Mapa fatídico

Antes da Internet, os mapas em papel estavam sempre à mão. Havia três ou quatro de Portugal em diferentes pontos da casa, um no carro, um na mochila. Em termos geográficos, eu estava sempre orientado, bastava quase que esticar o braço e o país submetia-se, em duas dimensões, à observação orgânica, sem eletricidade.

Aos poucos, no entanto, foram sendo confinados à “caixa”. Está repleta de exemplares do apogeu da cartografia impressa: registos gráficos de cidades, de países, de continentes, todos mais ou menos datados, no conteúdo e na memória. Foi lá que vim a dar com um mapa de Portugal de 1989. Eu apenas queria localizar uma determinada vila, mas acabei por desenterrar uma desconcertante narrativa da história ambiental do país.

A primeira impressão foi estritamente física, nasal. Embora cheia de papéis, a caixa está depositada numa das mais expressivas zonas húmidas do apartamento, um contrassenso evidente que apenas atesta o triunfo da preguiça sobre a lógica. Abrir-lhe a tampa é o mesmo que introduzir narina acima um naco de queijo roquefort coberto de pólen das searas. Só depois de dez minutos de espirros irreprimíveis é que se pode começar a apreciar a matéria de facto.

Refeito do ataque alérgico, abri o mapa de Portugal sobre a mesa da cozinha e notei que era o mesmo que eu usara para assinalar, há 22 anos, os pontos negros da realidade ambiental do país. Naquela altura, eu andava com a carta no bolso e ia solicitando a biólogos, urbanistas, ecologistas e demais mentes atentas que nele indicassem onde estavam os males. O resultado foi transposto para um artigo, com uma ilustração do país completamente tomado por possíveis ameaças, quase sem nenhum espaço livre, ao ponto de um diretor do jornal me ter dito: “Se é assim, não se pode fazer nada no país.”

Mas fez-se. No mapa de 1989, as estradas dispersavam-se num sistema radicular de caminhos sinuosos, obedecendo à orografia e, de certa forma, à pobreza. A A1 ainda não ligava completamente Lisboa ao Porto e, na direção do Algarve, só até Setúbal é que se circulava em via rápida.

Em duas décadas, o território foi esquartejado por autoestradas, em nome de um prometido progresso, que, como sabemos hoje, afinal pouco passou de utópico. Os automóveis multiplicaram-se, as cidades cresceram, a ruralidade minguou, as indústrias fecharam, a floresta ardeu.

O território não conseguiu, nem de longe, nem de perto, chegar à indispensável ordem que sucessivas leis e normas lhe tentaram impor. O capital andou à frente dos outros pilares do desenvolvimento sustentável e hoje, ao olhar para o tal mapa de 1989, concluo que muitas das mazelas ali anotadas ainda se mantêm. O risco de incêndio, a erosão costeira, os buracos das pedreiras, a eterna ameaça de uma maré negra, algumas minas ainda abandonadas, o impacto da construção de barragens, as autoestradas, as suiniculturas, os rios poluídos, os entulhos, a urbanização exacerbada, as áreas protegidas pouco protegidas.

Dois novos acessos de espirros impediram-me de chegar ao fim do retrato. Para evitar uma depressão clínica, evoquei mentalmente alguns pontos positivos neste dever e haver, que manifestamente existem, a começar pela melhoria da qualidade do ar e da água, a revolução no tratamento do lixo, a consideração vinculativa do ambiente nas decisões sobre grandes projetos. Mesmo aí, no entanto, falta alguma coisa: produzimos hoje mais resíduos, desperdiçamos água e o processo de avaliação de impacto ambiental é muitas vezes um mero pró-forma.

Esmagado por estes sintomas de sustentabilidade rastejante, fechei o mapa. Para encontrar a tal vila, vou antes à Net.

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