O cão que comeu a Internet

xray-lightbulb(1)Do maravilhoso mundo digital já se falou tudo, menos do seu potencial nutritivo. Nunca imaginaria tal associação, até que um jornalista chegou à redação e comentou, atormentado: “Não posso mais, ela comeu a Internet”.

“Ela?”, perguntei, imaginando apavorantes problemas conjugais. Mas não era disto que se tratava. Era a cadela. “Ela come tudo, agora foi a Internet”, disse-me o meu colega.

No apogeu da sua juventude, o energético animal primeiro tentara ingerir aquela tomada metálica de onde saem os cabos de TV, telefone e banda larga. Roeu-a durante um bom bocado, até convencer-se de que não a conseguiria arrancar da parede.

Prosseguiu a jusante, destruindo uma calha de PVC até atingir os fios. Subjugou a instalação à sua curiosidade mandibular, deglutindo extensões variáveis do cabo e assim mergulhando o domicílio no mais profundo inverno informático – hoje, um pesadelo social.

A cadela devora o que lhe aparece pela frente. E não tem culpa nenhuma. Provavelmente sofre de uma patologia conhecida, que dá pelo nome de picae que se manifesta pela ingestão frequente de objetos estranhos, que não são alimento. Basicamente, cão que tem pica come tudo.

Pedras, objetos, almofadas, madeiras, sacos de plástico, eis uma pequena amostra do que já lhe passou pela goela. Nada é capaz de travar a compulsão da cadela em dar ao dente.

Não sendo raro nos animais domésticos, tal comportamento está documentado em radiografias no singular concurso They ate what? (Eles comeram o quê?), promovido anualmente por um site norte-americano de notícias veterinárias.

O vencedor da edição de 2014 não foi um cão mas um sapo que, provavelmente revoltado por o terem engaiolado, comeu as pedrinhas que ali tinham posto para lhe amenizar o cárcere. O segundo colocado foi um braco alemão de pelo curto que surripiou duas espetadas de um churrasco e acabou com um dos espetos no estômago. O terceiro lugar coube a um dinamarquês gigante, que se refestelou a comer 43 meias.

Outros animais traziam nas entranhas elementos bizarros como uma boneca, uma lâmpada, um anzol, nove agulhas, cinco patinhos de borracha e 1,29 dólares em 104 moedas de um penny e uma de um quarter. Felizmente, todos se safaram após a intervenção dos veterinários.

A cadela do meu amigo não foi a única a comer a Internet. Sem surpresa, há casos semelhantes. São situações que deixam duas ordens de sequelas: a fisiológica, para o cão, e a sociológica, para o dono.

Desatar-nos do mundo digital é como tirar-nos o tapete debaixo dos pés. Sem email, Google, Facebook, Youtube, Twitter, LinkedIn, Flickr, Instagram, Skype e outras formas de vida em sociedade, não somos ninguém.

O jovem jornalista norte-americano Paul Miller que o diga. Desligou-se voluntariamente da Internet durante um ano, a título experimental. No princípio foi uma maravilha. Livros, bicicleta, passeios, cartas, visitas aos amigos, reuniões de trabalho de verdade, o mundo real de volta. Mas no final, Miller viu-se confinado ao sofá, agarrado à consola de jogos e raramente se encontrando com alguém.

Na casa do meu colega, a Internet foi rapidamente restabelecida, salvando a família do degredo social. A cadela aparentemente continuou com os seus estranhos hábitos alimentares. A doença não é brincadeira e pode ter raiz numa desordem orgânica que é imperativo tratar. Também pode ser fruto de outras razões, como stress, ansiedade ou simplesmente tédio.

Por isso, não deixe o seu cão aborrecido em casa. Dê-lhe atenção. Caso contrário, além de maltratar o animal, ainda vai acabar sem Internet.

(Imagem gentilmente cedida por Veterinary Practice News)

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