O saco de plástico que me deixou cego de um olho

plasticoEra um saco de supermercado como qualquer outro, laranja, da cadeia britânica Sainsbury’s. Não é difícil imaginar como terminou pendurado naquela árvore. Foi dado de graça na caixa do estabelecimento e acomodou as compras no curto trajecto até à casa do cliente. Depois seguiu o seu tortuoso destino de item sem função, do caixote da cozinha até um aterro sanitário, de casa a um contentor de recicláveis ou directamente para um recipiente de lixo na rua – desses que só são esvaziados quando o dobro do seu conteúdo já transbordou para o passeio.

O mais provável é que tenha sido simplesmente arremessado para o chão, um acto comum nas sociedades civilizadas e praticado com as mais variadas matérias-primas.

Independentemente de onde se encontrava o moribundo saco, o vento encarregou-se de o reanimar, transportando-o em voo livre, até que se enganchou num ramo da árvore atrás da casa da minha família recém-emigrada.

Eu tinha de o tirar dali. Estava fora do alcance de um braço esticado e decidi laçá-lo. Mas escolhi o apetrecho errado: uma dessas cordas elásticas, que se usam para amarrar objectos à bicicleta ou ao automóvel. Errei a mira e, em vez do saco, apanhei um ramo. Puxei-o para trazer todo o conjunto para mais perto. O elástico soltou-se e, com uma precisão impiedosamente malévola, atingiu em cheio o meu olho esquerdo, desgraçando-o sem remédio.

Dos vários azares que facilitaram o episódio, um deles encerra uma exasperante ironia temporal. Em Outubro entrará em vigor na Inglaterra uma taxa sobre os sacos de plástico, tal como a que foi agora introduzida em Portugal. A utilização destas embalagens vai cair a pique. Se já lá estivéssemos, possivelmente aquele saco não estaria pendurado naquela árvore. E eu ainda veria do olho esquerdo. Na vida, porém, não existem “ses”, o tempo não anda para trás.

Depois de uma cirurgia de emergência, passei a noite em claro num quarto do hospital local, cercado de outros enfermos que enxergavam bem mas respiravam pessimamente. Um gemia, alguns expectoravam e todos tossiam, numa constante sinfonia pulmonar.

Sentado na cama, traumatizado e insone, senti-me inspirado a tornar-me no campeão da luta contra os sacos de plástico. Imaginei campanhas, blogues, protestos, actos de desobediência civil e até terrorismo ecológico. Na vida de um ser humano, há sempre lugar a uma vingança.

Nos primeiros dias, porém, o que parecia era que alguém estava a querer vingar-se de mim. Para chegar a um hospital especializado em Londres, recebi as seguintes instruções: sair da estação de metro e seguir a linha verde pintada no passeio – medida para indicar o caminho a quem vê mal, mas de fértil inutilidade para daltónicos como eu.

Por pouco não fico também surdo, vítima do maior terror sonoro da diagnose médica: a tonitruante ressonância magnética. “Sou um bocado claustrofóbico”, alertei, antes de enfrentar aquela sinistra máquina tubular. “Tá quieto”, responderam-me e me empurraram lá para dentro, ligando a geringonça. Na afobação, deixei cair um dos tampões que me deram para proteger os ouvidos e fiquei à mercê da infernal martelação acústica que caracteriza o exame. Entrei sem ver do lado esquerdo e saí sem ouvir do lado direito.

Os sacos de plástico, é claro, não me deixaram mais o pensamento. Há pouco mais de um ano, tentei calcular quantos sacos em Portugal iam parar onde não deviam, largados por aí. Cheguei a algo entre 83 e 250 milhões por ano. Na Europa toda, serão 8000 milhões.

Quando se pensa nas desgraças desta poluição, geralmente vêm à cabeça imagens de golfinhos asfixiados, tartarugas engasgadas e albatrozes esventrados. Diz-se em todo o lado que 100.000 animais marinhos morrem anualmente devido aos plásticos – uma cifra mítica, resultante da apropriação torcida dos números de um estudo que pouco ou nada tem a ver com o assunto.

Que um saco de plástico possa causar danos graves a nós próprios é algo que ninguém imaginaria. Os acidentes serão muito mais raros do que tropeçar numa pedra e partir a cabeça. Mas existem e eis alguns exemplos recentes. No Reino Unido, um motociclista sofreu uma trágica queda, depois de um saco lançado de um carro ter-se colado à viseira do seu capacete. Também por causa de sacos de plástico volantes, duas embarcações chocaram na Tailândia, um helicóptero caiu na Alemanha e quatro cavalos de um coche turístico desembestaram na Austrália, derrubando o veículo de uma ponte.

Noutro registo, num supermercado nos Estados Unidos, uma operadora de caixa ficou sem uma mexa de cabelo e sofreu outras humilhações físicas desferidas por uma cliente a quem tentara impedir que retirasse dezenas de sacos ao seu bel-prazer. Com a taxa agora em vigor em Portugal, perdemos o privilégio de espectáculos deste calibre.

Por uma questão de honestidade, não posso atribuir exclusivamente ao saco de plástico do Sainsbury’s a génese do meu acidente. É verdade que a embalagem mostrou a força da sua perversidade mais distintiva: sendo leve, vai para todo o lado, tornando-se uma poluição omnipresente e, por isso, odiada.

Mas o saco não teria dado à árvore se um cretino não o tivesse abandonado onde não devia, como presumo que aconteceu.

E assim, conjugados todos os factores, eu, que já escrevi de tudo sobre o lixo, fiquei meio cego por obra da sua presença descontrolada no ambiente.

Ao analisar o meu visual depois de algumas semanas, minha mulher dirigiu-me palavras reconfortantes: “Até que não está tão grotesco.” Mas uma amiga disse-me para parar de piscar tanto: “Estás com o tique da avó Maria.”

Com ou sem o tique da avó Maria, fiquei mais vigilante do que nunca em relação à praga do lixo atirado para o chão, nas ruas, nos parques, nos campos, nas praias, em qualquer lugar. Só a intolerância será capaz de combater este sintoma de inércia mental. Da minha parte, vou estar de olho.

 

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