Guerra ao mofo

Toxicos

O mofo instalou-se em todo o lado, sem pejo ou cerimónia. Não, não estou a falar da situação política, terreno propício a algum bolor. Refiro-me às paredes, às juntas e aos cantos; às cortinas, aos móveis e às portas; às roupas, aos papéis e aos livros; enfim, a todas as superfícies vitimadas pelo ataque sazonal dos fungos, com a sua máscara lúgubre de pontos negros.

Não há quem escape a este martírio invernal. Culpar a meteorologia é, porém, um insulto ao intelecto. O estado do tempo é um dado de partida, ao qual o engenho humano tem de se adaptar.

Olhando para o triste panorama das paredes da minha cozinha, concluí que o problema advém de uma frustrante ironia da sustentabilidade doméstica. Há uns anos, em prol da eficiência energética, substituí todas as janelas de casa por esquadrias estanques, de vidro duplo. Senti-me o rei do ambientalismo contemporâneo – diga-se, aliás, entre parêntesis aqui irrelevantes, que os monarcas têm sempre um pendor ecológico, sobretudo um fraquinho pela natureza, desde que a possam matar de vez em quando em régias caçadas.

Voltando às novas janelas, de facto cumpriram a sua função terapêutica para o planeta, reduzindo o consumo de energia no aquecimento. Mas, juntamente com o calor, enclausuraram uma série de companhias atmosféricas indesejadas, da insinuante humidade a todo o tipo de emanações nocivas. Os problemas de poluição do ar interior que estão a ser causados pela folia dos vidros duplos é algo que ainda há de captar a atenção pública, provavelmente quando os danos já forem superiores aos benefícios.

Desencantado, perdi o juízo e decidi enfrentar o mofo pela força. Um amigo sugeriu-me um produto milagroso que acabara de utilizar. “Pulverizas, deixas atuar durante uns minutos e as manchas desaparecem. É incrível!”, explicou. Não devia ser coisa inofensiva, mas eu estava desesperado. Para amenizar o drama de consciência, saí de bicicleta para o comprar. Eram dois quilómetros de subida. A meio, quando eu já estava no meu limite pulmonar, um cão velho e zarolho surgiu a correr em desenfreada perseguição, determinado a roer o meu tornozelo direito. Tive de acelerar e, quando cheguei à loja, as artérias do pescoço latejavam em sinal de pré-colapso cardíaco.

Entrei na grande superfície e vi logo o produto, estrategicamente posicionado perto da caixa, que é para o cliente levar sem pensar muito. Tudo nele era assustador, a começar pela embalagem, de um vermelho capaz de curar qualquer daltónico, com dois daqueles símbolos de risco aos quais ninguém liga: o “X” de “irritante” e o peixe morto de “perigoso para o meio ambiente”.

As instruções eram um ex libris da catástrofe. Em cada duas linhas, havia uma sugestão para consultar imediatamente um médico. A menção a vapores tóxicos era particularmente assustadora. Quando cheguei à questão do frasco em si – que deveria ser classificado com um resíduo perigoso, mas toda a gente deita para o lixo -, desisti.

Tratar do problema daquela forma era uma covardia insustentável. A solução bélica seria o pior complemento ao resultado perverso da minha boa vontade ambiental ao substituir os vidros de casa. Recoloquei no seu sítio o mata-mofos milagroso – na verdade, uma lixívia ultraconcentrada -, apanhei a bicicleta e deixei-me levar pela força da gravidade, até parar numa esplanada, onde troquei a guerra ao bolor por uma cerveja. Há de haver uma alternativa.

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