A química da frigideira

fotografia 2
Alternativas não faltam. Uma curta caminhada pelo corredor das panelas, pratos e talheres de qualquer hipermercado revela uma profusa abundância de itens. Mas nenhum, em nenhuma das missões exploratórias que fiz, correspondia àquilo que eu ambicionava: uma frigideira de ferro.

Estamos aqui perante um evidente preconceito. Os tachos de ferro são, num humilde juízo mineral, o melhor recipiente para a cozedura alimentar. O primeiro, a minha mulher adquiriu-o no Porto, há mais de duas décadas. Carreguei-o às costas durante uma viagem por Portugal à boleia, que concluí com um princípio de hérnia discal. Depois, comprámos várias outras panelas e um carro.

Quase todas emigraram recentemente com parte da família e urgia repor pelo menos algumas, para bem da funcionalidade culinária. Em falta estavam sobretudo uma panela grande, capaz de acondicionar um bom molho de grelos, e uma frigideira, para atos térmicos mais dramáticos.

Comecei pela última e, depois de visitar a terceira grande superfície – este furacão centrípeto do capitalismo selvagem – não encontrei nenhuma de ferro. Todas eram daquelas com uma superfície anti-aderente. Dizem que não faz mal à saúde. Mas também se diz o contrário.

Aplicando-se o princípio da precaução, já de há muito tinha abdicado da cozinha sem gordura, numa postura liminar de recusa às frigideiras onde a comida não cola. Mas agora que precisava de uma nova, decidi reconsiderar os meus pruridos em relação à matéria e iniciei uma vasta revisão bibliográfica, começando por reputados sites de aconselhamento doméstico. Lá estavam os medos habituais associados a qualquer produto químico que não se consegue pronunciar – neste caso os assustadores ácidos perfluoro-octanóicos e os indizíveisperfluorooctanossulfonatos, ou a família ortograficamente indigesta a que ambos pertencem, a dos alquilsulfonatos perfluorados.

Os receios vão do risco de cancro a domínios curiosos, como o dos pássaros engaiolados. Aparentemente, em tempos faleceram alguns nos Estados Unidos, enquanto os seus detentores fritavam hambúrgueres em frigideiras anti-aderentes. Não vale a pena aprofundar este aspeto em particular. Uma ave numa gaiola já está meio morta e ver um petisco lá em baixo do qual não pode tirar uma lasquinha é apenas o empurrão final.

Este ano, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar produziu um vasto relatório sobre esses químicos, que se encontram no corpo de nove em cada dez pessoas nos Estados Unidos. São 345 páginas absolutamente incompreensíveis, das quais consegui, depois de algum contorcionismo cerebral, extrair que alguns produtos mais temidos foram banidos, que os riscos para a saúde humana são improváveis e que faltam dados para suportar cabalmente a afirmação anterior. Esta é a história dos químicos que inventámos: depois de entrarem no mercado é que se foram avaliar as consequências.

Desconfiado, reiterei o meu veto às panelas anti-aderentes. Mas sobre as alternativas – os tachos de alumínio, de aço inoxidável, de cobre, de cerâmica – também se diz tudo e mais alguma coisa, de temíveis riscos a garantias de total segurança.

Estou convencido de que vou morrer da comida – provavelmente de um mal cardiovascular – antes que os tachos me façam mal. Entretanto mantenho-me fiel ao ferro, que até faz bem. E encontrei uma frigideira, pesada e com um cabo que aquece ao rubro. Anémico não fico, mas já queimei os dedos e ando com uma tendinite.

Um comentário a A química da frigideira

  1. Excelente texto. O ideal era deixar cair o termo “frigideira”, galicismo desnecessário, porque em português temos a bela “sertã”. Boa sorte para curar a tendinite!

    Responder

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>