Então, meu?

Então, meu? O que é que se passa contigo? Desculpa estar a tratar-te por tu. É que vens tantas vezes lá à casa que já és quase da família.

Respeito o teu trabalho, digo-o com sinceridade. Mas já te disse para não bateres mais à minha porta. Não quero comprar o que me ofereces. Esquece, estás a perder tempo.

Mas, não, tu insistes. E como insistes. Sempre à pior hora, quando estou em plena laboração culinária, ou então à mesa, no consumo coletivo do resultado.

Compreendo a tua estratégia: apanhar a família toda em casa, mulher, marido, filhos, no momento em que o repasto está findo e todos se preparam para a submissão noturna à TV, em abnegação fundente do corpo e do intelecto. É o momento certo para o bote, para anunciar as maravilhas do imbatível pacote com dezenas de canais que nunca serão vistos, mais Internet, mais telefone, mais telemóvel, e nem sei mais o quê.

E que pechincha! Tudo isso por um cêntimo a menos do que um número redondo, esta tática ancestral e primária de fingir que algo é mais barato do que realmente custa. É desconcertante imaginar que ainda haja mentes suficientemente preguiçosas para acreditarem, por exemplo, que 9,99 euros estão mais próximos dos nove do que dos dez. Como o ardil se mantém, suponho que funcione. E se funciona é porque pressupõe, ou induz, uma harmonização horizontal da burrice, o que não deixa de ser justo, do ponto de vista da equidade social. É o benchmarking cerebral ao contrário.

O preço é, porém, o que menos importa. O que vale é que continuas a bater à minha porta, mesmo que eu já tenha dito vezes sem conta que não quero comprar o que vendes. Vou-me defendendo como posso. Via de regra, sigo o padrão politicamente correto. “Olhe, amigo. Não estou interessado. Mas obrigado de qualquer forma e bom trabalho”, digo. “Já agora, peça por favor ao seu coordenador que retire a minha morada da lista de potenciais clientes”, acrescento.

“Claro”, diz-me o teu emissário. De nada adianta. Dias depois, está lá outro. E alguns dias depois, outro. Vêm sozinhos ou em pares, uns mais novos, outros mais velhos, às vezes homem, às vezes mulher, numa rotatividade estratégica, de modo que qualquer interlocutor tem sempre a desculpa de não saber que eu antes já tinha pedido para não me chatearem.

Vou confessar-te uma coisa: eu até olhei para o folheto, na vigésima quinta vez que o deixaste à minha porta, com o vigésimo quinto nome de contacto do delegado comercial, antes de deitá-lo pela vigésima quinta vez à reciclagem. Sei que, nestas coisas, o capitalismo selvagem não brinca em serviço. Qualquer promoção irresistível ficará mais cara do que a da concorrência num período de tempo inferior ao que nos obriga o contrato de fidelidade.

Mas desta vez surpreendeste-me. Fiquei a saber que as chamadas grátis ilimitadas que anuncias afinal têm um limite – que é balizado pelo que chamas “uso responsável” da tua oferta infinita. A partir daí, apesar de gratuito, é a pagar – situação paradoxal que confere à lexicografia uma nova dimensão, a dos vocábulos que, uma vez transpostos para a realidade, resultam no contrário daquilo que são.

Queres um conselho? Se pretendes convencer alguém a ser teu cliente, não lhe chames irresponsável logo à partida. E sobretudo não marteles a paciência do lar alheio com visitas sucessivas à hora do jantar. Não percebes que não vale a pena? Então, meu?

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