Bicicleta roubada

Desci do comboio com uma sensação ambivalente. Era tarde e estava frio. Eu vinha já cansado e teria de enfrentar dez minutos a pedalar, sempre a subir, até a minha casa. Por outro lado, faria exercício e evitaria a emissão de valentes quantidades de CO2 num percurso curto, que não faz sentido cumprir de carro.

No saldo da balança, os benefícios superavam as desvantagens e, convencido da bondade da minha opção, saí da carruagem já paramentado, capacete na cabeça, luzes à mão, cachecol posicionado em modo de proteção gutural.

Mas vinha com um pressentimento negativo. E, provando que quando não queremos uma coisa ela acontece, o mau presságio materializou-se, embora o termo aqui não seja o adequado: tinham roubado a minha bicicleta. Onde antes estava o velocípede, amarrado com uma corrente no local próprio para o efeito criado na estação, agora não havia nada — nem bicicleta, nem corrente, nem qualquer vestígio do ato de usurpação em si.

Para quem é alvo de um furto, a primeira sensação é a de desconfiança em relação a si próprio. Cogitamos onde teremos deixado o artigo perdido, se o seu desaparecimento não terá sido, na verdade, um ato de esquecimento da nossa parte. Neste caso, não. Eu sabia que tinha trazido a bicicleta para a estação. Tinha sido há dois dias. Facilmente deduzi que não terá resistido à exposição noturna e aos seus consequentes imponderáveis. Alguém terá lá passado na primeira noite, visto a bicicleta, e na segunda certamente pensou: “E seu levasse isto?”

Não levou grande coisa, posso-vos garantir. O veículo não tinha nada de especial, era a mais banal das bicicletas. Duas rodas, um quadro, direção e pedais. Não tinha selim especial, nem materiais tecnológicos, nem amortecedores.

Os travões quase inexistiam, as mudanças eram uma lástima, o conjunto todo estava velho e sujo. Eu nem sequer tinha gasto dinheiro com ela. Ganhara a bicicleta há 13 anos, como brinde na compra de um computador — uma combinação curiosa, com o aparente mérito de estimular o desporto em quem passa horas à frente do ecrã.

Daí que a segunda sensação do roubo tenha sido a de incompreensão: por que é que foram levar algo sem qualquer valor, monetário ou funcional? Compreendo, pela observação empírica da sociedade, que o ser humano é dado a fraquezas como esta de se apropriar de algo simplesmente porque o dono não está perto. Convenhamos que há uma lógica de eficiência neste comportamento. Uma bicicleta deixada dois dias numa estação de comboio não está a fazer serviço nenhum, mais vale pô-la a rodar sob os pés e os glúteos de um terceiro interveniente.

Este frouxo raciocínio não é suficiente para afastar o terceiro sentimento pela perda: raiva. Raiva por me terem levado uma bicicleta velha que me dava jeito. E raiva porque, com esta gatunagem rasteira, deram cabo de uma porção importante da sustentabilidade das minhas deslocações. Andar de bicicleta é um sintoma de evolução civilizacional. É um meio de transporte incomparável, do ponto de vista ecológico e cardiorrespiratório. Mas agora, enquanto eu não me mexer para adquirir uma nova, vou ter de regressar ao contrassenso mastodôntico de utilizar o carro, e os seus 1200 quilos, para ir de casa até à estação.

Com os preços que vigoram agora nos transportes públicos — com que o Governo entendeu dinamitar a preferência dos utentes pelo modo coletivo —, o roubo da bicicleta é mais uma machadada a sugerir que o melhor é esquecer o ideal do desenvolvimento sustentável e vir de automóvel de uma vez para Lisboa.

Por isso, aos autores do serviço, se me estiverem a ler, deixo aqui uma sugestão: da próxima, levem-me o carro.

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