Um garfo, uma faca e uma colher de madeira

fotografia 3

“Tenho um presente para ti”, anunciou o Chico. Estávamos num restaurante italiano e eu tinha o ravioli espetado num garfo, suspenso no ar, pronto para ser deglutido. “Vais gostar”, acrescentou, enfiando a mão no bolso interno do casaco.

De lá saiu um conjunto completo de utensílios alimentares. A tríade clássica, garfo, faca e colher, sem a qual não nos sentimos civilizados. “Que tal? Não são bem feitos?”, perguntou.

E eram. Bem feitos e biodegradáveis. De madeira. Manuseei-os cuidadosamente, apreciando os detalhes. Estavam a milhas de distância dos seus primos de plástico, sempre inclinados a partir perante um bife duro ou mandíbulas ávidas. Muitos já terão vivido esse infortúnio, engolindo um fragmento de garfo junto com o purê de batata.

Sólidos, os exemplares de madeira inspiravam muito mais confiança. E pareciam mais funcionais. O garfo espetava melhor, a colher era mais ergonómica e a faca cortava de verdade.

Na semana seguinte, vi-os novamente num snack-bar. E desde então tenho notado que os talheres descartáveis de madeira estão a conquistar mercado – afinal, a sua verdadeira razão de existir. Compram-se pela Internet, a preços variáveis. Num site, encontrei garfos a 8,21 euros a centena, facas a 8,40 e colheres a 8,50 – o que sugere uma certa hierarquia funcional, na qual conter vale mais do que serrar ou espetar.

Se são uma alternativa verdadeiramente ecológica ou não, aí entramos no insidioso domínio dos números. Confrontados com os de plástico, encontram-se mais facilmente argumentos a dizer que, sim senhor, são mais favoráveis. Entre um item que vem do petróleo e que no máximo é reciclado, e outro oriundo das árvores e que se decompõe naturalmente, não parece difícil de escolher.

Há quem defenda opções intermédias, como os talheres de bioplástico, feitos de amido de milho – uma grande vantagem quando não há sobremesa.

Onde a comparação parece mais difícil é entre a madeira e o metal. Por alguma razão, um faqueiro é um clássico entre os presentes de casamento: é material para a vida toda, mesmo que o matrimónio se dissolva e um fique com as facas e o outro com as colheres. Após anos de utilização, a dívida ecológica da fabricação já foi amortizada e o ónus ambiental estará reduzido à água e à energia aplicadas na lavagem.

Um garfo descartável de madeira tem outro peso. Não se lava. Mas usa-se, deita-se fora e eis que, para o substituir, um pequeno naco de árvore fica imediatamente hipotecado.

A natureza regenera-se mas não tem paciência infinita. Na China, por exemplo, são tanto os pauzinhos utilizados para agarrar o chop suey de frango, que o Governo instituiu, em 2006, uma taxa ambiental de cinco por cento sobre o preço dos chopsticks descartáveis. Não funcionou. Na altura, deitavam-se fora 45 mil milhões de unidades por ano e agora são 80 mil milhões. Traduzido em floresta, isto implica o abate de 20 milhões de árvores por ano, o que genericamente equivale a 15.000 hectares de eucaliptal.

Há um movimento mundial – envolvendo provavelmente meia dúzia de pessoas – em prol da substituição da madeira dos chopsticks por outros materiais, inclusive tungsténio. Para quem gosta de morder a ponta dos pauzinhos, vai ser um desastre odontológico.

Se a moda dos talheres ocidentais de madeira pega, vamos ter de fazer melhor as contas para ver se vale a pena. Por ora, mantenho os meus na gaveta, para reflexão intelectual. Gostei do presente. Obrigado, Chico.

Um comentário a Um garfo, uma faca e uma colher de madeira

  1. Eu amo comer com meu garfo de madeira, tem uma árvore, a paineira que da para fazer utensílios quase eternos. Da pra fazer de bambu também, fica incrível, e pode reutilizar, sem essa de anti higiênico, é do saber lavar e secar direito.

    Responder

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>