Guarda-chuva inquebrável

“Este é o último guarda-chuva que você vai comprar”, disse-me o vendedor. E antes que eu me convencesse de que estava próximo do dia do juízo final, veio a explicação: “É um guarda-chuva para a vida toda”.

Não tendo nascido ontem, suspeitei. Há uma lei intrínseca às relações comerciais segundo a qual a eloquência no discurso do vendedor é inversamente proporcional à confiança que o consumidor deve ter no produto. Caso contrário, não haveria armário que chegasse para tanta banha da cobra.

E o homem tinha o estilo próprio de quem comercializa adiposidade réptil. Apanhou-me na fração de segundo em que o meu olho direito, num lapso fatal, fez uma rotação momentânea na direção dos vários guarda-chuvas expostos na sua banca no passeio.

“Venha cá que vou lhe mostrar uma coisa”, disse-me e arrastou a família toda, bruscamente hipnotizada, para a arena do seu espetáculo. No chão jaziam vários cadáveres de guarda-chuvas, uns partidos, outros rasgados, todos inaptos à sua função original. “Estão a ver? É isto o que acontece todos os dias. É ou não é?”, indagou, abrindo espaço a um clássico momento na venda ambulante, o da expectativa forçada. Instado a responder a uma pergunta, o comprador socorre-se de meio-sorriso defensivo, enquanto pensa: “Vá lá, mostra logo o que queres me impingir.”

Na verdade, o produto parecia interessante: um guarda-chuva inquebrável. As suas varetas, de fibra de vidro ou de carbono, torciam mas não cediam. Com vento forte, a campânula pode até virar do avesso, mas depois retorna facilmente à posição normal.

Duvido que a moda pegue — não pelo preço mais elevado do produto, mas porque guarda-chuvas frágeis são um excelente negócio para quem os fabrica. Basta olhar para os números: só nos Estados Unidos são vendidos 33 milhões por ano — aproximadamente um por segundo —, conforme um artigo da revista The New Yorker.

Como cerca de 70% da produção mundial está na China, a probabilidade de um guarda-chuva capitular logo à primeira trovoada é quase tão elevada como a do sol nascer todos os dias. O problema é que os restos mortais não vão desta para melhor, mas sim para pior, largados que são em caixotes do lixo públicos, nas ruas, nas sarjetas, nas ribeiras, nas praias, no quintal do vizinho. A mais insólita sepultura que conheço é a conduta pluvial que desce do telhado do meu prédio, afetada há uns anos por uma grave obstipação: era um guarda-chuva.

Com surpreendente constância morfológica, os guarda-chuvas acompanham a civilização humana desde pelo menos a antiguidade. Até ainda há alguns anos, consertavam-se. Agora, quando um se estraga, compra-se um novo.

Esta banalidade consumista despreza a complexidade de cada um desses utensílios, composto por dezenas de partes com diferentes formas, materiais e funções. Reciclá-los é uma dor de cabeça, daí que a burocracia europeia tenha poupado a sua energia legislativa, deixando os guarda-chuvas em paz, livres de metas de recolha e outros compromissos.

Há por aí dezenas de alternativas, como fazer capas e cortinas a partir dos tecidos ou antenas e luminárias das estruturas metálicas. Mas apenas resolvem o problema a algumas unidades e a meia dúzia de consciências.

Inquieto, tentei apurar quantos guarda-chuvas terão já sido adquiridos lá em casa. Minha mulher perdeu a conta. Meus filhos não ligaram à pergunta.

Eu estou safo: nunca tive um. Muito menos o inquebrável me seduziu. O vendedor que gaste a saliva com outro cliente.

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