Lixo multado

A multa chegou de manhã, com o correio. Veio do nada, apanhando a minha amiga completamente de surpresa. As palavras verdadeiras aqui não importam, perdoem-me o realismo fantástico, mas o sentido daqueles 300 euros de coima era este: “Grande malandra, deixaste o lixo onde não devias, agora toma lá.”

No plano teórico – um refúgio explanatório contra a realidade –, não me choca o procedimento. A pena é um elemento necessário para a coesão social. O problema é que nem sempre funciona e algumas vezes não se justifica. O seu objetivo é corrigir comportamentos desviantes, mas não faltam casos em que o infrator, aplicado o corretivo, mesmo assim permanece torto. Por outro lado, fugir à normalidade de vez em quando não só dá gozo, como é um requisito indispensável para o avanço da humanidade. E, por fim, há situações em que o tiro sai mesmo ao lado.

Foi o que pensou minha amiga, ao abrir o envelope. “Eu, multada por deitar o lixo fora do contentor? Quando?”, pensou. Dirigiu-se às autoridades, neste caso espanholas, para esclarecer o assunto. Explicaram-lhe:

– Encontrámos umas embalagens de cartão fora do contentor perto da sua casa. Estava lá o seu nome e morada.

Fez-se luz. Umas semanas antes, ela tinha adquirido vários presentes via Internet, pedindo à loja que os entregasse em casa. Naturalmente, o capitalismo chegou embalado e foi preciso desfazer o embrulho, tarefa que os próprios entregadores cumpriram com impecável zelo e competência. Fizeram um trabalho limpo, levando consigo todos os desperdícios que, embora pertencessem materialmente à aquisição, tornaram-se dispensáveis, uma vez consumado o transporte.

Fechada a porta, desfizeram-se da tralha na primeira oportunidade, apoiando as embalagens de cartão sobre o contentor do lixo, no qual não cabiam. E foram-se embora, deixando ali, com a civilidade possível, aquele testemunho mercantil.

É claro que a autora da transação não fazia a menor ideia do fim dado às embalagens. Já não era com ela. Pois se há coisa que não falta no dia a dia do ser urbano são oportunidades de aplacar as suas inquietudes quanto ao destino dos resíduos. Um item deitado no caixote do lixo é um item morto, ao qual o cidadão comum já não dará qualquer atenção.

Dos males, um lixinho será talvez o menor. Um resto de tinta misturado com solvente, por exemplo, causará mais mossa na novel consciência de qualquer aspirante a ecologista. Consagrar a referida solução à sanita, para imediato desaparecimento perante fluxo redentor, é a alternativa mais comum. A algum lado irá dar aquela ruinosa mistela. Mas do lado de cá, o problema ficou resolvido.

Se a função ficar por conta de terceiros, melhor ainda. Compra-se um frigorífico novo, a empresa leva o velho e não se fala mais nisso. No máximo, ficamos a torcer para que o aparelho usado não seja atirado para uma ribanceira. Entre o desejar e o garantir, no entanto, expande-se o mucoso pântano onde a inércia vinga e as vontades sucumbem.

Para o cidadão, é fácil esconder-se sob indolentes desculpas. Para uma indústria, contudo, o campeonato é outro. Despejaram os efluentes para uma ribeira? Entregaram o lixo para uma empresa afinal sem escrúpulos? Bandidos! Parem as máquinas e chamem a polícia.

A minha amiga é que não escapou da responsabilidade que à força lhe comunicaram. A pena foi impiedosa e não lhe restou senão contestar o método, mas não a matéria. A morada estava lá na etiqueta, não havia como negar o involuntário crime. No final, apresentou um recurso apenas para reclamar o direito legal a um desconto, caso pagasse de imediato. Acreditem ou não, há saldos hoje até nas multas.

4 comentários a Lixo multado

  1. Não percebi se considera que capitalismo é comprar uma coisa (?!) ou se a sua amiga comprou o capitalismo. No socialismo também se compram coisas mas é com autorização do Partido e normalmente demoram 10 anos a chegar (se autorizadas claro). É tão chique dizer mal do capitalismo, não é? Principalmente quando se escreve numa plataforma que só é acessível a milhões de pessoas por via do mesmo capitalismo. Enfim… é a tristeza intelectual do costume contra o sistema económico que mais retirou (e continua a retirar, aos biliões) pessoas da pobreza.

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    • diga de outra forma, continua a retirar ou a meter os biliões de pessoas na pobreza? por via do capitalismo é que estamos num mundo que mais não é um caixote do lixo das grandes empresas. pareceu-me comentário mais virado para fascismo
      .

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  2. Julgo que a CML também já tentou multar da mesma forma mas sem grande sucesso. Na realidade a prova é bastante fraca, que controlo tem um cidadão sobre o que põe no contentor depois de este estar na rua. Ainda mais porque os contentores azuis são vasculhados por “particulares” antes de chegar o camião de recolha da CML.

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