir a porta do forno para avaliar se o assado está pronto – atitude que não raro degenera na simples “olhadinha”, pelo mero prazer de apreciar a obra prima culinária que ali sibila.

Paula não se queixa, pois é nesse instante de abertura que passa a ter companhia. O fumo do forno sai em rolos espessos e atinge em cheio o sensor de incêndio, no teto. O alarme dispara em estridentes rajadas, no limiar da dor, obrigando qualquer um a sair correndo para longe. Para evitar tal drama, é preciso ligar o exaustor no máximo, um barulhão. Ainda assim, às vezes não chega e os três elementos – Paula, alarme e exaustor – unem-se em coro. É o terror acústico.

Segundo um site especializado na matéria, com dez segundos apenas de porta aberta, são precisos mais 8% de energia para ter o jantar pronto. Se a isso adicionarmos o desperdício que é ter uma ventoinha só para arrefecer o forno quando tudo termina, está o caldo ecológico entornado.

Se eu fosse o único utente do forno elétrico lá de casa, o planeta e as finanças domésticas estariam perdidos. Estou deprimido, mas prometo melhorar. Apenas peço uma coisa em troca: por favor, cala-te, Paula.

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