Moedas históricas

Devem estar a brincar comigo. Brincar é modo de dizer, afinal é apenas um negócio o que me oferecem no postal que me chegou às mãos. Um negócio da China, diga-se de passagem, mas apenas a quem vende. Para o comprador, consciente ou incauto, adquirir 12 cêntimos por dois euros só pode ser classificado como um ato suicidário para a sustentabilidade da carteira.

São 12 moedas de um cêntimo, uma de cada país fundador do euro. A edição é histórica — são as primeiras moedas do género cunhadas. E, além de histórica, é comemorativa — estamos no décimo aniversário da divisa europeia. Os lançadores da iniciativa possivelmente não contavam era que, em 2012, não houvesse nada para celebrar, muito pelo contrário. Tinham tudo pronto para uma festa em grande, mas o convidado principal, amparado por muletas e em profunda crise existencial, encontra-se inabilitado para desfrutar do baile.

Colecionar moedas tem o seu apelo, mas o próprio euro retirou-lhe parte do élan. Antes, um franco, uma peseta, um marco ou um dracma tinham um sentido próprio. Guardavam-se como testemunhos de um dia ter-se estado num determinado país e provado a sua singularidade. Com tudo reduzido agora a um denominador comum, não só as moedas em si são praticamente iguais, como a sorte de uns arrasta a dos demais, numa espiral que deveria ser ascendente, mas que está a dar para o torto.

Fico a pensar se não seria melhor voltar aos tempos do escambo e do pagamento em espécie. Do ponto de vista ambiental, não é fácil avaliar se o saldo seria positivo. Prescindir do dinheiro encerra algumas vantagens. Poupam-se os recursos e a energia gastos na sua fabricação e distribuição. Não haveria balcões bancários, nem se arrombariam caixas multibanco, com consequente economia de explosivos, bulldozers e gasóleo. Caixas registadoras desapareceriam e, com elas, parte do consumo elétrico do comércio. Num sistema de trocas simples, a ausência de intermediação monetária implica, essencialmente, um peso a menos. Ou não: se pagassem os salários em borregos, não estaríamos mais bem servidos.

A verdade é que ao longo dos séculos, desde que surgiram as primeiras moedas, o dinheiro é que acabou por prevalecer. Não se deve menosprezar a carga argumentativa da história: se ninguém teve uma ideia melhor nesse tempo todo, é porque de facto as moedas dão jeito.

Seja como for, não custa submeter a tradição à prova — um bom exercício a qualquer tempo. E o que não falta são sítios na Internet a reintroduzir a permuta como veículo de circulação de produtos. Troca-se tudo nestes pontos virtuais de encontro. Há até os que promovem a doação pura e simples. Fui a um deles no outro dia, para conferir o que havia, e encontrei livros escolares, suportes para televisores, canecas de cerveja (vazias), móveis, cassetes de música, filmes, utensílios de cozinha, lâmpadas, óculos de sol… Do amplo espectro de ofertas constavam ainda preciosidades únicas, como um forno de encastrar avariado ou uma manga para ligar a sanita ao autoclismo. É correr, minha gente.

Permutar serviços já é mais difícil. Tentei uma vez, há vários anos. Eu ofereci aulas de guitarra, em troca de aulas de flauta. Ao final da primeira sessão, eu retomei a guitarra, o flautista pegou no seu instrumento e fomos tocar baladas para o bar mais próximo, rendidos à força do numerário.

Não, as moedas não vão desaparecer. Podem é perder variedade, como aconteceu com a introdução do aborrecido euro. Ainda mantenho, num pequeno frasco, alguns exemplares da extinta biodiversidade numismática europeia. Mas não contem comigo para lá colocar as moedas comemorativas de um cêntimo que estão agora à venda. Ou se calhar não. Pelo andar da carruagem, aquelas peças podem vir a assumir um valor histórico em muito pouco tempo. Pensando bem…

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