A insustentável leveza da caneta

A culpa foi do meu filho. Foi ele que me induziu a um trauma extemporâneo, contraído num ápice durante uma explicação de física depois do jantar. Em nome da justiça familiar, tenho de admitir que, na verdade, ele não teve responsabilidade nenhuma. Apenas disse: – Desde que me conheço vejo-te a fazer isso: quando explicas […]






Ruína auditiva no comboio

Para o trabalhador cansado, são incontestáveis os benefícios terapêuticos do comboio. O indivíduo vem do emprego fisicamente apático, psicologicamente moído e intelectualmente vazio. Tudo o que quer é afundar-se no assento e deixar-se levar, subordinado ao balanço da composição. Freud aí veria, além de sexo, um claro regresso à infância, a carruagem como uma representação […]






O peixe que tramou a reciclagem

Vocês não imaginam o cheiro a peixe que estava no caixote. O responsável pelo transtorno nasal devia ser o saco de plástico que transportara a corvina. E que belo representante da ictiofauna, aliás. Escamas luzidias, carne rija, barbatanas intactas, olhos translúcidos, tinha todos os sinais de frescura. “É esta”, disse eu apontando para o bicho, […]






Smartphone sem bateria

Acordar hoje, na omnivigência dos smartphones, já não se resume ao simples acto de abrir os olhos. É claro que nunca foi apenas isso. A retração involuntária das pálpebras é usualmente seguida do ímpeto deliberado de as fechar, ao qual o corpo reage puxando as cobertas até ao queixo e fingindo-se de morto, para ver […]






O enterro do berbequim

Deu imenso dó ver aquele conjunto aos bocados, com a carapaça de plástico esventrada e os mecanismos intestinos para fora. Todas as partes tinham sido cuidadosamente desparafusadas e meticulosamente desmontadas. E, no entanto, a drástica cirurgia fora inútil: o berbequim não se salvou. É pena, porque a ferramenta acompanhava-me há mais de vinte anos, desde […]