Como desorganizar um país: primeira aula

PortugalMal se abriram as portas do autocarro perante o avião, ouviram-se os primeiros comentários. “Eh pá, é dos pequenos”, disse um passageiro, decepcionado. Outros agitaram-se em risadinhas fisiológicas, daquelas que nos brotam paradoxalmente ante o estranho ou o indesejado. “Só depois de amanhã é que lá chegamos”, gracejou uma senhora, com o pé no primeiro dos quatro degraus da escada.

Não havia razão para desassossego. De facto era uma das menores aeronaves da frota, mas ainda assim levava 50 pessoas, viajava a mais de 800 quilómetros por hora e subia acima dos 11.000 metros, como qualquer jacto comercial. A disposição dos assentos até trazia vantagens: dois de um lado e apenas um do outro, conferindo a este último meio metro quadrado de privacidade.
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Minha caixa de correio está cheia de boas festas

Aprecio muito terem-se lembrado de mim. Mas desconheço qualquer relação de amizade, grau de parentesco ou afinidade laboral que justifique o cartão de Natal que me enviaram. Chegou dia 23 de Dezembro à minha caixa de correio electrónico. E não veio sozinho.

A mensagem da Hexagon Safety & Infrastructure penetrou na minha privacidade digital com a mesma enxurrada que trouxe outras de igual conteúdo, encaminhadas por entidades ou pessoas com as quais nunca partilhei episódios de vida. Fui ver de que empresa se tratava e li que a sua especialidade é ajudar organizações “a superar obstáculos para melhorar operações e gerir mudanças de uma forma inteligente e eficaz”. Na virada do ano, até que vem a calhar.
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Como desestimular um filho a votar

notificacaoEle não ligou muito ao envelope com o seu nome. Afinal, como todo jovem de 18 anos, meu filho mais novo vive no mundo digital. Receber uma carta comum, em papel, é um evento apático, mais propenso à indiferença do que à curiosidade.

Chamei-lhe a atenção para a importância daquela em particular. Mas ao ler o primeiro parágrafo, via-se logo que nem um monge resistiria à notável falta de magnetismo da missiva. Assim começava: “Em cumprimento do dever geral de notificação que impende sobre a Administração Pública, previsto no art.º 114.º do Código do Procedimento Administrativo…”
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O imperativo de descarbonizar a torrada

torradaPor uma torrada e um café com leite, por pouco não vou parar ao hospital. Em frações de segundo, tudo o que poderia dar errado materializou-se em desastre.

O pão era de milho. Cortei uma fatia em duas metades, inseri-as nas ranhuras da torradeira e voltei-me para o fogão para aquecer o leite. Depois, fui ver os meus emails – atividade que normalmente insula o seu praticante do mundo que o cerca. Toda a atenção é osmoticamente sugada pelo ecrã, restando um autómato inerte onde antes havia corpo e alma.
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Não se pode comer mais nada

PeixeO diabo está ali no frigorífico, em fatias. E eu comi duas delas logo antes de ler a notícia que abalou o mundo da charcutaria.

Na embalagem estava a receita do desastre. Noventa e seis por cento eram “carne de porco” – designação habilmente genérica, onde tanto cabe o lombo quanto as pálpebras do animal. Nos quatro por cento restantes do fiambre, alojava-se um assustador compêndio de química: potássio iodado, dextrose, trifosfatos, nitrato de sódio, eritorbato de sódio e outras especiarias.
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