Saudades do saco de plástico

plasticos1A noite ia alta e eu me preparava para cometer mais um atentado ao planeta. No dia seguinte ia viajar de avião. Não havia muitos itens a inserir na mala, além de meia dúzia de artigos de vestuário, alguns papéis, o cardume de cabos e carregadores que sempre nos acompanha e exemplares da gastronomia local para oferecer.

Podia, é claro, comprar artigos genuinamente nacionais no próprio aeroporto de Lisboa, como chocolates suíços, whisky escocês ou brinquedos chineses. Aprendi, no entanto, que a melhor forma de se escolher uma recordação é entrar num supermercado. Há sempre algum souvenir comestível, barato e com sabor local. E ingerir um presente é melhor do que condená-lo ao eclipse no fundo de um armário.

Na hora de adicionar os sapatos, fui à busca de sacos de plástico na despensa, para garantir a incomunicabilidade entre o que toca o chão e o que vai à boca ou cobre o corpo.

O meu braço já está treinado a alcançar, junto à porta, o saco de pano com duas aberturas onde se metem os de plástico – entram por cima e saem por baixo. Tacteando a parede, a mão lá chegou sozinha, mas voltou a abanar. Não havia saco nenhum.

Eu devia dar pulos de alegria. Aquele não era um momento qualquer, senão o do êxito triunfal da política de não trazer sacos de compras para casa. Durante algum tempo, ainda fui escoando o passivo que se acumulara no passado. Os sacos foram então progressivamente minguando, como as bactérias perante um antibiótico. E eis que se confirmava o fim da moléstia: o meu apartamento estava livre da infecção dos sacos de plástico.

Com tal sucesso, eu bem poderia reclamar à Greenpeace o meu certificado ambiental de bom aluno. Mas no imediato eu tinha um problema prático para resolver: com o que ia embrulhar os sapatos?

Corro sérios riscos no que vou dizer. Aliás, se não regressar a este espaço na próxima semana, é porque fui queimado na fogueira da inquisição ecologista. Mas tenho de admitir: por um momento, senti que teria saudades dos sacos de plástico.

Mesmo que não os tivesse eliminado por conta própria, sei que desaparecerão tão logo comece a ser cobrada a taxa que o Governo quer aplicar a este ícone moderno da poluição humana, que destronou outras enfermidades mais pungentes como inimigo ambiental número um.

Fixado com contas de merceeiro, o valor inicialmente proposto era de dez cêntimos. Mas o Governo, temendo o impacto eleitoral de uma cifra com dois dígitos, resolveu o problema com esplêndida destreza numérica: optou por oito cêntimos mas aplicou-lhes o IVA, o que acaba por dar no mesmo. E como os sacos serão vendidos, a receita ainda estará sujeita a IRC, num singular caso de tripla tributação. Essa gente não brinca em serviço.

Poucos vão pagar o pato, digo, o saco. E, com isso, será atingido o suposto efeito desejado, o que demonstra que o imposto é mais inteligente do que as críticas de que tem sido alvo, sobretudo as que se lêem nas redes sociais, onde vigora uma certa tendência para a desvalorização encefálica.

Lá de casa, já sumiram. Deu até uma certa tristeza ver aquele saco de pano, que estava sempre a abarrotar de plásticos ali enfiados. Antes parecia uma farinheira a explodir. Agora, resta apenas a tripa.

Para os sapatos, tive de procurar alternativas. O ideal seriam embalagens de pano. No final, vali-me de uns restos de plástico-bolha – petróleo na mesma. Acabarão por surgir no mercado opções mais inovadoras. A indústria do plástico, que anda por aí a choramingar, não está bem a ver o dinheiro que pode vir a fazer com isso.

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