A hora de passar camisas

Ando obcecado com a electricidade. Toda vez que ponho um aparelho a funcionar em casa, corro para o habitáculo que o contador partilha com o quadro eléctrico, abro a portinhola e verifico o estado daquele disco que gira à velocidade do consumo. Se roda vertiginosamente, entro em pânico e vou à procura do culpado.

No outro dia, foram as camisas, a única peça de roupa que passo a ferro. Engomar é uma forma de vencer a entropia que a máquina de lavar estimula nas fibras. De montanhas o ferro faz planícies e com isso o cidadão pode se olhar no espelho sem achar que já está no fim do dia, e não no seu princípio.

Tem o seu preço, é claro. Tudo o que o aquece rapidamente é um buraco negro para a energia. Para o benefício térmico desejado, quantidades industriais de electricidade têm de ser convertidas em calor. Máquinas de lavar, radiadores, termo-acumuladores, fornos, chaleiras, são todos glutões eléctricos de primeira.

Mesmo consciente, tive de me certificar do mal. E lá estava: uma vez ligado, o ferro levou o contador a um despudorado orgasmo rotativo. E eu é que estava a pagar o espectáculo, pois cada volta completa retirava mais valor à minha conta bancária em débito directo para os cofres da EDP e os seus dividendos.

Ir a correr para o contador não é método que se apresente para aferir o consumo de electricidade. Até 2020, se uma directiva europeia que ninguém vai cumprir for cumprida, 80% das habitações da UE estarão equipadas com os chamados contadores inteligentes. Dirão em qualquer instante e para todos os momentos do dia o quanto estamos a consumir e quanto estamos a pagar. E assim permitirão que cada família, munida da sua radiografia energética, reorganize a sua rotina para poupar electricidade.

A ideia é tão genial que rapidamente foi criticada. E em parte com razão. A Entidade Reguladora para os Serviços Energéticos, que os fornecedores odeiam e os consumidores não entendem, já chegou à conclusão de que, no caso do gás, os contadores inteligentes vão trazer mais custos do que benefícios.

Para a electricidade há dúvidas. E perante a incerteza, nada como um novo diploma legal para revigorar quem manda e acalmar quem obedece – neste caso uma detalhada portaria, que li com grande interesse até dormir no artigo segundo. Novamente desperto, avancei mais até ficar a saber que o regulador fará estudos bianuais para verificar quando a introdução em massa dos contadores inteligentes será de facto economicamente vantajosa.

Quando este momento libertador se concretizar, haverá mais uma categoria de desempregados no país: a de leitor de contadores. No seu lugar, teremos a transmissão automática, em tempo real, dos dados de consumo para um limbo informático. A aludida portaria garante a máxima confidencialidade das informações armazenadas, ignorando assim o mundo em que vivemos.

Inegavelmente, os contadores inteligentes são um poderoso instrumento. Para o consumidor letrado, que sabe fazer contas e ler gráficos – calculem quantos – não há melhor guia para gerir como se usa a electricidade. Para os operadores eléctricos, não há melhor ferramenta comercial do que uma base de dados com o perfil de consumo de milhões de clientes.

Não me supreende. A vida privada é um valor em extinção, e quem ainda não o percebeu que olhe para a sua própria conta no Facebook. Além disso, há anos que as operadoras de telemóvel sabem para quem eu telefono. Agora, o fornecedor de electricidade saberá a que horas passo camisas.

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