Greve poluente

Não havia hipótese, eu tinha de vir de carro para Lisboa. Sempre que o faço, mais uma célula do meu epitélio ambientalista se escama. Mas não restava mesmo alternativa. Eu vivo a 25 quilómetros do meu posto de trabalho, distância impossível de vencer pelos modos normais num dia de greve. Os comboios estavam parados, o metro não circulava e qualquer paliativo para cumprir os serviços mínimos, em particular aqueles autocarros fretados que só passam após duas horas de espera, implicaria subordinar o corpo a doses extremas de esmagamento contra carnes alheias – um exercício que só se recomenda se for possível escolher a peça.

Tinha de vir de carro, era a única solução. Que me perdoem os camaradas dos sindicatos, mas greve nos transportes públicos é o que há de pior para o planeta. Como toda para-lisação laboral, o seu objetivo é provocar confusão, neste caso impedindo o fluxo normal de pessoas e bens. Até agora, ninguém parou é para pensar no ónus atmosférico que isto representa.

Partimos cedo, eu e minha mulher, prontos a enfrentar o trânsito e os seus corolários poluentes. Com tantos a optarem pelo automóvel próprio, o congestionamento começara mais cedo e terminaria mais tarde, fundindo milhares de viaturas num bloco uno a tossir dióxido de carbono.

Esgotados os assuntos conjugais depois dos primeiros dez minutos de para-arranca, lançámo-nos numa observação sistemática da ocupação média dos automóveis. A expe-riência tropeçou no tráfego lento, circunstância complicadora de contagens objetivas, dado que carros ultrapassados há cinco minutos tendem a reaparecer subitamente ao nosso lado. Mas o método científico é infalível – a não ser quando falha – e, com ele, conseguimos uma amostra razoável.

O resultado é de envergonhar até os maiores pecadores ecológicos. Nada menos do que 80% dos carros observados traziam apenas o condutor, absorto nos seus pensamentos ou na falta deles. Apenas 18% tinham dois ocupantes. Mesmo com contorções arriscadas da órbita ocular, não foi possível avistar um único carro particular com três pessoas a bordo. Quando finalmente surgiu um, mesmo lado a lado connosco, afinal era uma viatura comercial – categoria excluída pelos pressupostos metodológicos do ensaio.

Com quatro passageiros, viram-se dois raros exemplares – 2,3% da amostra. Um deles merece comenda, pois enquanto um dos transportados dirigia, os outros três dormiam, poupando-se assim o verbo a conversas tolas. Aparentemente, era o único caso de “car pool”, termo inglês bonitinho que se refere à partilha de automóveis. A solução é tão boa que tem alimentado propostas oficiais de faixas exclusivas de rodagem, as “vias de ocupação elevada”, prontamente esquecidas pelos oficiais que as propuseram.

No meio de tanto automóvel, o troféu verde vai para uma mota com dois passageiros – representando uma emissão per capita de 1,2 gramas de CO2, ida e volta, segundo as contas do site Carbono Zero. Só um carro com quatro pessoas tem melhor desempenho. O último lugar cabe a uma viatura rebocada, ou seja, sem ninguém lá dentro. Ia com o motor desligado, mas o reboque teve de suar mais CO2 para a carregar às costas.

Tudo isto já é de si o retrato habitual nos acessos a Lisboa. Um dia de greve apenas multiplica o dano. Ainda há de ser inventada uma paralisação mais ecológica nos transportes, que moa o juízo ao patrão, mas preserve o ambiente. Enquanto isso, mantenhamos porém o respeito pela classe trabalhadora. A luta continua.

3 comentários a Greve poluente

  1. “Que me per­doem os cama­radas dos sindi­catos, mas greve nos trans­portes públi­cos é o que há de pior para o plan­eta.” – Lamento mas não concordo. A defesa da sobrevivência da espécie ameaçada “transporte público”, e da espécie a que o Governo literalmente abriu a caça “transporte ferroviário” (promovida por Sócrates e Passos, seguindo o “bom” exemplo de Cavaco nos anos 90), fundamental num país que importa cerca de 80% da energia que consome 60% da qual é petróleo que termina principalmente nos motores de combustão dos automóveis, é também feita através das lutas dos trabalhadores, mesmo que com o sacrifício (também para os trabalhadores que perdem remuneração numa altura em que é preciso ser particularmente corajoso para o fazer…) de um dia de greve e os seus impactos no ambiente… Muito pior é termos todos os dias uma economia social e ambientalmente insustentável!

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  2. Se está tão preocupado com a poluição ambiental em dias de greve nos transportes, porque é que não aproveita para fazer greve também? Se não for a favor dos trabalhadores e dos seus direitos, pode fazê-la em defesa do planeta… Ou a sua preocupação ambiental só chega ao ponto em que constitui mais uma maneira de criticar e pretender limitar o direito de greve?,

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