Garrafa de plástico, água da torneira

fotografia 3“Há aqui uma coisa para si”, disse-me o colega da receção. Qualquer jornalista sabe o que isto significa. Com 99% de probabilidade – cifra aqui utilizada sem qualquer rigor estatístico – trata-se de um objeto, produto ou serviço que é apresentado aos media e simultaneamente oferecido ao repórter, com a intenção deliberada de que escreva sobre o assunto. Chamam-lhes “campanhas”, mas há sempre uma dose de suborno nestas tentativas.

Era uma garrafinha de plástico, vazia. Vinha da companhia que traz a água à torneira dos lisboetas, empresa com razoáveis credenciais verdes, embora responda mais pela cor azul, por inerência ao produto que comercializa. Verdade seja dita, associar o azul à água é uma mera convenção cromática, despregada da transparência da matéria. Mas não desviemos o raciocínio do essencial.

Acomodei a garrafa sobre a minha mesa, ao lado de uma outra, de vidro, com a qual alguém também pretendera plantar a sua mensagem nos jornais. Se bem me lembro, essa não chegara vácua de conteúdo. Trazia um bilhetinho enrolado, como fazem os náufragos no mundo das lendas, mas que neste caso soçobrou rapidamente no cesto do lixo, dada a sua magnífica relevância.

Já há algum tempo que utilizo o recipiente de vidro para hidratar o organismo, abastecendo-me de água na torneira mais próxima. Agora, a garrafa de plástico veio disputar este papel. Foi encomendada pela companhia das águas a criativos do design para dar corpo, literalmente, a uma campanha sobre a qualidade da água que distribui.

Escoltada por cirúrgicas manifestações de modéstia – como os epítetos “elegante”, “icónica”, “sofisticada” e “inovadora” –, a garrafa é um estímulo da empresa para que cada um “leve a água de torneira consigo”.

“Endoidaram”, pensei. Quem é que se iria lembrar de basear uma ação de propaganda ambiental num objeto exorcizado pelos ecologistas? Afinal, a garrafa de plástico tem sido alvo de uma guerra de trincheiras, pontuada por convenientes intervalos para que os beligerantes possam com elas saciar a sede.

Para já, o plástico está a vencer, e de longe. Cada português bebe 129 litros de água engarrafada por ano. E 84% das embalagens são de plástico, segundo dados da indústria. Como informação suplementar e provavelmente inútil, pode-se acrescentar que as garrafas menores – com mais 200 mililitros e até um litro – são as que têm mais saída. São duas em cada três.

Encurralado por este exército de polímeros, o vidro parece ter poucas hipóteses, pois defende-se com uma infantaria reduzida. Por cada cinco garrafas de plástico em combate há apenas uma de vidro. E por cada três de vidro, somente uma é reutilizável – as outras duas vão para o lixo.

Num relâmpago estratégico, o que a companhia das águas afinal está a propor é um armistício no conflito, com a seguinte sugestão: usem o plástico, mas bebam água da torneira. O que parecia esquisito afinal faz sentido. Estende-se a mão à indústria do plástico, oferecendo-lhe uma nova oportunidade de negócio, e recentra-se o antagonismo não no material da embalagem, mas na origem da água.

A mim, o que isto criou foi um dilema. Durante semanas, tive à minha frente a garrafa de plástico e a de vidro, ambas 100% reutilizáveis e recicláveis, como se autoproclamam. No final, ofereci a primeira e fiquei com a segunda, que pareceu-me melhor para o planeta.

Foi uma escolha intuitiva, sem grande fundamento científico. Enfim, como escreveu o escritor Guimarães Rosa, “cada um o que quer aprova: pão ou pães, é questão de opiniães”.

 

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