Rotunda enquadrada

fotografia
Demorou até que eu descobrisse a razão daquele trânsito. Num sentido, fluía bem. No outro, estava constantemente empancado, os carros a avançar lentamente em breves espasmos, para desespero dos condutores. Todos os dias era assim.

Como eu passava sempre a pé, não liguei muito. Não era nada que atrapalhasse a minha excelsa missão de manter a forma física. Manter, admito aqui num parêntesis confessional, é um recurso de expressão. Por mais que me esforce em corridas à beira-mar, há sempre um pernil, um cozido ou uma feijoada que recolocam o organismo num ponto pior do que estava antes. É difícil fixar prioridades neste domínio.

Num raro percurso de carro, vi a placa que desvendou o mistério. Eram obras, mas não quaisquer. Segundo o letreiro, tratava-se de um “novo enquadramento paisagístico” – designação solene, que prognostica benefícios mirabolantes para os cidadãos.

Por incrível que possa parecer, o que está a ser enquadrado é uma rotunda, descrita visualmente num desenho de grande conteúdo poético. Se a imagem for igual ao destino, quando tudo estiver pronto as vias paralelas da estrada serão afastadas primeiro por uma pequena ilha em triângulo, devidamente ajardinada, contornando a seguir a enorme placa circular, ornada com árvores e calçada portuguesa, até se unirem novamente, extasiadas por esta luxuriante experiência rotatória.

O conjunto todo será de tal forma aprazível, que o desenhista anteviu um homem de fato e gravata a caminhar languidamente no passeio, com as mãos no bolso como quem assobia, e apenas dois carros a circundar o novo elemento viário – que com essa previsão de trânsito, aliás, tem a sua utilidade plenamente justificada.

Embora se tenham esquecido dos passarinhos, os eleitos do meu concelho garantem, através de uma inscrição na placa: “Estamos a melhorar Cascais para si”. Que bom. Já antevejo famílias a fazerem piqueniques sob as árvores da rotunda ao fim-de-semana, condutores a pararem em plena curva para apreciar a obra e homens engravatados a chegarem tarde ao trabalho, distraídos por aquela magnífica obra do urbanismo contemporâneo.

Entusiasma saber que, além destas mais-valias colectivas, os moradores de um enorme edifício ali reconstruído no lugar de outro que tinha a metade da volumetria poderão usufruir da capacidade distributiva da rotunda para facilmente entrarem na estrada, num ou noutro sentido. O quê? A construção de uma coisa tem a ver com a outra? Não, que ideia. Uma rotunda é uma rotunda. Do seu posto cimeiro nas prioridades rodoviárias do país, não precisa de mais nada para brotar na paisagem.

Verdade seja dita, as rotundas são uma grande invenção. Prescindem dos semáforos, distribuem melhor o trânsito e reduzem a velocidade dos automóveis. Daí a classificarem-nas como “enquadramento paisagístico” vai uma grande distância. A associação padece de uma elementar incongruência geométrica, que consiste em enquadrar algo que é redondo. E revela um certo desvio recorrente na mente de planeadores que, por alguma razão obscura, acreditam que um micro-jardim sufocado por automóveis ao seu redor pode ser um marco na paisagem.

Eu, por mim, esquecia a rodovia e deixava o trânsito à sua mercê. Um carro parado é meio caminho andado para promover os transportes públicos.

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