Sarda ou sardinha?

Maquereaux_etal

Depois destes anos todos, por vezes sinto-me um homem cobiçado. Pelo menos aos sábados. E é logo de manhã, quando vou à praça e entro na peixaria. “Anda cá, amor”, grita uma das vendedoras, mal me vê. “Hoje tenho o que tu gostas”, insinua outra, das minhas preferidas. “Então, não queres o meu peixinho?”, propõe ainda uma terceira.

Eu cumprimento-as, mas não me deixo levar facilmente. Prossigo na minha ronda, uma volta exploratória a todas as bancas, saboreando este momento hebdomadário de protagonismo. No final, decido a quem me vou render e apresento-me à escolhida.

Sem ofensa às senhoras ou desdém pelas suas habilidades de sedução comercial, o que me faz deliberar é mesmo o peixe. Observo, toco e até cheiro. Avalio a relação qualidade-preço, claramente distorcida nas espécies mais desejadas. E verdade seja dita – se é que alguém ainda crê nas verdades que se dizem -, nunca ponderei consequentemente o quesito ambiental.

Por isso saúdo as organizações que trouxeram ao mundo a notícia de que a sarda está a minguar mas a sardinha recomenda-se. A novidade não veio sem uma dose de confusão, um elemento essencial da história. A pesca da sarda foi declarada insustentável por uma instituição britânica que responde pelo acrónimo MCS (Marine Conservation Society). Em sentido contrário, a sardinha reingressou no reino sustentável por obra de outra entidade anglófila, cuja sigla é um tropeço ortográfico da primeira: MSC (Marine Stewardship Council).

Embora com cores diferentes, ambas jogam no mesmo campeonato, relembrando que o mar não é um repositório infinito de iguarias para o nosso deleite estomacal. Aposto dez contra um, porém, que a maior parte dos cidadãos não liga a mínima para os predicados ecológicos do peixe que vai ao prato – salvo talvez em relação aos de viveiro, que um impulso ideológico nos impele a rejeitar, mas compramos na mesma porque é barato.

Eis aqui uma grande potencialidade para a TV Rural 2.0 que os senhores deputados querem que o Governo obrigue a RTP a fazer: ensinar o comum mortal a comprar peixe sem acabar com o dito. Já vejo alguns parlamentares a esfregarem as mãos em redentor júbilo, por este argumento que lhes dou de borla para meterem o nariz na programação de um órgão de comunicação social.

Sinceramente, há modos mais competentes do que o paternalismo político para se chegar à meta. A democracia é um bem, mas o mercado faz mais milagres do que várias sessões de apedrejamento discursivo na Assembleia da República. Um rótulo de sustentabilidade – como o que a sardinha recuperou recentemente – funciona, e ainda bem, porque é, antes de tudo, um bom negócio: dá dinheiro para quem inventou o sistema, naturalmente sujeito a royalties, e para quem pesca e transforma o peixe, pois vende o seu produto mais caro, pela adição de um emblema que os outros não têm.

À praça, porém, a novidade ainda não chegou. Se eu perguntar a uma das minhas peixeiras favoritas se ela é mais MSC ou MCS, arrisco-me a ser mal interpretado e levar com um rodovalho. Por ora, o selo que conta é o do preço, e neste capítulo a ratoeira está armada: a sarda é um peixe barato.

Um comentário a Sarda ou sardinha?

  1. Muito bom! E eu que pensava que a sardinha, sob o rótulo de peixe pouco nobre, se mantinha intacta às mão dos predadores….Pelo menos não viaram salmoporco. – salmões de cativeiro alimentados com ração de porco…..bjo

    Responder

Responder a Simone Mattar Cancelar resposta

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>