Andar, um negócio sustentável

fotografia 1Desde que começou a competição, minha mulher tem andado estranha. Às vezes dança sem música. Noutras, dá uns saltinhos no mesmo lugar, sem razão aparente. E por qualquer coisinha vai dar um passeio.

Qualquer marido atento não menosprezaria tais sintomas. Mulher casada que dança sozinha, dá pulinhos e está sempre saindo, é porque anda a pular a cerca. Mas o caso aqui é outro, é a tal competição. Ela é uma das 284.179 pessoas que já aderiram este ano a uma prova internacional cujo objetivo é fazer com que as empresas ponham os seus trabalha-dores a andar. O quê? Despedimentos? Não, a andar a pé, pelo menos dez mil passos por dia.

Desde o dia 28 de maio que minha mulher não para. Vai para todo o lado com o pedómetro – um pequeno dispositivo que se pendura junto ao corpo para contar os passos ao longo do dia. A mania não é nova mas agora tornou-se compulsiva, fruto da índole competitiva do certame.

Os participantes estão reunidos em equipas – neste caso, os Walkie Talkies, representados por sete elementos do departamento de línguas de uma universidade. Numa festa recente, vi-os juntos, em estranhos rebolados coletivos enquanto conversavam, de modo a manter o pedómetro em ação.

Cada integrante regista os seus passos diários numa plataforma informática, que faz os cálculos, atualiza os resultados e simula um trajeto imaginário, com início em Versalhes, França. Neste momento, os Walkie Talkies estão algures perto de Florença, Itália. A melhor equipa da universidade encontra-se na Grécia e os líderes mundiais da competição já vão no Vietname. É muito passo.

Curiosamente, são as próprias companhias que pagam para inscrever os seus funcionários neste Global Corporate Challenge. E não é barato: entre 46 e 65 euros por pessoa. Sintomaticamente, só há 329 participantes em Portugal, contra 73 mil nos Estados Unidos e 35 mil no Reino Unido.

Como o capitalismo não é tolo, aparentemente há benefícios objetivos para as empresas. Um inquérito mostra que 75% dos trabalhadores sentem uma elevação do moral coletivo e 52% reportam maior engagement – a atual palavra-fetiche dos gestores, alguns dos quais não sabem o que ela significa. Mais: 90% dizem estar melhor de saúde e o absentismo cai 41%. Há ainda lucros ambientais. Na edição do ano passado, 262.024 pessoas deram 320 mil milhões de passos, o que compensou o lançamento de 7682 toneladas de CO2 para a atmosfera – ou assim o dizem.

De sobra, com milhões de euros pagos aos organizadores e mais milhões ganhos em produtividade, criou-se um novo mercado, que monetizou algo que nunca se imaginou ter valor: o passo humano. É claramente uma daquelas situações win-win-win a que tanto se aspira: o bem-estar aumenta, faz-se dinheiro e o planeta agradece. O único caminho possível para a sustentabilidade é um bocado este: do nada cria-se um negócio em que ficam todos contentes.

Ninguém avaliou ainda, porém, as sequelas comportamentais induzidas pela competição. E minha mulher anda mesmo muito estranha, sobretudo desde que descobriu que é a pior da equipa, apesar dos 11.964 passos que dá em média por dia. Tenho-a visto a dar voltas à mesa, alucinada, com o pedómetro na cintura. Vale tudo para aumentar a contagem.

Ela que não se preocupe. Em duas semanas, já andou 179.461 passos, equivalentes a 115 quilómetros. Em moeda gastronómica, o esforço compensa 19 bifes, 15 hambúrgueres, 30 fatias de pizza, 18 pacotes de batata frita, 29 fatias de bolo ou 54 cervejas. Que venham!

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